Nada feito. 131 votos a favor, 219 contra. 75 dias depois das eleições de 20 de dezembro de 2015, Espanha vai continuar sem uma solução para o novo Governo.

Esta foi a segunda votação nesta semana — a primeira foi na quarta-feira, quando a solução governativa de Pedro Sánchez, do PSOE, e de Albert Rivera, do Ciudadanos, necessitaria de uma maioria absoluta no Congresso dos Deputados para ser aprovado. Desta vez, bastaria uma maioria simples, chegando para isso que o Podemos ou o PP se abstivessem em vez de voltarem a votar ‘não’. Não foi assim que as coisas aconteceram. E, portanto, eis o que pode acontecer agora: ou três destas quatro forças políticas chegam a acordo para uma solução de Governo até 3 de maio, ou Espanha vai ter novas eleições a 26 de junho.

Voltar “à casa de partida” significa que Filipe VI, Rei de Espanha, terá agora de voltar a escolher quem acredita ser o melhor nome para encabeçar o próximo Governo — até agora, Rajoy foi convidado e recusou, seguindo-se Sánchez, que aceitou a proposta que agora foi chumbada. Espera-se que o designado aceite a oportunidade, seguindo-se depois uma série de negociações.

Não vão ser tempos fáceis. Hoje, a sessão parlamentar ocorreu entre gritos de parte a parte, Mariano Rajoy (PP) a acusar Pedro Sánchez (PSOE) de “sectarismo”, um pedido para defesa da honra de bancada parlamentar por parte do Ciudadanos. Só Pablo Iglesias (Podemos) moderou mais o tom, onde ofereceu “amor” e “beijos”, mas, quanto a acordos, nada. Patxi López, o socialista que preside ao Congresso de Deputados, foi um poço de paciência, pedindo “decoro” e “decência” várias vezes aos parlamentares.

Recorde os discursos dos líderes dos quatro maiores partidos de Espanha, por ordem de ocorrência:

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Pedro Sánchez (PSOE) já discursava há alguns minutos, por isso começou por resumir o que estava em jogo, na sua perspetiva. “Dentro de minutos, será determinado se soubemos aproveitar esta oportunidade para a sociedade ou se deixamos escapar esta oportunidade para a sociedade espanhola”, disse, para depois passar a fazer algumas perguntas retóricas: “Queremos um acordo entre partidos? Sim ou não? Queremos evitar novas eleições? Sim ou nao? Queremos começar a aplicar as políticas de mudança? Sim ou não? Queremos evitar um Governo de Rajoy? Sim ou não?”. E, depois, concluiu: “Não esperemos mais. Votem pela mudança”.

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Mariano Rajoy (PP) seguiu-se com uma frase clara logo ao início: “Senhor Sánchez, vamos votar ‘não’ à sua investidura”. Nessa altura, os deputados socialistas exclamavam um irónico “oooooh!”. Rajoy respondeu: “Não o sabiam? Pois então vo-lo recordamos”. De seguida voltou a insistir na ideia de que o PP é “a primeira força política de Espanha”, acusando depois o PSOE de “sectarismo” e de querer “demolir a obra do PP nos últimos quatro anos”. Por fim, terminou, aludindo ao período de novas negociações que se seguirá: “Não obrigue os espanhóis a terem de se pronunciar no próximo 26 de junho”. Isto é, a data para novas eleições, caso não haja entendimento até lá.

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Pablo Iglesias (Podemos) começou por falar do beijo que deu ao deputado catalão Xavier Domènech na quarta-feira, sublinhando a cara de espanto do ministro da economia, Lluis de Guindos. “Parece que nunca partiu um prato”, gracejou o líder do Podemos. Depois, dirigiu-se a Sánchez: “Eu sei que não fará parte dos seus melhores sonhos governar comigo e os nossos também não são trabalhar convosco. Mas a partir de agora podíamos juntar-nos pois estão dipostos a trabalhar”. E terminou, falando de beijos de novo: “Na política espanhola, o amor está no ar. Pedro, só faltamos tu e eu (…). Às vezes, às discussões mais azedas seguem-se os momentos mais doces. Oxalá, depois desta noite o acordo a que cheguemos possa chamar-se o ‘acordo do beijo'”.

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Albert Riviera (Ciudadanos) seguiu-se no rol de discursos, onde dirigiu grande parte das suas críticas ao Partido Popular e a Rajoy. “Não é tempo de conformistas, senhor Rajoy, é tempo de gente que quer mudança e ação. O conformismo não é a melhor receita para os dias que vivemos”, disse. E, depois de ter confirmado o ‘não’ tanto do PP como do Podemos, como doutras forças independentistas, apontou para a conformidade de voto destes dois partidos: “Ambos os extremos da câmara vão votar no mesmo”. Mas ainda chegou a pedir-lhes que, em vez de ‘não’, se abstivessem: “Não vou pedir que se juntem, não vou pedir que construam, não vou pedir que cheguem a um acordo, mas pelo menos vou pedir que se abstenham”.