CDS-PP

Portas: os conselhos, elogios e omissões na hora do adeus

No dia em que se despediu, Portas deixou conselhos eleitorais à nova geração, avisos sobre a banca, Angola e Europa. Elogios a Cristas, Marcelo e a si próprio. "E pronto, finito". No final, lágrimas.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

O discurso foi preparado com calma e vários dias de antecedência. Na hora do adeus, Paulo Portas quis deixar conselhos a Assunção Cristas e à geração que se segue, avisos sobre o sistema financeiro e a Europa, elogios a quem o acompanhou ao longo de 16 anos. Mas também houve algumas surpresas e omissões.

Os conselhos a Cristas

O presidente do CDS lembra que “os cargos não são vitalícios” e que o CDS deve “discutir o que deve fazer por Portugal” e não perder muito tempo a discutir lugares.

Agora, diz, também é tudo uma questão de matemática. Paulo Portas quis deixar uma mensagem aos “eleitores do centro-direita” que estão a assistir à sua intervenção em casa: acabou-se o voto útil e, a partir de agora, o voto no CDS vai contar tanto como o voto no PSD. Por isso, disse, “não precisam de mudar para a segunda escolha nos últimos dias da campanha para impedir o PS de ganhar”, podem ficar fiéis à “primeira escolha” e manter o voto no CDS. Isto porque, disse, desde que António Costa formou governo sem ganhar eleições, o “sistema partidário mudou para sempre” e a partir de agora todos os partidos contam – porque é a soma das partes que faz o todo.

“O sistema partidário mudou para sempre com esta experiência. Da era do voto útil no PSD para a era em que o voto no CDS conta, e muito, eis uma assinalável diferença”, disse. “O que conta não é o partido que fica em primeiro lugar, o que conta é quantos deputados formam os partidos que podem formar maioria. Os deputados que o CDS conseguir eleger são determinantes, por isso escolham à vontade a vossa primeira opção”, sublinhou, num claro apelo ao voto dos eleitores do centro-direita para que não fujam para o PSD. “Não tenham medo [de votar no CDS]”, disse.

Mas o discurso foi ainda o de líder partidário. Paulo Portas aproveitou para pressionar Carlos Costa à demissão. “O Banco de Portugal continua a falhar. A resolução é melhor para os contribuintes do que a nacionalização do Novo Banco. Aceitei a recondução do governador do Banco de Portugal apenas e só porque estávamos em pleno processo de venda do Novo Banco. Essa venda não aconteceu. É importante que cada um se pergunte a si próprio se faz parte do problema ou da solução”, declarou Portas. Cabe agora a Cristas seguir ou não a mesma linha.

No campo da banca, Portas alertou também para as necessidades financeiras das empresas portuguesas e lembrou que o CDS “fez bem em defender que a CGD se mantivesse como banco público”. “O problema não é ter capitalistas a mais, como pensa a geringonça, mas termos grupos económicos robustos para concorrer e vencer as privatizações relevantes”, avisou.

Portas, que já foi vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa e Negócios Estrangeiros, aproveitou, em matéria de relações internacionais, para apelar “a todos, aos órgãos de soberania” para “evitar a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola. Esse seria um caminho sem retorno”.

O centrista aconselhou a que se tente “por todas as vias o compromisso”, sublinhando as “afinidades entre Portugal e Angola” e apontando para o risco de uma rutura: “O lugar que Portugal deixar de ocupar em Angola vai ser ocupado por outros países, se calhar pelos que se empenham discretamente em prejudicar as relações entre Portugal e Angola”.

Os elogios. À família, a Cristas, a Marcelo e… a si próprio

No dia do adeus, Portas não quis esquecer-se de ninguém. Entre agradecimentos aos seus mais próximos, ex-governantes, funcionários do partido, assessores e motorista, foi quando falou da família – dos pais – que mais se emocionou. “Quero agradecer aos meus pais, e à minha família, que foram os mais prejudicados pela opção que fiz e da qual não me arrependo”, disse, já a secar as lágrimas.

Sem querer esquecer ninguém, mas admitindo que havia esse risco, Portas optou por não dizer nomes mas agradeceu aos “funcionários”, “secretárias”, “assessores”, ao seu “gabinete” – “mais pequeno do que qualquer outro”-, assim como à Juventude Popular, da qual nunca fez parte (era da JSD) mas sem a qual não teria chegado à liderança do CDS no congresso de 1998, onde derrubou Maria José Nogueira Pinto contra todas as previsões muito graças ao apoio que reuniu entre os jotas.

Num discurso longo, de quase uma hora, Portas não perdeu muito tempo a falar do passado e dos momentos duros da troika “com a casa a arder”, mas quis deixar um elogio sonante à “team” (equipa): os ministros do CDS que estiveram no Governo anterior. António Pires de Lima, Assunção Cristas e Luís Pedro Mota Soares, “é de governantes assim que o país precisa”. E pediu um aplauso de pé para o trio.

Sobre o passado do partido, nem uma palavra, a não ser para Luís Nobre Guedes (o único nome referido), com quem chegou ao poder do CDS em19 98 – “quando a aventura começou” – mas com quem entretanto se zangou e afastou. Um nome que Portas “não esquece” e, só por isso, mereceu breve referência elogiosa.

Certo é que o sentimento, ao longo de toda a intervenção, foi de “orgulho” e de “consciência de missão cumprida”. Talvez por isso tenha falado mais de si próprio do que dos outros. O auto-reconhecimento foi uma constante, com Portas a sublinhar o facto de ter criado uma geração competitiva e preparada dentro do partido, e de ter sabido sair na altura certa.

Dei responsabilidade a quem só precisava de uma oportunidade, fui portanto um líder ativamente proselitista, quis atrair para o CDS os melhores e cheguei a um ponto de nomear com naturalidade uma lista de potenciais sucessores, ciente de que o CDS tem a mais competitiva”, disse.

Numa breve passagem pelo dossiê “Presidente da República”, Portas deixou uma rara palavra elogiosa a Marcelo Rebelo de Sousa, com quem tem um longo historial de atrito. Na hora do adeus, contudo, elogiou-lhe a “independência”: “Chegou a Presidente sem depender da autorização dos partidos, e eu agradeço que o chefe de Estado em Portugal seja tão independente que só dependa da sua consciência”

Para Assunção Cristas, a líder que se segue, uma palavra: “A safe pair of hands”, disse assim mesmo, em inglês. “Assunção Cristas vai ser o par de mãos seguras que vai tratar bem de Portugal”, explicou melhor, desta vez em português. Tudo para dizer que, sem ele e com Cristas, o partido e o país estará seguro.

As omissões sobre o passado e o futuro emprego

O discurso de despedida passou em revistas muito dos 16 anos do partido, mas Paulo Portas deixou algumas referências mais concretas de parte.

Logo no início, o líder mais carismático do CDS prestou “rendida homenagem à geração de fundadores do CDS”. Não foi além disto, não nomeou sequer Adriano Moreira, referência que Portas tem preservado em algumas das suas intervenções. Surpresa menor foi não ter falado em Diogo Freitas do Amaral com quem rompeu relações depois do fundador do partido ter integrado um governo socialista, o primeiro de José Sócrates, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Aliás, nessa altura, a direção de Portas chegou mesmo a enviar a fotografia de Freitas exposta à entrada da sede nacional do CDS para a sede do PS em Lisboa.

Também nem uma palavra sobre o outrora parceiro de partido e, nos últimos tempos de convívio, arqui-inimigo, Manuel Monteiro. Foi o líder que o antecedeu na primeira vez que Portas chegou à liderança, em 1998. A verdade é que nem Monteiro, nem nenhum dos outros ex-líderes do partido mereceram nomeação direta.

Também resumiu a uma curtíssima frase as crises da coligação que protagonizou, ao lado de Pedro Passos Coelho, ignorando o episódio que colocou o país à beira de uma grave crise política. O mea culpa foi feito noutro fórum, porque nesta intervenção o momento era de saída limpa, não era tempo de recordar o famoso irrevogável que ficou reduzido à recordação: “Tivemos vários problemas na coligação, porque somos pessoas muito diferentes. Quem não os tem?”.

Também nada se ouviu sobre as suas hesitações históricas no posicionamento do partido em relação à Europa. E a questão europeia teve espaço no seu discurso, quando atacou o “calculismo tático interno” do PCP e BE: “Admitir a saída do euro é dificilmente compatível com o apoio que eles dão a um governo que se diz pró-europeu”. Para trás ficou definitivamente o momento em que o próprio Portas, ainda como jornalista, se diz eurocético, passando mais tarde a “eurocalmo”, já no CDS.

Por último, mas não menos importante: ficou por explicar qual será o futuro de Paulo Portas depois de sair da liderança do CDS e do parlamento. Ficou por explicar o que fará no curto prazo, mas também os desafios que espera vir a ter a longo prazo. Não diz qual será a atividade a que se dedicará: “Fiz muitas coisas na vida e farei muitas mais com um traço em comum: farei o que sei fazer, o que vos pedi muitas vezes para fazer o que acredito que a maioria do portugueses querem fazer: trabalhar, trabalhar, trabalhar”. E também não fala em ambições futuras, ou seja, as presidenciais de 2026: “Qualquer especulação superior a seis meses é no mínimo um atrevimento”, disse sobre o que se passa na política.

Agora que entramos em 2019...

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