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Cristiano Ronaldo. As duas palavras que marcaram a semana e atiraram para segundo plano todos os outros assuntos nacionais e internacionais. O capitão da seleção nacional de futebol abandonou o estágio em Copenhague, na Dinamarca, depois de uma conferência de imprensa do selecionador nacional Jorge Jesus. E como Ronaldo é Ronaldo, só se falou sobre isso durante horas e dias, da parte desportiva à financeira, passando pelo impacto que esta saída pode ter na Federação Portuguesa de Futebol e no país. Quem sabe? De tal forma que até o primeiro-ministro Luís Montenegro falou com Pedro Proença, Jorge Jesus e com o próprio Cristiano Ronaldo. É sobre isto que vamos falar na segunda parte do episódio. Este é o "Fora do Baralho". Eu sou a Inês André Figueiredo e tenho comigo os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar Conraria, Nuno Garoupa e Susana Peralta. E vamos avançar para os naipes de cada um de vocês. Começando pelo caso das gémeas, porque esta semana foi deduzida a acusação contra quatro arguidos: Lacerda Sales, antigo secretário de Estado da Saúde, Nuno Rebelo de Sousa, filho do antigo presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Pinheiro, ex-director clínico do Hospital de Santa Maria, e Daniela Martins, mãe das gémeas. Luís Aguiar Conraria, este naipe é teu, vais dar ouros a Marcelo Rebelo de Sousa. O antigo chefe de Estado sai bem de tudo isto?

Vamos ver. Quando houver julgamento e houver testemunhos, poderemos perceber melhor. Mas para já, fica a ideia de que se safou disto. E safou disto de duas formas diferentes. Uma é que, de facto, não é deduzida nenhuma acusação contra ele, nem contra nenhum dos seus assessores. Portanto, uma coisa era ele fazer de conta que não sabe de nada, mas depois algum assessor dele fazer os contactos que são necessários para desencadear os processos. Ora, pelos vistos, nada disso foi detectado e, portanto, pessoas como eu, que tinham algumas dúvidas em relação ao seu comportamento, neste momento já começo a considerar mais credível que o filho tenha atuado por conta própria. E claro, o apelido do filho faz o resto, mas claro que Marcelo Rebelo de Sousa não podia retirar o apelido ao filho. Portanto, aí, de facto, fica uma pessoa inocente. Eu acho que esta versão dos acontecimentos, de que tudo isto terá passado à margem de Marcelo Rebelo de Sousa, ganhou alguma credibilidade ao não haver sequer nenhum acusado da sua Casa Civil. Isto, por um lado. O outro lado em que também se safou de boa, é que esta acusação é deduzida quando ele já não é presidente da República. Alguém que aparecia todos os dias enquanto presidente da República a falar na comunicação social e a dar entrevistas, se neste momento fosse presidente da República, era chato. Teria todos os dias microfones à frente a perguntar-lhe sobre o caso e sobre o filho dele. Para já, safou-se disto tudo. Não quer dizer que saia bem, porque obviamente não sai bem, mas pelo menos não sai mal, para já, e portanto, ele merece aqui algum elogio. O motivo pelo qual eu quis falar mais dele foi porque também queria fazer aqui uma espécie de, não é meia-culpa, porque eu também nunca o acusei de nada, mas de facto, eu tinha algumas dúvidas em relação ao seu comportamento, e se calhar, essas dúvidas eram injustificadas.

Nuno Garoupa, trazes um naipe de copas, que na verdade vai das copas às espadas, para falar de Sebastião Bugalho e da proposta de revisão da lei eleitoral. O porta-voz do PSD considera mais urgente reformar a lei eleitoral do que rever a Constituição. Tem ou não tem razão?

As copas são para a questão geral. Tem razão, eu também acho que é mais urgente rever a lei eleitoral do que a lei constitucional, porque a lei eleitoral está para ser revista desde 1997. É preciso dizer que é a mesma lei desde 1975. Está para ser revista desde 1997, a Constituição foi alterada para isso e o PS e o PSD nunca mais tocaram no assunto até agora. E portanto, desse ponto de vista, concordo que a lei eleitoral deve ser uma prioridade sobre a lei constitucional. E também copas para a coragem da proposta de Sebastião Bugalho, porque Sebastião Bugalho avança com uma proposta em que o partido mais prejudicado vai ser a AD, porque se houver 30 deputados ou 50 deputados de bônus para a lista mais votada, neste momento eles são a terceira lista nas sondagens, portanto, fica bem que as pessoas que estão em terceiro lugar estão a fazer propostas que vão beneficiar diretamente, segundo as sondagens, outros partidos. Por que as espadas? Porque Sebastião Bugalho deveria saber que a proposta que faz está em clara contradição com a Constituição. Portanto, se é para rever a lei eleitoral dando um bônus ao partido vencedor, lamento, mas então aí temos que começar pela lei constitucional, como já disse Vital Moreira, porque isso é completamente inconstitucional naquilo que é, neste momento, a redação do artigo da Constituição referente à lei eleitoral para a Assembleia da República. E depois acrescenta-se outras espadas, que é uma mudança de 180 graus da posição do PSD. O PSD, lembre-se, tem estado contra a reforma da lei eleitoral, porque exige a diminuição do número de deputados e os círculos uninominais como círculo nacional que imporia ou restringiria ou cuidaria da proporcionalidade. Ora, a proposta de um bônus é exatamente o contrário daquilo que o PSD defende desde 1997. E pelos vistos, ele é porta-voz do PSD e não explicou por que o PSD, em 2026, renega os últimos 30 anos e tem agora uma proposta totalmente oposta àquilo que andou a dizer. Portanto, copas para a ideia, espadas para a proposta que foi feita.

Vamos agora até Espanha, à boleia do Jorge Fernandes, que vai dar ouros à inteligência política de Pedro Sánchez. Em que situação é que está o líder do governo espanhol, Jorge?

Acho que vamos falar muito de política espanhola nos próximos meses, porque a situação em Espanha encaminha-se a passos largos para eleições antecipadas. É aquilo que neste momento está em cima da mesa, à hora que gravamos. Muito rapidamente, aquilo que aconteceu foi que há cerca de uma semana e meia houve um despejo de uma senhora idosa em Madri. Toda a gente sabe a comoção que os idosos causam, apesar de neste caso ser uma senhora até de uma classe média alta, tinha aqueles contratos que o pai dela fez nos anos 50, contra os quais eu sou completamente contra, mas é o que temos. Mas de fato a senhora foi despejada, apesar de lhe terem sido oferecidas alternativas para ela viver noutro sítio. Eu percebo, morar onde ela mora por 500 € é extremamente confortável, mas rapidamente aquilo deu origem a um movimento social muito forte, que do ponto de vista quer estético, da imagética de tudo aquilo, relembra, de resto, aquilo que foram os movimentos sociais há muitos anos atrás, no chamado 11 M, na altura das crises das dívidas na Europa, etc. E de facto, Espanha está a passar um momento muito difícil, exatamente como Portugal, sob o ponto de vista da política de habitação. O acesso à casa é extremamente complexo, os preços estão muito elevados, o preço do arrendamento está a subir imenso e Sánchez tirou aqui da cartola, depois de estar oito anos no governo. Agora, claro, ele não tem uma maioria, mas já houve muito tempo destes oito anos em que ele teve uma maioria absoluta, não de um só partido, mas que controlou uma maioria no Congresso e fez aqui estes dois decretos que estão a causar muita comoção em Espanha, estão, de resto, a ser votados à hora que nós estamos a gravar. Portanto, para situar aqui os nossos ouvintes, mas tudo indica que os dois decretos vão ser chumbados. E portanto, à partida, aquilo que vai acontecer e aquilo que se espera é que Sánchez agora aproveite isto para demitir-se e para termos eleições antecipadas. E estas eleições antecipadas são boas para Sánchez, porque no fundo permitiriam fazer aqui uma mudança da narrativa, porque aquilo que estava mais ou menos desenhado e aquilo que estava mais ou menos no ar era que os temas centrais das eleições, que são inevitáveis, porque teriam que acontecer nos próximos meses, seriam a corrupção, por um lado, e a imigração. E Sánchez, com isto, consegue dar completamente a volta ao texto e consegue fazer da habitação o tema central, que é um tema, de fato, todas as sondagens mostram que preocupa muito os espanhóis, incluindo as pessoas que são apoiantes do PP e do Vox. E, portanto, eu acho que mais uma vez ele está a dar uma lição de tática e de estratégia.

Tem sido um sobrevivente.

Completamente um sobrevivente. Ele está a dar uma lição de tática e de estratégia a muitos políticos. Ele, de facto, é um homem, um político muito inteligente, às vezes excessivamente inteligente porque faz coisas que provavelmente não deveria fazer. Mas acima de tudo, o país está um bocadinho a ferro e fogo, porque, de facto, a contestação nas ruas está a crescer, não necessariamente só contra Sánchez, mas a contestação em matéria de habitação. E eu queria aproveitar, e vou fechar com isto, para fazer aqui um paralelo com Portugal e com a anomia que existe na sociedade portuguesa, porque a situação portuguesa é até um bocadinho pior do que a espanhola, porque os salários em Portugal são mais baixos e as casas são ainda mais altas do que em Espanha, se é que isso é possível, mas de facto é o que mostram os dados. E é espantoso como em Portugal não há nenhum tipo de manifestação, quer dizer, com a dimensão e com a organização social que está a haver em Espanha, e os portugueses aceitam de forma bastante mansa o seu destino. E portanto, temos o doutor Montenegro esta semana passou, de resto, uma magnífica lei que vai facilitar os despejos e acha ele que vai melhorar o que quer que seja. E portanto, é nesta situação que estamos neste momento e eu creio que vamos falar muito de Espanha nos próximos meses.

Também já agora, a boleia de Espanha, mas também de tudo o que tem sido discutido em Portugal sobre a habitação, é o nosso tema do Fora do Baralho Especial Ouvintes, que esta semana é com a Susana Peralta e vai responder a perguntas dos ouvintes exatamente sobre a habitação. E dava agora a palavra à Susana para fechar um dia com vários naipes vermelhos, parecem todos muito positivos, vocês esta semana, porque a Susana também traz copas. Neste caso, a concertos sem telefones. Susana, foste a algum e ficaste fã?

Na verdade, esta semana fui a dois, não sei se isso se nota na minha voz ou não, mas fui a um com telefones e outro sem telefones, embora o com telefones não fosse daqueles onde a pessoa se sente esmagada pela presença dos ecrãzinhos. Mas de facto, era uma tendência que está a aparecer cada vez mais e que aqui em Portugal acho que ainda não tinha vindo, embora, Luís, corrija-me se eu estiver enganada, eu acho que tu disseste-me que o Bob Dylan também fez cá em Portugal já um concerto sem telefones.

Sim, foi aqui no Coliseu do Porto, em que recolhiam os telefones à entrada.

Exato. Portanto, já acontecia, mas eu ainda não tinha tido o privilégio de participar num destes eventos extraordinários. Mas de facto, eu estive no concerto de Placebo esta terça-feira aqui no Campo Pequeno, em Lisboa. Eles já tinham feito a mesma coisa também no Porto e há vários métodos de fazer concertos sem telefones. Há método que envolve uma espécie de uma bolsa selada onde a pessoa coloca o seu telefone. A pessoa guarda o telefone, mas ele está selado e depois é descelado à saída, mas neste caso até foi muito mais simples. Também estamos a falar de recintos que são razoavelmente médios em termos de dimensão e, portanto, foram avisos Primeiro havia um cartaz quando se entrava no concerto a dizer: "Este é sem telefones". Depois havia um vídeo dos dois protagonistas da banda a dizerem que estavam à espera que nós não usássemos o telefone.

Susana, deixa-me só fazer-te uma pergunta por causa dessa questão dos avisos. Já sabias antecipadamente quando compraste os bilhetes que ia ser assim?

Não, eu não sabia, mas eu adorei. Eu assim que lá cheguei fiquei quase emocionada de ver que finalmente ia ter um concerto sem telefones. Mas eu acho que isto é muito importante. Parece que, sinceramente, quando isso foi anunciado, o aplauso na audiência foi, de facto, de grande aprovação. Não vou dizer agora que não houvesse lá meia dúzia de pessoas chateadas. Certamente que havia, mas quer dizer, o ambiente geral foi unânime de obrigada por nos fazerem isto. Isso levanta também uma série de questões interessantes do ponto de vista comportamental, que é por que nós, um conjunto de adultos, não conseguimos impor essas regras a nós próprios, mas depois basta um anúncio e na verdade, um mecanismo para garantir que a regra é respeitada, que era um mecanismo razoavelmente pouco grave ou gravoso para a coisa funcionar. Mas eu vi uma pessoa a ser retirada do recinto no concerto de Lisboa, e sei que isso também aconteceu no Porto, mas de facto vi. Mas acontece de uma maneira extremamente subtil. Enfim, não houve nenhum desacato em torno disso.

Mas as pessoas são avisadas ou são retiradas?

Não, eu vou te explicar como aconteceu, porque eu estava nas bancadas, portanto estava a ver lá embaixo a plateia das pessoas de pé. Há um feixe de luz que foi dirigido à pessoa que estava a prevaricar. Esse feixe de luz muito discreto, que não incomodava as restantes pessoas à volta. Começa-se a ver uma certa movimentação dos amigos a assinalarem: "Olha que tens o feixe de luz em cima do ecrã." E depois, com base nesse mesmo feixe de luz, suponho eu, há um segurança com toda a tranquilidade, que vai pelo meio da multidão e chega àquela pessoa e o convida a sair, porque o Brian Molko, que é o vocalista e líder da banda Placebo, tinha avisado. Ele disse: "Atenção, queria agradecer-vos." Ele começou por agradecer a seguir, logo a primeira música. De facto, via-se que as pessoas estavam a aderir e, portanto, agradeceu a nossa compreensão e explicou até porquê. Disse que era uma questão também de nós nos relacionarmos uns com os outros e que ele próprio, quando está a dar um concerto, ver um oceano de ecrãs à frente dele, lhe estraga a própria ligação com o público, e ele está farto disso e não quer mais. E portanto, ele agradeceu e depois ele avisou: "Mas atenção que eu estou a ver aqui algumas pessoas a usar o telemóvel e daqui do palco nós vemos tudo. E, portanto, ou vocês", ele disse em inglês, "ou vocês either you put your phone away or you will go away. Portanto, ou vocês guardam o telefone ou vão ter que sair." E de facto, assim aconteceu. Mas como eu te disse, não houve nenhum levantamento de rancho. Eu vi uma pessoa a sair, se calhar houve mais duas ou três, mas globalmente foi uma regra de uma simplicidade. Quer dizer, dá a ideia que as pessoas estão só à espera que lhes digam isso. Larguem o telefone e as pessoas largam o telefone. Deixa-me só dizer mais uma coisa. Este é um tema que tem estado já bastante coberto pela imprensa internacional. Há artigos na Rolling Stone, na Bloomberg, até o próprio Economist já tratou deste assunto. Há um site de eventos que é o Eventbrite. Isto é mais ou menos bem medido, mas que assinala que desde 2024 há um aumento de 500 e tal por cento, de cinco vezes mais concertos desde 2024, que estão a seguir esta tendência, o que mostra que, de facto, há uma procura não só do lado dos artistas, como do lado do público, para voltarmos a esta experiência mais autêntica. E no meio disto tudo, no Blitz, porque eu vou sempre ler o Blitz do Expresso, peço desculpa pela publicidade à concorrência, sempre que vou a um concerto, vou logo aí ver o que eles dizem. E de facto, o Mário Rui Vieira, que é o jornalista que escreve a peça, disse que os aplausos foram muitos e pareciam aprovar a medida. Isso eu confirmo. Tanto houve aprovação pelos aplausos como pela própria adesão ao comportamento das pessoas. Os aplausos foram muitos e pareciam aprovar a medida, mas em 2026, estas tentativas de parar o vento com as mãos soam um tanto quanto despóticas. E isto é realmente em contraste completo com aquilo que se tem lido na imprensa internacional relativamente à utilização dos telemóveis. As pessoas estão à espera disto. Nós estamos à espera que nos digam para pôr estas porcarias de lado. E ainda bem, eu queria agradecer aos Placebo. Espero que haja cada vez mais bandas a virem a Portugal e proporcionarem-nos estas experiências maravilhosas, analógicas.

Por aqui fazemos agora uma curta pausa e voltamos dentro de momentos para a segunda parte com o grande tema da semana, Cristiano Ronaldo. Cristiano Ronaldo é por estes dias o centro das atenções. Saiu do estágio da Seleção Nacional de Futebol, que estava a decorrer na Dinamarca, em rutura com o selecionador nacional Jorge Jesus. É mais do que um jogador a sair da equipa principal, é o capitão da seleção a abandonar todos os colegas e a equipa técnica e a prometer explicações para mais tarde. Este é um caso que tem aqui várias vertentes. Luís Aguiar Conraria, vamos começar pela parte desportiva, pelo facto de a seleção estar a lidar com a saída do maior jogador de sempre do futebol português e, mais do que isso, com a saída de um símbolo nacional. O que tudo isto representa?

Se queres uma resposta estritamente desportiva, é uma coisa. Símbolo nacional, já vai para além do estritamente desportivo.

Tens liberdade. Vamos a isso.

Então vamos lá. Começando pela parte estritamente desportiva, o Ronaldo, de facto, é o melhor jogador português de sempre, mas de há cinco anos para cá que se tornou um jogador normal, que nem na Arábia Saudita consegue ser o melhor jogador da sua liga

Na vertente desportiva não se perde nada, só se ganha. A transição desportiva vai acontecer naturalmente. Já devia ter acontecido.

Deixa-me perguntar se és uma daquelas pessoas que acha que Ronaldo não tem lugar nem no banco.

Ele tem lugar no banco se estiver disponível para isso, mas ele claramente não está. As pessoas que acham que ele deve jogar, eu nunca ouvi ninguém argumentar seriamente que ele deve jogar porque é melhor que os outros. Os argumentos não são esses, são outros. É o que ele ser um símbolo, é o que ele já deu a Portugal e por aí fora, é aquilo que o Ricardo Araújo Pereira disse como piada, que daqui a 20 anos começa a ser verdade. Continua a ser verdade. Objetivamente, não quero dizer exatamente quando é que foi, mas desde há cinco, seis anos que ele devia ter começado a preparar essa transição. Isso é do ponto de vista desportivo. Do ponto de vista de símbolo nacional, eu sou daquelas pessoas que não sabem muito bem o que é que essas coisas querem dizer. E quando veem aquela malta do marketing que vai para a televisão dizer que a marca Cristiano Ronaldo vale 800 milhões de euros, isso para mim não me diz absolutamente nada. Porque se a marca Cristiano Ronaldo vale 800 milhões de euros, quem ganha com isso é ele, não é o país. Quem recebe as suas receitas de marketing, as receitas de marketing da marca Cristiano Ronaldo, é ele. Desse ponto de vista, da parte financeira, não interessa. Quando se fala das camisolas que ele vende e por aí fora, isso é um problema da Federação Portuguesa de Futebol, que é uma entidade privada, de direito privado, não é uma entidade pública, não é o Estado. A Federação Portuguesa de Futebol não vive de subsídios de Estado, sequer. Se passar a ter menos receitas com vendas de camisola ou com o que quer que seja, vai ter de passar a gastar menos, acabou-se, vai ter de pagar um pouquinho menos aos seus dirigentes e por aí fora. O ser um símbolo nacional, aí é o lado emotivo ao qual eu não consigo pôr um valor e custa-me muito que o Ronaldo tenha saído da forma que saiu. Mas tenho consciência que ele saiu da forma que saiu, porque quis sair assim. Acho que apesar de tudo, se ele estiver disponível para isso, que se devia tentar corrigir esta saída e dar-lhe um jogo final grandioso, que seja nalgum grande estádio nacional donde ele possa ser ovacionado.

Mas perante tudo isto, achas que pelo menos o caminho dele na seleção acabou?

Eu espero que sim. Há aqui uma questão, que é: a Federação Portuguesa de Futebol tem claramente um objetivo que é diferente do meu. A Federação Portuguesa de Futebol, como associação privada que é, olha para o Ronaldo como uma fonte de receitas. Está preocupada com a perda das receitas, são essas receitas que lhe permitem pagar mais aos seus dirigentes, que lhes permitem ficar em hotéis melhores e por aí fora. O meu objetivo não é que a Federação Portuguesa de Futebol venda muitas camisolas para que o seu presidente, dirigentes e treinadores tenham salários maiores. O meu objetivo é que, de um ponto de vista mais patrioteiro, não quer dizer patriota, estou a dizer patrioteiro, porque acho realmente que o futebol não tem importância nenhuma. Do ponto de vista mais patrioteiro, o meu objetivo é que Portugal jogue bem e que vá a finais dos Europeus e dos Mundiais e por aí fora. E para isso, não estar lá o Ronaldo facilita a vida.

Susana, também achas?

Nós vimos nestes jogos, especialmente na quinta-feira, a diferença que faz jogar com 11 jogadores, em vez de jogar com 10 ou 10,5, que era aquilo que nós tínhamos antes.

Susana, as receitas para a Federação são o grande problema do caso Ronaldo ou é um bocadinho mais do que isso?

Eu não percebo nada de futebol, queria deixar isto aqui bastante claro. Parece que, de facto, há contratos publicitários nos quais ele pode ser uma parte importante do argumento. Vamos lá ver se eles efetivamente vão cair, uma vez que Ronaldo vai sair da seleção. Mas agora, eu posso pensar nisto do meu ponto de vista de economista. Depois tenho uma visão, já agora ética e política, relativamente a esta salganhada e a este escândalo nacional que vivemos esta semana, e até à própria entronização do Ronaldo como grande símbolo nacional. Mas para falar dessa questão das receitas e do ponto de vista económico, é um ativo da empresa. Um ativo importante, claro, da empresa. Chamando a Federação Portuguesa de Futebol de empresa, acho que o Luís já explicou porque é que se pode usar este termo num sentido lato. Tem aqui um grande ativo, um trabalhador muito importante, neste caso, uma pessoa com imenso talento, etc. O homem, independentemente dos defeitos que eu já há muitos anos vejo nele, eu estou disponível para reconhecer que ele realmente jogou muito bom futebol. Não questiono isso. Mas compete à federação pensar na estratégia de saída. Se isto for assim tão trágico pra Federação Portuguesa de Futebol do ponto de vista das receitas e da sua sustentabilidade financeira, então além do Cristiano Ronaldo ter estado péssimo nesta birra desta semana, já para não falar dos nossos responsáveis políticos e dos nossos meios de comunicação social, etc. Em especial, é mostra de uma grande incompetência e provavelmente então temos de perguntar o que o presidente da federação está a fazer, porque uma empresa nestas circunstâncias tem que pensar numa estratégia de saída e transição, porque é evidente que este ativo, e quando se trata ainda por cima do negócio do futebol, nós sabemos que os ativos têm uma vida curta e o senhor está fora do prazo ou está a aproximar-se do fim do prazo. Não percebo nada de futebol. O que eu percebo é de economia e razoavelmente de empresas, e parece-me evidente que houve aqui uma má gestão por parte da Federação Portuguesa de Futebol. Se eles agora, de repente, tiverem uma enorme quebra nas receitas e ficarem até em maus lençóis do ponto de vista financeiro, os responsáveis são só eles, porque também me parece evidente que a estratégia que eles estavam a fazer, que era a estratégia da avestruz, que era manter este ativo, deixando-o perder a qualidade a olhos vistos de toda a gente, e eu estou a basear-me no que eu ouvi das pessoas que percebem de futebol, também ia acabar por ser desastroso ao nível financeiro, porque em algum momento os patrocinadores iam dizer: "Bem, se é pra estar metendo dinheiro nesta porcaria, também não queremos". Eu acho que aquilo que aconteceu ontem demonstra, no jogo de futebol, que pelo menos, é seguro afirmar, que a equipa não ficou emocionalmente num estado frágil pela saída do seu capitão daquela maneira na véspera ou dois dias antes. E eu também acho que isso há de ter valor, espero eu, espero que no negócio do desporto, ter uma equipa a jogar motivada e que marca gols, também dê patrocínios. Isto tinha que ter sido gerido pela Federação Portuguesa de Futebol, não nos compete a nós agora estar a resolver esse problema. Agora, compete-nos dizer que eles são altamente incompetentes.

Havia aqui a ideia de que era possível tratar bem Ronaldo, por assim dizer, até o fim, para que continuasse a ser o tal símbolo da seleção após a saída dos relevados e que não se notasse tanto esse impacto financeiro. Jorge Fernandes, por que isto é um escândalo nacional? É mais por causa desta parte financeira?

Não, eu acho que há um conjunto de pessoas que estão notoriamente interessadas na questão financeira, mas depois, a reação que vimos sob o ponto de vista da comunicação social, do próprio poder político, foi absolutamente extraordinária. Luís Montenegro interveio, fez telefonemas a Jorge Jesus, a Cristiano Ronaldo, a Pedro Proença. Agora temos o ministro da Economia a dar entrevistas, a fazer apelos para que Ronaldo, de alguma maneira, volte à seleção, porque é a pessoa mais conhecida de Portugal. Enfim, esta intromissão do poder político nas matérias do futebol é absolutamente extraordinária. Isto é digno de um país absolutamente do terceiro mundo. Não há outra palavra. Isto é uma marca do nosso terceiro mundismo. Não há outra palavra para explicar isto.

Só meio minuto. Esta história de Ronaldo é a marca mais conhecida e por aí vai. Ouçam lá, alguém valoriza mais a Argentina porque teve o Messi ou o Maradona? Alguém acha que os argentinos são pessoas fantásticas porque existiu o Messi e o Maradona? Alguém compra mais produtos argentinos por causa disso? Às vezes acho que se as pessoas se olharem para si mesmas e olharem para situações análogas, percebem o disparate que tudo isto é.

Eu concordo absolutamente.

Alguém pensa o que quer que seja, ou agora se aparecesse um atleta fantástico do Burkina Faso, o quê? Nós íamos passar a importar automóveis do Burkina Faso porque tinha um atleta fantástico?

Eu concordo absolutamente.

Eu sei que concorda, é só acrescentar este argumento.

Acho que esse argumento é superútil, por acaso. Permite no fundo ver o espelho da coisa. Metamo-nos ao espelho e constatemos o disparate que isto é.

É como quando nós temos um político, António Guterres, foi para as Nações Unidas. Alguém acha, seguindo esta linha de raciocínio, que o Gana teve algum tipo de vantagem porque o Kofi Annan foi secretário-geral das Nações Unidas? Não há rigorosamente nada, e há políticos em Portugal, estou a pensar, por exemplo, em Marcelo Rebelo de Sousa, que foi muito culpado de alimentar este tipo de coisa. O Nuno e eu falamos muitas vezes a brincar, até com amigos, que Portugal tem um distúrbio que se costuma chamar uma perturbação do narcisismo coletivo. O narcisismo coletivo é uma coisa que está a aparecer agora nas ciências sociais, que fundamentalmente diz que um povo, tipicamente um povo inseguro, um povo muito inseguro quanto ao seu lugar relativo no mundo, etc. Tipicamente, necessita desesperadamente de validação externa, especialmente de estrangeiros. Vem um estrangeiro e: "Não, Portugal é o melhor país do mundo, temos a melhor comida do mundo, temos o melhor jogador do mundo". E, portanto, aparentemente os portugueses precisam desesperadamente deste tipo de validação externa. E Cristiano Ronaldo funcionava como um mecanismo disso. As pessoas dizem: "Eu fui à Tailândia, eu fui não sei onde, estava no fim do mundo, num sítio longíssimo de Portugal, e estava lá uma pessoa que dizia Cristiano Ronaldo". Ok, e exatamente qual é a consequência? Isso é absolutamente irrelevante É irrelevante. A única pessoa que, de facto, beneficiou, e bem, porque trabalhou para isso, foi o próprio Cristiano Ronaldo, que teve uma carreira ímpar e que, na minha opinião, só poderia terminar assim. Há aquela música do Sérgio Godinho, que tem aquele nome, aquele título, que é: "Pode Alguém Ser Quem Não É?" E o Cristiano Ronaldo, isto só podia terminar assim, porque as características da sua maneira de trabalhar, do modo como sempre abordou a sua profissão, porque isto é uma profissão, são essas mesmas características que o tornaram tão bom, que o impediram agora também de perceber que a idade chegou e era impossível que houvesse um fim pacífico para isto. Porque, de facto, ninguém pode ser quem não é. E ele nunca poderia ser uma pessoa diferente daquilo que é, porque essas características fizeram dele aquilo que ele é, mas são essas mesmas características que o impedem agora de dar o passo seguinte e sair em glória, como ele poderia ter saído. E, portanto, ele saiu assim. E o que para mim é mais interessante é a reação. O país parou durante 24 ou 48 horas. Foi patético o que se passou, simplesmente ver os noticiários todos, 24 horas por dia. Eram 3:00 a.m. ou 2:00 a.m., eu não vi, porque a essa hora, como as pessoas de bem, como diz André Ventura, eu estava a dormir, mas contaram-me e no dia seguinte até fui puxar para trás, estavam as televisões portuguesas a mostrar o mapa do avião do Cristiano Ronaldo a vir de Copenhague pra Madrid. Depois estava ali: "Não, já aterrou".

Com comentadores de política e economia a discutir esta situação também.

Nós também estamos aqui a discutir, mas nós estamos a fazer uma metadiscussão, nós estamos a discutir a discussão.

Deixa-me passar aqui ao Nuno, que ainda não o ouvimos sobre este assunto. Nuno, o que é que achas disto tudo? Ia aqui perguntar-te se um capitão pode ter esta reação, mas se calhar um bocadinho mais do que isso.

Olha, deixa-me dizer, eu concordo com a generalidade do que foi dito, mas eu estou numa situação ainda mais gráfica que a Susana. A Susana diz que não percebe de futebol. Eu não percebo de futebol e detesto futebol. Portanto, eu nunca vi jogos da bola e raramente vi Cristiano Ronaldo jogar. Não por Cristiano Ronaldo jogar, mas simplesmente não vejo futebol. E, portanto, todo esse assunto não me preocupa, não tenho comentários nenhuns, não sei se é bom ou se é mau. O que eu não gosto, e já foi aqui abordado por todos, o que eu não gosto, fundamentalmente, é de ver a política e os titulares de cargos políticos metidos nestas histórias. E isto remonta, obviamente, ao passado, isto sempre aconteceu. Temos que recordar aqui o grande escândalo que foi, na altura, a tentativa de José Sócrates instrumentalizar Luís Figo na campanha de 2009 e, portanto, não começou agora com o Cristiano Ronaldo, obviamente, esta instrumentalização por parte dos políticos de tentar usar jogadores de futebol com grande reputação para ganhos políticos. Como o Jorge já disse, Marcelo Rebelo de Sousa usou e abusou dessa tática, apesar de haver aquela contradição inerente à própria figura de Marcelo Rebelo de Sousa, quando Trump lhe diz: "Cristiano Ronaldo é tão popular e tão famoso. Vamos lá ver se um dia não se candidata a presidente da República e ganha."

Deixa-me só dizer, Nuno, só para situar aqui os nossos ouvintes, que além de Marcelo Rebelo de Sousa, que realmente voltou a falar, mas o primeiro-ministro Luís Montenegro falou com Pedro Proença, com Jorge Jesus e com Cristiano Ronaldo.

E falou o primeiro-ministro e já falou o ministro da Economia.

Sobre o assunto, sim.

Como há pouco disseste, houve comentadores de política, incluindo ex-ministros, nas televisões a comentar isto. Portanto, é evidente que há uma confusão total. O Luís já deu o exemplo da Argentina e do Burkina Faso. Eu agora dou o exemplo ao contrário. Nós estamos todos a criticar, e bem, com razão, quando Trump ou Putin ou outros líderes políticos andam por aí a intrometer-se no futebol e na FIFA e a defender os seus jogadores e a defender as suas equipas. Mas depois achamos muito bem que os nossos políticos se intrometam no nosso futebol. Portanto, é evidente que há aqui também uma contradição entre aquilo que se exige para os líderes internacionais e depois aquilo que exigimos aos nossos líderes nacionais. Agora, isto é um reflexo, claramente, de um problema mais vasto, que é o populismo que grassa na nossa agenda política. E nós estamos habituados a dizer que o populista é André Ventura ou a direita a dizer que o populismo é dos partidos de esquerda, é Mortágua e é não sei quem que é populista, mas o problema da confusão entre o futebol e a política, por exemplo, outro nome que veio agora aqui, sempre acarinhado, por exemplo, pelo ex-candidato presidencial Marques Mendes, que também já falou sobre este assunto e que também evidentemente está sempre a falar sobre futebol, tudo isso é populismo. Havia, aliás, quem teorizasse há tempos que havia o populismo bom, de Marcelo Rebelo de Sousa, e o populismo mau, de André Ventura. E é evidente que é esse populismo que cria toda esta confusão, esta teia de interesses entre o futebol e a política, do qual Cristiano Ronaldo é apenas um reflexo. E eu não estou aqui a dizer que Cristiano Ronaldo foi usado e abusado pelos políticos de forma inocente. Eu também acho que ele se deixou usar e abusar pelos agentes políticos, pelos titulares de cargos políticos, pra sua agenda pessoal. Mas eu isso não vou comentar, isso é um problema do Cristiano Ronaldo. O problema que eu vejo em Portugal é esta intromissão, esta confusão entre futebol e política, que é muito negativa e que não vou dizer que é terceiro-mundista, mas vou dizer que é populismo, que reflete um populismo muito infundamentado da nossa política e que era bom que as pessoas começassem a ter alguma exigência e exigir que futebol ao futebol, política à política, há a crise na seleção, o primeiro-ministro, os ministros, não têm que se andar a intrometer nem fazer comentários públicos sobre isso.

Foi o próprio primeiro-ministro que apelou aqui há uns tempos à mentalidade de Cristiano Ronaldo. Luís, só pra fechar, o teu veredito final sobre este caso.

A mentalidade de Cristiano Ronaldo aqui é sairmos do emprego quando estamos chateados com o patrão. Seria uma piada se levássemos isso à letra. Só para fechar, eu devo dizer que estou de acordo com o Jorge e com o Nuno quando falam do absurdo que é termos primeiros-ministros e ministros a comentarem isto. E felizmente já não temos um presidente da República à entrada do balneário ou à saída do balneário a dar entrevistas e que, se ainda tivéssemos esse presidente da República, com certeza que teria tentado resolver a situação. Eu concordo com esse lado. Isso relativamente aos políticos, concretamente. Em relação ao resto da sociedade, todos os comentadores, eu acho que tem a sua graça, de repente, durante dois ou três dias, mobilizarmo-nos todos para discutir um assunto que não tem relevância absolutamente nenhuma, fazermos disto um caso e estarmos horas a discutir isso. Isso também acho que faz de nós um país engraçado, aquilo que parece que é um país que não existe. Às vezes, Portugal é tão absurdo que parece que não existe, mas eu acho que há aqui um lado lúdico que tem a sua piada e também não devemos ficar revoltados contra isso. A parte da intromissão política, sim, 100% de acordo com o resto. Agora todos os outros, ainda bem que estamos aqui a discutir isto, em vez de estarmos a discutir assuntos mais graves, que já discutimos na semana passada e vamos voltar a discutir na próxima semana. E pelos vistos já no domingo aqui com a Susana Peralta a falar sobre um assunto que é verdadeiramente relevante, que é a habitação.

É isso mesmo. Esta semana ficamos por aqui. Pode sempre entrar em contacto connosco e enviar perguntas para os nossos ases através do e-mail foradobaralho@observador.pt. Este domingo, como dizia, e bem, o Luís, é a Susana Peralta a responder aos ouvintes. Eu sou a Inês André Figueiredo, este é o "Fora do Baralho" e pode ser ouvido aqui na Rádio Observador e em podcast nas plataformas habituais. Até para a semana.