Era médio, mais recuado: o trinco. Mas até chegou a ser lateral-direito, nos idos da meninice, no Benfica e na Seleção que foi a Riade. Se não foi o melhor que por cá se viu naquela posição, foi certamente um dos melhores. É que poucos (salvo Deco, primeiro no FC Porto de Mourinho e depois no Barcelona de Rijkaard) se podem orgulhar de ter erguido, em anos sucessivos e por clubes diferentes, o caneco da Liga dos Campeões.
Está a ver de quem lhe falo, não está? Adiante. Serve a referência para lembrar que desse “geómetra” (fez por merecer a alcunha, tal o seu posicionamento, a sua visão de jogo e colocação de passe) se dizia que tinha duas velocidades quando jogava, fosse no Benfica ou fosse no Sporting, na Juventus ou no Dortmund: devagar ou parado. O FC Porto também as tem, duas velocidades. E não é de hoje. Mas hoje chegou a ser confrangedora tanta ausência de arreganho em campo. Com um nulo ao intervalo, o Dragão (às moscas, diga-se) fez-se ouvir. E apupou os seus.
José Peseiro sabia. Sabia que a tarefa de substituir Julen Lopetegui não era fácil: era hercúlea. Não que não conseguisse fazer mais e melhor que o basco – provou nos dois “sportings”, o de Portugal e o de Braga, que sim. O problema é que não se altera do dia para a noite um esquema tático (e sobretudo uma atitude no jogo) que foi imposta durante duas épocas, treino após treino, jogo após jogo.
O FC Porto de Lopetegui não tinha pressa. Circulava, circulava, bola para trás, depois para a frente, qual carrossel, sempre de pé para pé. A pressa é inimiga da perfeição, sim. Mas a acalmia era tanta, que o FC Porto perdeu pontos e mais pontos por simplesmente não rematar à baliza adversária. Peseiro chegou e verticalizou o jogo, sobretudo pelas alas. E declarou fim aos rodriguinhos. O FC Porto deixou, realmente, de ter tiques de Barcelona da Campanhã. O problema é que continua com um mal difícil de purgar: não remata. E quando o faz, fá-lo mal.
Hoje esperar-se-ia uma noite de purga. É que o primeiro remate do jogo surgiu cedo, com apenas vinte segundos (sim, leu bem) de jogo. Dezanove e uns milésimos, para ser mais preciso. É de Maxi Pereira a tentativa, que não tendo para quem cruzar na área ou a quem desmarcar na ala, subiu pelo seu flanco, viu-se só à entrada da área e chutou. Cláudio Ramos aninhou a bola sem dificuldade de maior. Mas se esta defesa foi fácil para Cláudio, outras não o foram. Pouco depois, aos oito minutos de jogo, fez uma defesa tão útil quanto vistosa. Layún bateu um canto à direita, encontrou Danilo no primeiro poste, e o médio antecipou-se ao defesa-central Pica para cabecear. O cabeceamento não foi particularmente forte, mas ia colocadíssimo, na direção do poste direito da baliza do Tondela. Cláudio voou (literalmente) e defendeu para novo canto.
Estava mais do que visto ao que veio o Tondela no Dragão: contra-atacar. E estava visto como o iria fazer: pelas alas, com os três “velocistas” da frente (Romário Baldé, Wagner e Nathan Júnior) a procurar as costas dos defesas portistas. Aos 10′, Nathan disparou pela esquerda, Layún ficou a vê-lo passar como se Nathan acelera-se de mota, mas valeu ao FC Porto a atenção de Maxi, que desarmou Romário quando este, na área, se preparava para rematar.
O FC Porto ainda era mandão. Aos 20′, era. E acertou onde ninguém quer acertar: no ferro. Herrera foi à esquerda cruzar, cruzou para o segundo poste, Aboubakar saltou mais alto que Kaká — Cláudio Ramos estava batido –, mas o camaronês do FC Porto teve pontaria a mais. Depois, o FC Porto fechou a loja até ao intervalo.
Não se pode dizer que o Tondela estivesse a tirar o sono à defesa do FC Porto; ia atacando, algo atabalhoadamente, mas não rematava e mal chegava à área. O FC Porto, mesmo precisando como de pão para a boca de vencer esta noite e encurtar distâncias para o Benfica, mesmo defrontando o último classificado da Liga, não fazia muito melhor: atacava, sim, a bola estava quase sempre (62,5%) do seu lado, mas mal rematava — apenas oito remates, dois deles à baliza.
Não se via ninguém a dormir nas bancadas. Mas a continuar assim, ia certamente acontecer.
No recomeço, o FC Porto demorou sessenta minutos, sessenta penosos minutos para criar perigo. E o Tondela aproveitou. Primeiro, a ameaça. Aos 49′, Oto’o avançou pela direita, cruzou para a área quando Layún o pressionou, mas não conseguiu encontrar Wagner na área — a bola ainda tocou de relance nas costas do ponta-de-lança do Tondela. Sorte ou não, a verdade é que a bola ficou redondinha à entrada da área, sem que ninguém do FC Porto a cortasse. Nathan agradeceu, encheu a canhota e rematou na passada. Por cima. Depois, a consumação. Foi aos 59′. E que golaço que foi este de Luís Alberto. O FC Porto foi sempre melhor no jogo. Mas nunca foi muito melhor. E o Tondela foi acreditando — sobretudo desde a meia-hora de jogo — que podia fazer uma gracinha no Dragão. E fez. Oto’o combinou com Nathan, Nathan combinou com Hélder Tavares, e este combinou, por fim, com Luís Alberto. O médio-defensivo do Tondela, experimentado nestas lides de Primeira Liga, tirou as medidas à baliza de Casillas e colocou a bola na gaveta — e entenda-se por “gaveta” o canto superior direito da baliza de Casillas. Surpresa (e choque) no estádio do Dragão.
O Tondela foi-se recolhendo à defesa. E o FC Porto (mal e parcamente, diga-se) foi à procura do empate. O empate era o mal menor. É que perder com o último classificado da Liga em casa não é uma derrota; é humilhação. O problema para o FC Porto teve um nome: Cláudio Ramos. Que defesa ele fez aos 63′! O coreano Suk (entrou instantes antes para o lugar de Sérgio Oliveira, passando o FC Porto a jogar com dois pontas-de-lança; ele e Aboubakar) desmarcou-se na direita, tocou depois para o centro, onde vinha Corona, e o mexicano, a seguir a sentar autenticamente o central Pica no relvado, rematou já dentro da área e na cara do guarda-redes do Tondela. Cláudio Ramos fez aquilo a que quem sabe da poda nas balizas intitula de “mancha”. E defendeu para canto o remate de Corona. Mas a noite de Cláudio no que toca a defesa ainda teria mais uma cena. Foi aos 83′. Aí, depois de um cruzamento de Herrera à direita e de um cabeceamento de Suk no centro da área, Cláudio (que nem é propriamente uma “viga” de tão alto) voou e foi defender junto à barra.
Acabaram-se os cartuchos no jogo. E na Liga, ainda com seis encontros para disputar até maio, não há mais para onde disparar. O FC Porto diz adeus ao título. Pelo terceiro ano consecutivo.