Empreendedorismo

Dois anos de Village Underground Lisboa. “Sempre fomos os underdogs das startups”

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As indústrias criativas sempre foram "os underdogs das startups", diz Mariana Duarte Silva, que há dois anos lançou o Village Underground Lisboa, onde hoje trabalham 35 empreendedores.

Mariana Duarte Silva é a fundadora do Village Underground Lisboa, que este sábado celebra os seus dois anos de existência

Daniel Delang

As indústrias criativas “ao contrários de outras indústrias, como as digitais e de apps, não têm business angels nem investidores”. São uma área “mais arriscada e menos atrativa, sempre fomos os underdogs das startups“, resume Mariana Duarte Silva, fundadora do Village Underground Lisboa, o espaço de coworking destinado às indústrias criativas que este sábado celebra o seu segundo ano de existência, com um programa de aniversário que inclui concertos (dos portugueses Ganso e Mesa), DJ sets, exposições e peças de teatro breves, entre outros eventos.

Foi também para combater essas dificuldades que Mariana Duarte Silva regressou a Portugal em 2009, vinda do Reino Unido. Chegou com um intuito: inspirada pelo Village Underground de Londres, criar um espaço semelhante em Lisboa. “Decidi que queria fazer isto na minha cidade e o sócio fundador de Londres, o Tom [Croxfot], foi louco o suficiente para dizer” que sim, recorda.

O Village Underground Lisboa (VUL) nasceria cinco anos mais tarde, em 2014. Passados dois anos, o espaço de coworking, situado em Alcântara, tem já 14 contentores marítimos e dois autocarros da Carris, que foram reaproveitados e que servem hoje de escritório a 35 empreendedores, que ali desenvolvem 19 projetos diferentes. Mas o início foi tudo menos fácil, recorda a responsável.

Em 2009, quando voltei, Lisboa estava muito fechada, em crise profunda. Ninguém queria ouvir falar de mim, dos contentores, dos autocarros ou do empreendedorismo. Tive muita dificuldade em fazer o plano [de negócio], em arranjar o espaço e os parceiros. Felizmente não desisti: havia qualquer coisa dentro de mim que me dizia que isto um dia podia resultar”, lembra a fundadora do VUL.

Um projeto que se fez com 250 mil euros (mas não só)

Um dos sinais de que o projeto se podia materializar chegou em 2012, quando a Câmara Municipal de Lisboa “decidiu abraçar o projeto” e assinar um protocolo de colaboração, ajudando na parte das “licenças, burocracias e promoção”. A Carris, depois de lhe ter fornecido três autocarros “para começar o projeto, lembrou-se do espaço” que se encontrava desaproveitado no Museu da Carris, em Alcântara, e que a empresa queria “rentabilizar”. Com isto e com 250 mil euros de investimento inicial — metade feito por Mariana Duarte Silva e pelo seu sócio inglês, a outra metade em linha de crédito concedida pelo Montepio em condições “mais vantajosas”, fruto da sua passagem pela Startup Lisboa —, o projeto veria a luz do dia.

O meu objetivo sempre foi que isto não fosse apenas uma área de trabalho, mas também um espaço de eventos, que é o que também existe em Londres. Temos tido a sorte de experimentar muita coisa aqui. Uns conceitos resultam melhor do que outros, mas continuamos a ser um espaço de experimentação”, explica Mariana Duarte Silva.

Os custos, contudo, não se resumem a esse investimento inicial. O Village Underground Lisboa “é uma estrutura com custos fixos mensais muito pesados”, explica a responsável. Há a renda a pagar mensalmente a Carris, pelo aluguer do espaço. Há “os custos de internet e de eletricidade, que são elevados”. E existem ainda despesas relacionadas com “seguros”, que também são onerosas, diz. Para suprir os custos, o Village Underground Lisboa tem três áreas de faturação: a renda do aluguer dos espaços de trabalho, que custa “150 euros por mês, com tudo incluído”, e que os responsáveis querem manter “baixa”; os eventos que ali são produzidos e os espaços que as marcas alugam para eventos seus; e a cafetaria local.

As fontes de receita, contudo, não chegam para avançar com um projeto que a fundadora do Village Underground Lisboa quer pôr em prática: o de fazer obras num armazém ali localizado, para que esta possa servir como “sala de espetáculos indoor, que era o que nos faltava. Para apresentações de marcas, para festas, exposições e eventos de teatro e cinema”, diz. Para tal, Mariana Duarte Silva vai tentar fazer mais um crédito no Montepio, “no valor de 60 mil euros”.

Projetos incubados: de uma produtora de teatro aos organizadores do Boom Festival

Entre os 19 projetos incubados no Village Underground Lisboa estão, por exemplo, a produtora de teatro Buzico (que ali organiza sessões de teatro breve, que decorrem nos contentores do VUL), o Contentor 13, um programa da RTP2 ali “inspirado, criado e produzido” e a Good Mood, “que organiza o Boom Festival”, em Idanha-a-Nova, e que ali se encontra incubada há sete meses.

Os espaços do Village Underground Lisboa são ainda utilizados por pessoas singulares e para os mais variados fins, como explica a responsável: “O Bruno Miguel está aqui a fazer um doutoramento em música, a Ana Cunha faz branding para grandes marcas, o Manuel Marçal organiza percursos alternativos de fado, a Filipa Barbosa trabalha em comunicação de ciência — com workshops onde explica ciência a miúdos, pais e professores — e a Magda [Gradil] é medica e trabalha aqui como pintora”, relata, a título de exemplo.

Há uma coisa, contudo, que une os 19 projetos: a sua ligação à área das indústrias criativas. “Por cá já passaram à volta de 50 profissionais”, explica Mariana Duarte Silva. Todos com projetos dessas áreas, sendo que a exceção terá sido quando ali estiveram “duas advogadas a trabalhar na área das questões jurídicas para startups”, que entretanto já se mudaram, até porque “a rotatividade é muito grande”, explica a fundadora do VUL, que acrescenta ainda que o espaço de coworking costuma ter uma taxa de ocupação que ronda os 70%.

Ao longo destes dois anos, o que mais mudou no Village Underground Lisboa foi mesmo o espaço em que este se insere. “Tem sido melhorado sempre e estou sempre a tentar melhorá-lo. Mas também em programação estamos sempre a tentar evoluir no tipo de eventos que fazemos, nos mercados que organizamos, nos artistas que convidamos, nas exposições, em tudo. Tem havido uma evolução gradual”, relata. Hoje, Mariana Duarte Silva diz que, nestes dois anos de Village Underground, “não faria nada de diferente”. Mas garante que “há ainda muito por fazer”, particularmente na sua relação do VUL com a comunidade de Alcântara e com a Carris.

Infelizmente, a Carris não valoriza tanto quanto podia valorizar a existência deste projeto num espaço seu. Não potencializa a nossa relação, mas também sei que tem de partir de mim a iniciativa de organizar mais eventos que os envolvam e que envolvam as pessoas que aqui trabalham. Houve muita resistência da parte mais antiga [da Carris]” quando ali se instalaram, admite.

E se em maio se dá a festa de segundo aniversário do Village Underground Lisboa, o futuro próxima não se esgota aí. Afinal, para junho, estão já agendados dois eventos: um evento patrocinado pela marca de skates Element, dias 4 e 5 junho, onde serão dadas “aulas a crianças” e onde skaters da marca mostrarão os seus dotes, e o “Alcântara toca discos”, um evento que durará também dois dias, 18 e 19 de junho, que foi organizado “em colaboração com a junta de freguesia de Alcântara” e que terá no seu programa concertos (um deles na capela de Santo Amaro) e uma feira de discos de vinil, organizada com o DJ e radialista da Antena 3 Rui Miguel Abreu.

Sobre os objetivos de futuro “a ideia é continuar a trabalhar este espaço, a ter residentes das mais diferentes áreas e continuar a evolução”, explica a responsável.

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Editado por João Cândido da Silva
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