“Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”
Roger Crowley
(Editorial Presença)

Quantos portugueses conhecem a história do Miri? Por certo muito poucos. Mas na Índia o destino desse navio que transportava comerciantes e peregrinos que regressavam de Meca é desde há mais de cinco séculos símbolo maior do imperialismo ocidental. E tudo por obra e graça de Vasco da Gama, que impiedosamente incendiou e afundou o Miri, com todos os que iam a bordo, recusando os desesperados pedidos de clemência, numa demonstração da superioridade dos navios portugueses. A conquista do Oriente por um minúsculo reino do Ocidente, como era Portugal, não foi isenta de episódios como o do Miri, pois só pelo terror forças tão diminutas como as comandadas por Gama e, depois, por Afonso de Albuquerque, conseguiram garantir o controlo do comércio no Índico e criar o primeiro império global. O historiador inglês Roger Crowley narra de forma brilhante a forma como Portugal conseguiu a sua superioridade, não omitindo os episódios mais sombrios, como o do Miri, mas enquadrando-os no espírito e nos métodos da época, assim como nos grandes desígnios estratégicos de líderes como Albuquerque. Uma leitura cativante.

“De mal a pior – Crónicas (1998-2015)”
Vasco Pulido Valente (seleção de Miguel Pinheiro)
(D. Quixote)

A crónica com que abre este livro foi publicada a 3 de novembro de 2000. É impressionante lê-la 16 anos depois. Não antecipo o seu conteúdo, apenas acrescento que a sua leitura permite não só compreender o sentido do título desta coletânea de crónicas, como ficar com vontade de ler, ou reler, textos publicados ao longo de 15 anos e que, por definição, são textos de circunstância. Vasco Pulido Valente é seguramente o cronista que melhor escreve na imprensa portuguesa, e há mais tempo, mas muitas vezes é descartado sob a acusação de que é um incorrigível pessimista. Este livro de crónicas selecionadas por Miguel Pinheiro das muitas centenas publicadas neste período no Diário de Notícias e, depois, no Público, assim como tudo o que foi sucedendo neste século XXI ao nosso país, ajudam-nos a perceber que afinal são os outros que tendem a ser demasiado otimistas. Talvez mesmo mais do que apenas “otimistas ligeiramente irritantes”.

“O Quadro da Mulher Sentada a Olhar para o Ar com Cara de Parva e Outras Histórias”
Luís Afonso
(Abismo)

É um micro-livro (apenas 86 páginas, e num formato pequeno) em que mesmo assim cabem seis histórias ainda mais micro. Não sei por isso se é classificável em qualquer género, até porque não estamos sequer perante contos, antes face a ficções irreais de um absoluto non sense. O autor, se ainda não reconheceram pelo nome, é o cartoonista do Bartoon do Público e do Barba e Cabelo de A Bola, alguém que já nos fez rir a todos. Este livrinho, ideal para meter no bolso dos calções neste Verão, vai fazer sorrir todos os que lerem as suas pequenas histórias que, parecendo absurdas, possuem o mesmo dom de tantos dos cartoons de Luís Afonso: fazem-nos rir de nós próprios, das nossas manias, dos nossos hábitos, sobretudo das nossas fraquezas. Fazer-nos rir das nossas caras de parvo.

“El Engaño Populista – Por qué se arruinan nuestros países e cómo rascatarlos”
Axel Kaiser e Gloria Álvarez
(Deusto, Grupo Planeta)

Chávez, Castro, Kirchner, Lula, Correa, Ortega, Bachelet, Morales. Ou Venezuela, Cuba, Argentina, Brasil, Equador, Nicarágua, Chile, Bolívia. O ponto de partida deste livro são as diferentes formas que o populismo assumiu na América Latina, não apenas nos últimos anos e pela mão de líderes como os referidos, mas também ao longo de dois séculos de independências. O ponto de chegada é, de alguma forma, o populismo do Podemos, o partido espanhol de Pablo Iglesias umbilicalmente ligado a alguns destes regimes e personagens. Os autores são relativamente jovens – Axel Kaiser é um colunista chileno, director do think tank Fundacion para el Progresso, e Gloria Álvarez é uma politóloga e jornalista guatemalteca, protagonista de um vídeo viral com uma intervenção sua no Parlamento Iberoamericano da Juventude de 2014 – e procuram, neste livro, desmontar a argumentação que sustenta a mentalidade populista. Não sendo um livro de ciência política, é uma obra muito oportuna e de leitura apelativa pois o tipo de discurso habitual na esquerda populista da América Latina começa também a contaminar boa parte da esquerda europeia, sobretudo na Europa do Sul, cada vez mais perigosamente seduzida pelas suas falácias.

“A Invenção da Natureza – As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência”
Andrea Wulf
(Temas e Debates, Círculo de Leitores)

Humboldt deu o nome a uma corrente do Oceano Pacífico, a uma serra no México, a um pico na Venezuela, a uma cidade na Argentina, a um rio no Brasil, a um glaciar na Groenlândia, a cascatas na Tasmânia e na Nova Zelândia, para além de 300 plantas e 100 animais cujos nomes o invocam. No seu tempo, foi o cientista mais conhecido do mundo, recebido por Presidentes e lido avidamente por leitores que disputavam os primeiros exemplares dos seus livros. Mas hoje quem o conhecia fora do mundo dos especialistas – biólogos, geógrafos, geólogos, naturalistas? Poucos. Mas muito menos depois de Andrea Wulf o ter ressuscitado do esquecimento num livro onde não apenas nos conta a história deste aristocrata prussiano que era amigo de Wolfgang von Goethe e cúmplice de Thomas Jefferson, como nos revela o homem que pela primeira vez imaginou a Natureza como um todo e denunciou as devastações que, já no século XVIII, o homem estava a promover. Um livro apaixonante que, nas férias, tem ainda a enorme vantagem de nos descrever as inúmeras viagens deste pioneiro da ciência moderna.

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