Livros

Quatro novidades e um clássico

Humberto Brito quer que neste Verão nos lembremos do devaneio sem horário, do português mais avançado, dos contos extraordinários e de como a fotografia pode juntar tudo isto.

Autor
  • Humberto Brito

“Fragmentos Narrativos”
Paul Valéry (trad. Leonor Nazaré)
(Dois Dias edições, 2016)

Editado com raríssimo sentido de elegância, este livrinho de Valéry (1871-1945) é uma antologia de começos: ‘ideias’ ou ‘assuntos’ para histórias nunca levadas por diante, cuja fruição se resolve na espontaneidade do essencial em estado de apontamento. Ocioso comme il faut, triunfa enquanto defesa do direito ao devaneio.

“Bisonte”
Daniel Jonas
(Assírio & Alvim, 2016)

Depois do livro de sonetos (2015, Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes), Daniel Jonas (n. 1973) acaba de publicar Bisonte, uma meditação teologico-política em verso, cujo motivo central é o poema e “o cansaço do canto” entendidos como uma via de extinção. Se houver este ano três ou quatro livros publicados em português avançado, este será um deles.

“Dez de Dezembro”
George Saunders (trad. Isabel Castro Silva)
(Ítaca, 2016)

Vencedor do prémio Folio e do prémio PEN/Malamud, Dez de Dezembro reúne dez contos desconcertantes do norte-americano George Saunders (n. 1958). Num idioma ao mesmo tempo elevado e desafectado, são como que respostas à pergunta: como proceder perante a crueldade e o sofrimento alheio?

“Todos os Contos”
Clarice Lispector
(Relógio d’Água, 2016)

Desenhando um arco do olhar destemido de Clarice Lispector (1920-1977) e uma imagem de conjunto da sua ficção curta (que não fica atrás dos romances), estes contos completos surpreendem a náusea no aborrecimento das relações, o aterrador na vida comum olhada de perto. Extraordinário.

“Why People Photograph”
Robert Adams
(Aperture, 1994; reed. 2004)

Um clássico da literatura sobre fotografia, esta antologia de textos do norte-americano Robert Adams (n. 1937) reúne ensaios curtos e recensões em torno da pergunta ‘Por que razão se fotografa?’ A prosa de Adams é lúcida, decente, transformativa, delicada, penetrante e mesmo tocante: uma companhia para a vida.

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