Bem, o estádio vai ficar à pinha, só pode. É isto que me vai à cabeça quando, subidas escadas e mais escadas no Matmut-Atlantique, ou o Nouveau Stade de Bordeaux, uma voluntária da UEFA me aponta um caminho invulgar. Pergunta-me qual o lugar que me deram, mostro-lhe a acreditação, ela estica o braço e diz que é ali mesmo, numa fila de cadeiras comuns, sem secretária, sem fichas triplas, sem nada que se parece com um lugar de jornalista e com tudo o que um adepto normal tem direito. Torço o nariz e encolho os ombros, sento-me. Ao menos fica bem mais perto do relvado, passam umas horas e dali ouvem-se todos os berros que Antonio Conte atira para o relvado. Mas enquanto essas horas não passam há tempo para matar.

Saco o telemóvel do bolso, aproveito a internet do estádio (ao menos isso), olho em volta para o bonito cenário, cheiro a relva que está com bom ar. Ligo o Twitter. Uma das primeiras coisas que me aparece, sem ter que tocar mais que duas vezes com o dedo no ecrã, é uma fotografia de um senhor que é quase um deus na terra de onde vem. “Já dentro do estádio à espera da terceira partida dos quartos-de-final entre Alemanha-Itália”. Ele está mesmo aqui. Levanto-me, logo, olho para trás, rastreio com os olhos os lugares que estão lá em cima na bancada de imprensa. Tento encontrar o fato, a camisa azul, a gravata amarela, o cabelo curto que destoa com a gadelha que tinha. É difícil, tenho de dar às pernas, vasculhar as filas e os lugares.

Subo, viro, espreito, desvio-me de uns e incomodo outros para ver melhor. Até que lhe vejo as costas, tem de ser ele, está a subir as escadas e a encaminhar-se para o lugar. Paro-o, estico-lhe a mão, apresento-me. “Olá, Mario. Sou um jornalista de Portugal. Podemos falar um pouco?”. Surjo de rompante, algo apressado. Ele fica surpreso, mas responde, sorri, aceita, mas também tem pressa. Um produtor da ESPN, o canal para o qual comenta, urge-o para a posição. Está ele a meter uns auscultadores gigantes e a aprontar-se para a câmara e esse produtor a dizer-me que agora não vai dar. Não percebo se vai dar a seguir. Fico ali, nas escadas, a cinco metros, à espera, com um olho no relvado e outro no que eles vão fazendo.

Uns 15 minutos passam. O pequeno holofote que lhes aponta para as caras desliga-se, acabou o direto. Ele não se esqueceu, lembrou-se de mim, dirige-se para as escadas e, sorrindo, vem ter comigo. Diz-me que pode ser agora — “sin problema“. Nem quero acreditar. À minha frente, a aceitar falar, está o tipo que antes de Maradona ser Maradona era uma espécie de Maradona para os argentinos. O avançado que, em 1978, marcou dois golos à Holanda na final do Mundial e conquistou a taça. É o Mario Kempes, o homem que ainda participou em outros dois Campeonatos do Mundo (1974 e 1982), marcou mais de cem golos pelo Valência e ainda é um de três jogadores a conseguir vencer um Mundial e ser o melhor jogador e marcador. Além disto, não podia ser mais simpático e disponível.

Foste um grande goleador no teu tempo. O que achas dos golos que se marcaram até agora no Europeu?
Bom, mira, acho que se estão a pintar golos bonitos, em partidas espetaculares.

Achas mesmo?
Sim! E a surpresa está a ser Gales, que agora vos vai tocar a vocês. A outra é a Islândia, que está a ser surpreendente, vamos ver o que lhes acontece amanhã [domingo]. É assim, na fase de grupos há que fazer os possíveis para não perder, de modo a garantir a passagem aos “oitavos”. A partir daí, a perigosidade de uma equipa na defesa e no ataque aumenta. Por isso, creio que cada um se tem de defender com as melhores armas que tem.

Não falta mais risco a uma competição destas?
Falta sempre risco, seja num torneio regional, num Campeonato do Mundo, num Europeu, na Copa América, Copa dos Libertadores, em todo o lado! Hoje só corres riscos sabendo que eles não chegam para perder. Sabes sempre que um contra-ataque te pode atirar para trás e estragar tudo o que fizeste de bom. Mas há equipas que são eficazes e têm uma boa defesa, há outras que tem bons jogadores, que definem uma partida, mas que falham na altura de defender. Isso tem de ser gerido pelo treinador, o que não é fácil depois de uma temporada tão longa e forte de todos os jogadores. Aqui é mais fácil, que o clima é fraquito [estão à volta de 20 graus], mas, em outras cidades, faz muito mais calor. Como aconteceu outro dia com Portugal, em Marselha.

Viste quantos jogos de Portugal?
Quase todos, é o que fazemos. Tenho de os ver, ou de os relatar. Para dizer a verdade, não estou a gostar. Aliás, na realidade, há muitas coisas das quais não gosto. É uma seleção que começou com falta de golo, chegou aqui com três empates.

Agora já temos cinco.
Sim, ainda não venceram nos 90 minutos. Há muita gente que não gosta do estilo de jogo, mas é produtivo para Portugal. Já estão nas meias-finais. Pode-se dizer de tudo, mas também podem chegar à final e ganhá-la. E, no dia seguinte, já todos dizem bem. Essa é a realidade do futebol, não importa como o jogues, importa onde chegas. O futebol de hoje é resultadista, não importa se jogas bem e perdes. Se isso acontecer, para quê jogar bem? Se jogares mal e ganhares, pronto, se calhar até ninguém dá conta disso.

Então e o lado emocional do futebol?
Está a perder, claro [aqui estica um braço e toca na cadeira que tem ao lado]. Isto está muito quente, se perdes dois jogos livram-se de ti e não podes desenvolver o teu jogo. Há muitas seleções que aguentam os selecionadores, outras nunca o fazem. Olha o caso da Inglaterra. Ninguém imaginava que ia perder com a Islândia. Quem pensava que o Hodgson ia ser liquidado pelos islandeses? Ninguém. Dizem que quem não arrisca não ganha. Eu digo que, de vez em quando, há que arriscar.

É a equipa que mais gostaste de ver?
A Islândia, sim. E Gales, claro. São duas equipas que não têm grandes expetativas nem grandes jogadores. Bom, os galeses têm o Bale, e outro que não me lembro agora… Ah, o Ramsey, exato! A Islândia não tem ninguém que conheçamos assim de caras. Contudo, eles jogam. Jogam como uma equipa, como se fossem adeptos islandeses em campo, não importa contra quem. Se perderem contra a França o que acontece? Nada. Mas, se ganham, estão nas meias-finais e vão continuar a desfrutar do futebol, que é o que interessa.

E o que pensas da Albânia? Treinaste um clube lá há muitos anos (o Lushnja, em 1996).
Não esteve mal, mas o problema foi que apenas ganhou um jogo, é pouco. Acabou com três pontos, pronto, como Portugal, só que vocês marcaram mais golos.

É a tua primeira vez num Europeu?
Bom, não me lembro. Creio que sim. Estive em Mundiais, mas num Campeonato da Europa acho que é a primeira vez.

Gostas da vida de comentador televisivo?
Sinto-me bem, não sei se é bom ou mau, mas não me causa dano. Falo do que gosto de falar e vejo jogos, estou bem.

Consegues vibrar a ver jogos?
Sim, com alguns sim. Quer dizer, aqui não torço por nenhuma seleção. Vibro com a minha, essa faz-me sofrer. Aqui é diferente. Normalmente fico do lado das seleções com menos nome. Pelo menos aqui há duas, espero que continuem.

Ou seja, vais estar com o País de Gales contra Portugal.
Nããão! Não estou a favor de Gales ou contra Portugal. Mas, por princípio, gosto das seleções que nunca estiveram numa competição destas. Inclino-me um pouco mais para eles. À medida que a Islândia foi avançado fui gostando mais deles. Por isso é que o futebol é bonito, nunca podes ter a certeza de quem ganha. Hoje, por exemplo, olhas para ali e, possivelmente, ganha a Alemanha. São onze contra onze e ganham os alemães, não é?

Mas a Itália fez um grande jogo contra a Espanha.
Sim, foi perfeito. Mas “fez”, “fez”. Já passou, percebes? Era uma Espanha diferente, com falta de golo, com uma nova geração. E a Itália é a Itália, seja qual for a geração. Jogam sempre da mesma maneira. Nunca seria uma surpresa de dizer “wooow” ver os italianos a empatarem três jogos. A Itália é mesmo assim, goleia 1-0 e já é o suficiente.

E o que pensas sobre esta história toda do Messi?
Foi uma decisão que tomou muito a quente. Pegaram-lhe tanto, tanto, tanto na Argentina que chega um momento em que te cansas, sobretudo quando os resultados não aparecem. Bom, mas acho que ele vai refletir e regressar, porque não se pode ir embora pela porta das traseiras. É um grande do futebol mundial, não pode deixar a seleção assim. Não pode ser uma derrota destas a fazê-lo abandonar a seleção. Não vai acontecer nada, ninguém vai morrer, o futebol continua, isso está claro. A sua forma de ser faz com que ele queira ganhar tudo, ele gosta disso, por isso é que já conquistou tudo.

Mas falta-lhe a seleção. Falta-lhe uma Copa América, um Mundial, uma partida na praia com a camisola argentina vestida, o que seja. Isto é uma brincadeira, claro. Mas falta-lhe ter algo com a seleção que possa dizer: “Ahora sí, me voy”. E sai pela porta grande. Como o fez é que não, porque assim dá razão aos que sempre o criticaram. E isso, o Messi não merece.

BUENOS AIRES, ARGENTINA - JUNE 25: Argentinian midfielder Mario Kempes (L) who just scored his second goal celebrates in front of forward Daniel Bertoni and Dutch defenders Wim Suurbier (on ground) and Ruud Krol (facing camera) 25 June 1978 in Buenos Aires during the extra time period of the World Cup soccer final between Argentina and the Netherlands. Kempes gave Argentina a 2-1 lead and Bertoni later scored a third goal to give Argentina its first-ever World title with a 3-1 victory. AFP PHOTO (Photo credit should read STAFF/AFP/Getty Images) STAFF/AFP/Getty Images

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