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Foram quatro horas absolutamente caóticas, entre as 21h15 — quando apareceram as primeiras noticias de que algo de grave se estava a passar na Turquia — e as 1h30 — quando o Presidente Erdogan foi recebido por uma multidão de apoiantes no aeroporto de Istambul. O mundo assistiu em direto a uma tentativa de golpe de Estado. A internet encheu-se de informações e contra-informações, como se a vitória dependesse do domínio da comunicação — e dependeu, pelo menos em parte. Istambul e Ancara — sobretudo Ancara — foram cenário de confrontos entre militares rebeldes e polícias fiéis ao governo. Em pouco mais de 240 minutos, houve revolução e contra-revolução, governantes depostos e rebeldes neutralizados. Os turcos saíram à rua e travaram os militares. Erdogan, que terá procurado o exílio por duas vezes, acabou triunfante, aclamado pela multidão.

Os primeiros relatos de que algo de estranho se passava em Ancara começaram a chegar já a noite ia avançada na capital turca (são mais duas horas do que em Portugal). As informações iniciais davam conta de uma troca de tiros na cidade. Depois, chegaram os aviões militares e os helicópteros. Em Istambul, os relatos eram coincidentes. Imediatamente depois, chegou a informação de que as pontes que separam o lado europeu do lado asiático estavam encerradas. O aeroporto de Istambul era tomado de assalto. Os voos desviados. Confirmava-se aquilo em que todos já pensavam: estava a acontecer um golpe de Estado na Turquia.

Quem o orquestrou? Ainda ninguém sabe exatamente, embora as forças afetas a Erdogan continuem a acusar Fethullah Gülen, o influente líder religioso, que chegou a ser próximo do Presidente turco, de ser o homem por detrás desta tentativa de golpe militar.

[As primeiras imagens de caças nos céus da Turquia]

Pouco depois das 22 horas portuguesas, meia-noite local, os rebeldes garantiam, em comunicado, ter tomado o controlo do país. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, confirmava a tentativa de golpe, pedindo a sublevação do povo contra os rebeldes. Desconhecia-se o paradeiro de Erdogan — sabia-se apenas que estava a salvo, fora do país.

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De um lado, os militares rebeldes decretavam a Lei Marcial e exigiam o recolher obrigatório. Nenhum civil deveria sair à rua. Do outro lado, o Governo convocava todos os agentes da polícia nacional.

Os blindados controlados pelos militares revoltosos cercavam e dominavam os principais pontos estratégicos em Ancara e em Istambul: aeroportos, acessos principais, parlamento e residências oficiais das autoridades turcas. As redes sociais eram parcialmente bloqueadas. Os caças rasgavam os céus das duas cidades e os militares começavam a tomar de assalto os órgãos de comunicação social mais influentes do país. A vitória dos rebeldes parecia cada vez mais certa e o mundo assistia boquiaberto pela televisão, pelos jornais e redes sociais, à deposição de Erdogan, um líder que está longe de ser um nome consensual entre os líderes ocidentais, sobretudo devido aos seus cada vez mais evidentes atropelos aos direitos humanos.

[Pontes ocupadas em Istambul]

[Caças militares sobrevoaram Ancara]

Nessa altura, o Presidente turco, então em paradeiro desconhecido, fez uma comunicação oficial ao país, através da CNN turca e de uma forma nunca antes tentada: via Facetime, uma aplicação que permite fazer chamadas online, captando som e imagem. Logo ele, que tanto tem procurado restringir a liberdade de circulação e comunicação na Internet.

Na comunicação que fez ao país, o Presidente turco garantiu que não seriam tolerados atos de insubordinação e pediu aos turcos que saíssem à rua para travar os rebeldes. “O Presidente e o Governo democraticamente eleitos estão no poder. Não vamos tolerar tentativas de fragilizar a nossa democracia”.

[Erdogan falou via Facetime]

https://twitter.com/CNNTURK_ENG/status/754065399193493504?ref_src=twsrc%5Etfw

Analisado ainda muito a quente — é bom lembrar que a situação ainda não está completamente resolvida — a prova de vida de Erdogan parece ter sido o momento de viragem de que o regime turco precisava. Os apelos à paz dos vários partidos, mesmo os da oposição, e os sucessivas testemunhos de apoio ao “governo democraticamente eleito” da Turquia que os vários líderes internacionais foram deixando fizeram o resto. Milhares de turcos saíram à rua e opuseram-se aos avanços das forças rebeldes.

Até estes momentos foram caóticos. Um pouco de todo o lado, chegavam imagens e vídeos de manifestantes que pareciam estar a festejar o golpe de Estado e a celebrar junto dos militares. Mas, a partir de um determinado momento, começou a ser evidente que a balança estava a pender para o lado das forças afetas a Erdogan.

[As imagens de feridos começaram a chegar às redes sociais]

Com milhares de pessoas nas ruas, não tardaram a chegar notícias de disparos sobre civis, o que provocou o escalar de violência. As explosões junto ao Parlamento turco, as rajadas de tiros disparadas pelos helicópteros ao serviço dos rebeldes, os primeiros feridos.

Lentamente, começaram as chegar indícios de que a tentativa de revolução estava a fraquejar. Os primeiros a passar essa informação foram os serviços de intelligence turcos. Era de franzir o sobrolho — há muito que se tinha percebido que as duas forças em confronto estavam a tentar controlar a comunicação e o fluxo de informação a seu favor.

[Começaram a surgir imagens de polícias leais ao governo a deterem militares revoltosos]

[Muitos civis pararam os tanques nas ruas]

Mas os sinais começaram a tornar-se evidentes. Os soldados rebeldes começaram a ser detidos em números consideráveis, dezenas depunham as armas e rendiam-se perante a investida das forças afetas a Erdogan, apoiadas por multidões de civis, que não hesitaram em responder ao apelo do Presidente turco. As trocas de tiros, antes longas, tornaram-se, progressivamente, em pequenas bolsas de resistência, cada vez mais raras. Os golpistas ainda atacaram à bomba o parlamento, levando alguns deputados a refugiarem-se em abrigos no interior do edifício.

[O avião de Erdogan andou aos círculos sobre Istambul até conseguir aterrar]

[No aeroporto, Erdogan discursou tendo atrás de si uma imagem de Ataturk, pai da Turquia moderna]

Praticamente ao 240.º minuto, quando a noite turca já se preparava para dar lugar à manhã, Erdogan aterrou em Istambul, triunfante. À chegada ao aeroporto, era recebido por uma multidão eufórica. E, depois de assegurar que o golpe fora “um ato de traição”, deixou a garantia: “Os golpistas vão pagar o preço mais elevado”.

O cenário da conferência de imprensa que organizou depois de chegar a Istambul foi montado para reforçar a imagem de um homem que quer vestir o fato de herói nacional: ao fundo, a imagem de Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna.

Os últimos resistentes ainda ocuparam um edifício onde têm sede vários meios de comunicação social. Invadiram os estúdios da CNN Turquia, que foi tirada do ar, e fizeram reféns no jornal Hurriyet. Mas, ao fim de pouco tempo, cercados por forças especiais da polícia, renderam-se. Erdogan tinha vencido.

[Os militares ocuparam a redação do jornal Hurriyet]

O futuro ainda é incerto. Mas a tentativa de golpe fracassada pode vir a relançara a autoridade de um homem que nunca escondeu as ambições de reforçar legalmente os seus poderes como Presidente turco. Para já, ficam os primeiros números das quatro horas que podiam ter mudado o curso da história da Turquia, mas que não mudaram — pelo menos não tão drasticamente como seria de esperar: morreram 194 pessoas (104 rebeldes, dois soldados, 41 polícias e 47 civis).

[Para conhecer todos os detalhes de uma noite longa e imprevisível, veja aqui o liveblog que o Observador teve em permanente atualização durante toda a madrugada]