As autoridades brasileiras anunciaram esta terça-feira o início da 33º etapa da Operação Lava Jato, a nova fase da investigação que tem como objetivo “obter provas adicionais de crimes de organização criminosa, cartel, fraudes licitatórias, corrupção e lavagem de dinheiro. Trata-se de crimes relacionados a contratos firmados pela construtora Queiroz Galvão com a Petrobras”, diz o Ministério Público Federal num comunicado de imprensa, citado pelo site G1.

Entre as denúncias investigadas estão aquelas feitas contra a campanha de reeleição de Lula da Silva em 2006, pelo alegado recebimento de um “saco azul” de 656 mil euros através do consórcio Quip, liderado pela construtora Queiroz Galvão, alvo da Operação Lava Jato desde a 7º etapa da investigação, iniciada em novembro de 2014.

É uma investigação que ainda está em andamento em relação a reunir indícios, basicamente o que se tem é o relato de colaboradores de que em 2006 a Quip teria sido abordada. Foram solicitadas doações eleitorais que, na verdade, seriam também um pagamento de vantagem indevida por conta da plataforma P-53 [da Petrobras]”, disse a delegada da Polícia Federal, Renata da Silva Rodrigues, citada pelo site Terra.

De acordo com a delegada, as doações da Queiroz Galvão foram realizadas através do “doleiro” (que fez operações irregulares com moeda norte americana) Alberto Youssef, já arguido da Operação Lava Jato. Esta informação terá sido dada durante a “delação premiada” (redução de pena em troca de cooperação e denúncias) do ex-presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, também réu no processo. O pedido da doação terá sido feito por José de Filippi Junior, ex-tesoureiro do PT, investigado pela operação.

A Polícia Federal avançou ainda que identificou “três ou quatro parlamentares envolvidos”, mas eles não são o alvo desta fase da operação. “O nosso objeto são os indivíduos que não têm foro [privilegiado, ou seja, que só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal Federal].” Lula da Silva não tem “foro privilegiado”.

A Operação “Resta Um”

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - APRIL 13: A Brazilian flag and a Petrobras flag fly in front of Petrobras headquarters on April 13, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. A massive corruption scandal at the state-owned oil company has sparked a political crisis in Brazil. President Dilma Rousseff, who has not been linked to the corruption scandal, was chairwoman of the Petrobras board from 2003-2010. President Rousseff is now facing impeachment with an initial vote set in the lower house of Congress for Sunday. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

(Mario Tama/Getty Images)

Como parte da “tradição” da Lava Jato, a nova etapa da operação recebeu um nome: “Resta Um”. Trata-se de uma espécie de jogo, popular no Brasil, parecido ao jogo de damas, e faz referência ao início das investigações sobre a última das grandes construtoras envolvidas na Operação Lava Jato. “O Grupo Queiroz Galvão foi identificado, durante a Lava Jato, como o terceiro com maior volume de contratos celebrados com a Petrobras, alcançando um total superior a R$ 20 bilhões [5.47 mil milhões de euros]”, justificou o Ministério Público no comunicado. A Odebrecht e a OAS são as outras grandes empresa de infraestruturas do Brasil que já estão sob o alvo das autoridades.

Há duas investigações sobre a construtora Queiroz Galvão no âmbito da Operação “Resta Um”:

  • Participação num “cartel de empreiteiras que participou ativamente de ajustes para fraudar licitações da Petrobras” que somaria cerca de 2,73 milhões de euros;
  • Obstrução à justiça da construtora durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, em 2009, de modo a “evitar que as apurações da CPI tivessem sucesso em descobrir os crimes que já haviam sido praticados até então”, diz o comunicado.

A 33º etapa do caso cumpre 32 mandados judiciais, entre os quais dois de prisão preventiva, um de prisão temporária, seis de condução coerciva [quando a pessoa é levada a depor] e 23 de busca e apreensão. Entre os executivos detidos estão o ex-presidente da Queiroz Galvão Ildefonso Colares Filho e o ex-diretor Othon Zanoide de Moraes Filho. Também foi detido temporariamente Marcos Reis, um executivo ligado ao consórcio Quip, por suspeita do envolvimento no pagamento de “luvas” em contas secretas no exterior.

O nome “Resta Um”, no entanto, não antecipa o fim das investigações sobre o esquema de corrupção da Operação Lava Jato. “A menção ‘Resta Um’ não remete a um possível encerramento das investigações da Operação Lava Jato que busca alcançar ainda diversos outros factos criminosos e demais empresas e pessoas participantes de negócios ilícitos junto a estatal [ao Estado brasileiro]”, justificam as autoridades.