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Se o aço da ponte 25 de Abril falasse, provavelmente diria o quanto a obra é apreciada quando (excecionalmente) pode ser visitada pelo público. A edição de 2015 do Open House Lisboa da Trienal de Arquitetura é a prova: dos dois dias de evento, a visita à ponte “esgotou em dois minutos”, sendo que apenas 32 pessoas a puderam visitar, devido a questões de segurança, segundo o gabinete de comunicação do Open House. Os visitantes percorreram os tabuleiros rodoviários e ferroviários e até viram o local onde os cabos de aço são esticados.

A curiosidade em visitar de uma outra forma um dos sítios mais emblemáticos da capital é compreensível. O arquiteto Manuel Aires Mateus lembra que “as maratonas, que acontecem todos os anos na ponte, respondem a essa ânsia do público”. Outro arquiteto, Joaquim Massena, acredita na proximidade do público com a ponte, “sem ser de carro, autocarro ou comboio”, enquanto motor de desenvolvimento e reconhecimento arquitetónico.

As pessoas para desfrutarem de uma obra precisam de estar próximas: poder tocar e mexer nos materiais. Devemos poder utilizar os sentidos nas obras, a arquitetura é emoção e também é para sentir. Cada um deve poder usufruir à sua maneira”, diz.

Há pouco mais de um ano surgia a notícia: a Infraestruturas de Portugal queria criar um elevador para subir à ponte 25 de Abril e um polo expositivo para contar a história da obra. A ideia vai avançar e parece reunir consenso junto de alguns arquitetos — Luís Ferreira Rodrigues acredita que a criação de um espaço interpretativo podia “ter um caráter pedagógico para as pessoas — com fotografias antigas da ponte — até porque é necessário explicar a história e reconhecê-la”.

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O arquiteto Luís F. Rodrigues, autor do livro A Ponte Inevitável (publicado este mês pela editora Guerra & Paz), assume que a promoção tem pontos positivos, mas não esquece a restauração contínua da obra: “Em termos arquitetónicos, não penso que haja muito a fazer senão continuar a mantê-la, restaurando-a quando necessário. Parece existir a intenção de criar um Centro Interpretativo na amarração norte da ponte, mas o projeto tem de ser bem elaborado e coordenado”.

Ponte Inevitavel CAPA 300dpi

Capa do livro “A Ponte Inevitável” de Luís F. Rodrigues. À venda por 16,20 euros

No que toca às características da ponte 25 de Abril, os elogios generalizados falam de uma “construção muito à frente do seu tempo”. Se uns reforçam o desafio técnico que foi construir uma ponte que unisse as duas margens do Tejo nos anos 60, outros, como o arquiteto Joaquim Massena, destacam “a musicalidade, a estética e a leveza que a estrutura de ferro consegue transparecer”. E acrescenta: “É uma alegoria à arte”.

É fácil afirmar, mesmo sem provas concretas, que a ponte será um dos locais lisboetas mais fotografados e tal facto explica-se facilmente: “É uma marca positiva na paisagem da cidade e deve ser considerada como um ex-libris”, explica o arquiteto Luís Ferreira Rodrigues. Os profissionais contactados não sabem enumerar o que fariam de diferente, caso tivessem sido responsáveis pelo projeto em 1962 — início da construção — e até ficam na dúvida do que fazer se lhes propusessem imaginar uma nova ponte. “Construir outra ponte para unir Lisboa e Almada teria de resultar em algo completamente diferente da ponte 25 de Abril”, diz Manuel Aires Mateus. Luís F. Rodrigues avança que teria “de saber o orçamento e a localização exata da mesma”.

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A Ponte 25 de Abril é uma das localizações de Lisboa mais “concorridas” do Instagram

Para o arquiteto Luís Ferreira Rodrigues, uma obra com a mesma envergadura da ponte 25 de Abril dificilmente seria feita hoje. As razões são simples e “há mais aspetos a ter em conta do que no tempo da ditadura”:

Há centenas de agentes envolvidos: políticos, a economia e as organizações ambientais. Não é apenas uma equipa a trabalhar, há mais complexidade. Hoje existem várias questões pelas quais não se pode passar por cima. As obras têm impacto e escala”.

A comparação com a ponte Golden Gate em São Francisco, nos Estados Unidos, é imediata e quase impossível de ignorar. Ambas são pontes suspensas e têm uma cor muito próxima, nada que incomode os arquitetos portugueses. “A ponte não tem falta de originalidade, isso seria o mesmo que dizer que o Mosteiro dos Jerónimos é uma imitação da Catedral de Notre Dame”, esclarece Manuel Aires Mateus. Já Luís Ferreira Rodrigues acredita que “a comparação é positiva, porque as pontes suspensas são sempre uma solução arrojada”.

396743 01: UNDATED FILE PHOTO The Golden Gate Bridge spans the bay in San Francisco, California. California Governor Gray Davis has issued a statement November 1, 2001 stating that authorities have received very credible threats that one of California's many suspension bridges may be targeted for terrorist attack between November 2 and November 7, 2001. (Photo By Justin Sullivan/Getty Images)

A ponte Golden Gate, em São Franciso (EUA) foi inaugurada em 1937

O autor de A Ponte Inevitável vai mais além e explica que a “ideia de imitação” é uma das razões que tem prejudicado o reconhecimento da ponte 25 de Abril. Luís F. Rodrigues refere que Roger Blough, presidente da United States Steel — a companhia norte-americana à frente da construção — afirmou que a ponte deveria representar em Portugal o mesmo que a Estátua da Liberdade e o Empire State Building representam em Nova Iorque, ou o que a Torre Eiffel significa em Paris. Tal parece não ter acontecido, segundo o arquiteto:

Uma certa mentalidade lusitana mesquinha e depreciativa, alimentada por preconceitos de ordem política que teimaram em associar a obra à ideologia ditatorial de Salazar, relegaram a ponte 25 de Abril para o estatuto de mero produto de engenharia ou banal «cópia» da Ponte Golden Gate em São Francisco”.

Poucos são os que apontam eventuais falhas arquitetónicas e estéticas à ponte de 25 de Abril, mas considerá-la como um exemplo da arquitetura portuguesa é ainda um terreno fértil a discórdias. Manuel Aires Mateus reconhece “a ligação com o país”, mas acha que não pode ser representativa de Portugal. Luís F. Rodrigues contrapõe: “Deve ser assumida como parte da identidade portuguesa, ainda que com um grande contributo norte-americano para a sua concretização”.