Quando os Jogos Olímpicos foram instituídos, há muito tempo, na Grécia Antiga, as mulheres não estavam autorizadas a pisar o campo olímpico. Algumas podiam assistir às competições e participar na festividade, mas a sua prestação física não podia ser posta à prova. Nem todas tinham passe livre para o Estádio Olímpico: caso uma mulher casada fosse apanhada nas bancadas, seria enviada para o Monte Typaeum e obrigada a seguir pelo rio abaixo. Tendo em conta os tempos que se viviam, regras como esta que vigorava em Elis (situado em Olímpia, onde os Jogos nasceram) não são de estranhar. Naquela época, as mulheres não tinham voz na política e nem sequer na vida religiosa. Eram obrigadas a casar cedo e a ter muitos filhos.

Mas para as mulheres da Grécia Antiga estava na hora de por um ponto final – ou pelo menos um ponto e vírgula – na História. E então juntaram-se para criar uma versão feminina dos Jogos Olímpicos: os Jogos Heranos, onde participavam jovens mulheres solteiras. Contam os documentos antigos que elas usavam cabelo solto e vestiam túnicas pelo joelho presas apenas pelo ombro esquerdo. Parecia um evento natural. É que, embora afastadas dos Jogos Olímpicos, julga-se que as mulheres espartanas não eram totalmente desligadas do desporto: praticavam hipismo, natação, acrobacia e até wrestling, pode ler-se nos testemunhos escritos que nos ficaram desses tempos. Mesmo no seu papel de mães, não deixavam o bem-estar físico de parte: algumas delas promoviam a educação desportiva junto das grávidas mais jovens.

Não se sabe bem se a existência dos Jogos Heranos é verídica porque há poucos documentos sobre o assunto. Também não há certezas de quando foi a primeira edição. Mas há duas histórias que contam como podem ter surgido. A primeira diz que os Jogos Heranos eram uma parte da festa em honra da rainha Hipodameia, a mulher de Pelops, que era o filho do rei de Lídia. Diz-se que Hipodameia deu ordem para a organização dos Jogos Heranos num sinal de gratidão pelo casamento: terá juntado dezasseis mulheres – as mais atléticas – para representar a Grécia. A segunda história não é tão romântica. Diz-se que foi uma forma de apaziguar a tensão entre Elis e Pisa. A cidade de Elis terá escolhido uma idosa sábia de cada uma das cidades-estado do Peloponeso para tecer uma túnica a Hera. E isto aconteceria de quatro em quatro anos, como símbolo de paz e união. Só depois é que o evento terá evoluído para uma competição.

E nessa competição, à semelhança do que acontecia com os homens, também havia prémios. As vencedoras eram coroadas com ramos de oliveira e presenteadas com uma parte da vaca que era sacrificada em nome de Hera. Há documentos antigos que falam de estátuas construídas em honra das vencedoras, mas nunca foram encontrados quaisquer exemplares dessas construções. O mais próximo que se encontra na atualidade sobre as vencedoras dos Jogos Heranos é uma estatueta que pode ser de Clóris, a neta de Zeus e sobrinha de Pélope que os documentos dizem ser a primeira vencedora dos Jogos Heranos. Mas certezas, nenhumas.