Começou a trabalhar na indústria de transformação de ráfia aos 17 anos, para ajudar a carregar camiões. Foi subindo nos quadros e chegou a responsável comercial de uma empresa com 1200 trabalhadores. Mas a fábrica fechou e Armindo Borges tornou-se empresário.

Em 1991, assim que o primeiro empregador cessou a atividade, Armindo criou a Ibersaco. “Era um armazém pequeno, mas fomos evoluindo gradualmente. Até porque o setor sofreu uma inversão total. Em 1974, Portugal era o maior produtor do mundo de ráfia. Hoje, tem de se importar tudo”, explica o empresário de 62 anos.

Os primeiros tempos não foram nada fáceis, mas Armindo e a “família” – como apelida os trabalhadores – continuam a construir um negócio que é já o maior fabricante de telas e embalagens de polipropileno extrudido (ou sacos de ráfia) em Portugal. Com 25 anos de atividade, a Ibersaco já foi notícia e pelas melhores razões: as condições laborais, que fazem de Armindo um “patrão 5 estrelas”.

Sete anos de provação e trabalho árduo

“Assim que abrimos, estivemos quase a encerrar portas”, resume o empresário os primeiros anos da empresa. Tínhamos um projeto aprovado e executado, mas o reembolso não veio. Foi um efeito bola de neve, com penhora de créditos e liquidações”, explica. A situação foi «muito complicada» e levaram sete anos até «estabilizar».

Para Armindo, esses tempos foram de aprendizagem à força: “Fomos entalados, por assim dizer, e não cumpriram nem deixaram cumprir. Podíamos estar muito mais avançados e perdemos terrenos que queríamos explorar. Mas há que seguir em frente.”

Segundo o empresário, o pior desses anos foi a incapacidade de valorizar os trabalhadores. “Em vez de 35 postos de trabalho que temos hoje, podíamos ter 150 e muito mais valorizados. É isso que queremos fazer, apostar na valorização da equipa, já que antes não podíamos”, explica.

Olhar para fora, dinamizar cá dentro

A etapa inicial da empresa foi dura, mas “com os pés ainda mais assentes na terra” Armindo conseguiu inverter a situação. Hoje, a Ibersaco é líder de mercado e há investimentos para aumentar a faturação. “Em 2015 crescemos 30% em plena crise aguda e este ano vamos crescer mais 10%”, diz o empresário.

Essa visão está presente nos objetivos a curto prazo, com a expansão para o mercado norte-americano, a contratação de mais 40 pessoas e a perspetiva de triplicar a faturação. Hoje, 80% da produção já é exportada para vários continentes (Europa, África e América Latina), numa continuação do trabalho de Armindo antes de se tornar empresário. “Já tinha experiência na exportação e os clientes foram sempre meus amigos. Nunca os enganei e nos negócios isso é fundamental”, explica.

mealheiro Jacob Edward (seniorplanning.org)

No entanto, o empresário continua atento ao que se passa no mercado nacional e às dificuldades que as empresas enfrentam. “Chega a ser ridículo e temos sempre de pensar duas vezes no que se faz. Os acessos com portagens, por exemplo. Aqui há um pórtico aos 4,7 km. Há quem não se preocupe, mas os custos no fim são muito elevados por esta e por outras razões”, diz.

Na sua “zona de conforto”, em Penamacor, Armindo olha para empresas como a Ibersaco como importantes para a economia local: “Nesta região e noutras áreas do país. É bom que existam fábricas como a nossa para dinamizar o interior, não só a nível de emprego, mas de tudo o que potencia.”

A “família alargada” que nunca perdeu um elemento

Não é por acaso que Armindo considera os trabalhadores como uma “família”. Se três filhos e dois irmãos estão nos quadros da empresa, são os 35 funcionários totais que o empresário valoriza. “Isto só existe por causa do trabalho árduo de toda a gente. Dou-me bem com todos e trato-os com dignidade e respeito. Não é justo, não entendo quem tenha de trabalhar e não receba decentemente”, diz.

Os funcionários são a “mais-valia” da empresa, com direito a ginásio e a férias pagas, numa viagem anual com todos os operários para “unir ainda mais o grupo”. Armindo considera uma “injustiça total” ver “patrões a debater salários de 505 euros ou sindicatos a discutir durante meses aumentos de 3 euros”. Essa é uma das premissas da Ibersaco: o salário médio ronda os 1400 euros e, mesmo assim, Armindo acha que é pouco.

“Todos os trabalhadores participam nas decisões e o que pedimos dão. Ninguém se encosta e é bonito de ver a entreajuda entre eles. Há quem pare a máquina para ajudar um colega, sem ninguém pedir, porque todos sabem o deadline”, explica. Essa consciência está provada na elevada produtividade da fábrica e no facto de nenhum trabalhador ter escolhido outra opção profissional. Segundo Armindo, “quem trabalha bem recebe e, enquanto der, dá para todos. É por isso que nunca ninguém quis sair. Estivemos juntos no início e fomos contratando mais gente, mas quem cá estava ficou.”

Hoje, o empresário tem centenas de candidaturas em cima da mesa, “algumas vindas até da Austrália.” Armindo agradece a atenção, mas continua a olhar para quem o ajudou a construir a empresa: “Aqui ninguém tira benesses aos trabalhadores. Todos dão muito em prol da empresa e sabem que a polivalência, a aplicação e a entrega são fundamentais para todos. Não percebo os empresários que estragam o presente, quando não sabem o amanhã.”