O FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos regressa esta quinta-feira e, até 2 de outubro, promete transformar a vila literária num centro cultural onde os livros ocupam o papel central. No ano em que se assinalam os cinco séculos da obra-prima do inglês Thomas More, não faltarão também conversas em torno da Utopia e das utopias.

Este ano o festival vai começar fora das muralhas da vila, com o “Comboio Literário“. Para que não haja desculpas para faltar, o FOLIO associou-se à CP e organizou viagens diárias — com partida da Estação do Rossio, em Lisboa, às 10h25 e 17h55 — que prometem ser uma extensão do programa. A bordo, haverá poemas, livros, workshops e os próprios protagonistas do FOLIO. Uma vez chegados à vila literária, a organização terá ao dispor dos visitantes transportes que farão a ligação entre a estação e o espaço do festival.

O regresso a Lisboa, feito a partir da estação de comboios Óbidos, acontece todos os dias às 15h16 e 00h36. Os bilhetes custam entre 5 (só de ida) e 9,5 euros (ida e volta), e dão direito acesso a 50% de desconto na compra de uma entrada para o FOLIO. É que, apesar de muitas iniciativas serem de entrada livre, é preciso comprar bilhete para assistir a alguns eventos, como as Mesas Redondas e os concertos.

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As entradas custam entre 5 (conversas com escritores) e 12 euros (espetáculos musicais), e podem ser adquiridos previamente através da Bilheteira Online. Se está indeciso sobre o que ver na edição deste ano do FOLIO, o Observador selecionou alguns dos destaques da edição deste ano:

À mesa com escritores

Um dos eventos centrais do festival literário de Óbidos são as Mesas Redondas, onde se juntam escritores nacionais e internacionais consagrados para conversarem sobre literatura e refletirem sobre temas como a memória, utopia, as novas tendências e os novos talentos. Entre os mais de 50 nomes presentes, destacam-se o o Prémio Nobel da Literatura Vidiadhar Surajprasad Naipaul, o islandês Jón Kalman Stefánsson e o britânico Salman Rushdie:

  • V.S. Naipaul nasceu em 1932 em Trinidad e Tobago, mas passou grande parte da sua vida em Inglaterra, onde trabalhou como jornalista para a BBC. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2001, por “ter unido a narrativa perspicaz e o escrutínio incorruptível em obras que nos compelem a perceber a presença das histórias reprimidas”. O autor vai estar à conversa esta quinta-feira, 22 de setembro, com o jornalista José Mário Silva.
  • Stéfansson, um dos mais importantes nomes da literatura europeia contemporânea, vai discutir no sábado, 24 de setembro, “a nova literatura nórdica e as razões do fascínio que vem suscitando” com o escritor José Riço Direitinho. O escritor islandês é conhecido pela trilogia que iniciou em 2007, com Paraíso e Inferno, publicada em português pela Cavalo de Ferro.
  • Rushdie, autor conhecido pelo livro Os Versículos Satânicos, vai conversar no dia 30 de setembro (próximo sábado) com Clara Ferreira Alves. O britânico lançou há pouco tempo um novo livro, Dois anos, oito meses e vinte e oito noites, editado em Portugal pela Leya.

O FOLIO irá ainda contar com presença de Juan Pablo Villalobos, considerado um dos grandes autores da literatura mexicana. Com obras traduzidas em mais de dez línguas, o seu romance de estreia, Down the Rabitt hole, foi finalista do Guardian First Book Award de 2011. Em Óbidos, Villalobos irá discutir, no domingo (25 de setembro), “os novos rumos para as literaturas sul-americanas” com o brasileiro Luiz Ruffato. A conversa será moderada por Isabel Lucas.

VS Naipaul

V.S. Naipaul estará no festival no dia 22 de setembro (quinta-feira)

Mas não só de escritores estrangeiros se faz o FOLIO. Entre os muitos autores portugueses que estarão presentes, destacam-se nomes como Afonso Cruz, Djaimilia Pereira de Almeida, Jacinto Lucas Pires, Alexandra Lucas Pereira ou Manuel Alegre. A discutir “Literatura e Teatro” estarão já este sábado, 24 de setembro, Luísa Costa Gomes e Jacinto Lucas Pires. No dia seguinte, Sérgio Godinho, Aline Frazão e Pierre Aderne falarão sobre o tema “Escrevendo canções, cantando estórias, construindo utopias”.

Que “se faça poesia” por Ruy Belo

O penúltimo dia do festival de Óbidos (1 de outubro) será dedicado a Ruy Belo. Entre as várias iniciativas de homenagem ao poeta e ensaísta português, que morreu em 1978, conta-se a exibição de um documentário de Nuno Costa Santos e Fernando Centeio, Ruy Belo, Era uma Vez, e do filme de casamento do poeta com Teresa Belo. O programa especial inclui também uma exposição de fotografia da autoria de Duarte Belo, Tempo pintado, filho do poeta, e o lançamento da reedição de Boca Bilingue, editado originalmente há 50 anos. A apresentação será feita pelo poeta Gastão Cruz.

Ao longo do dia, haverá várias leituras de poemas — primeiro às 14h30, por várias personalidades, nomeadamente por Luís Miguel Cintra, e depois às 15h por António Feijó.

Teatro, cinema e leituras encenadas

A pensar nos mais pequenos, o programa da FOLIO Ilustra inclui este ano uma peça para bebés. Criado a partir de alguns poemas de Fernando Pessoa, “Afinal o Caracol” é um espetáculo que, de uma forma simples, pretende evidenciar o prazer da leitura. Com a atriz Cristina Paiva, com música de Joaquim Coelho e ilustrações de Mafalda Milhões.

Para os mais crescidos, haverá duas peças — “Seu Portuga e Língua Portuguesa” (dia 23, às 16h), com os atores Josiane Ferreira e Carlos Lima, e “Um Auto para Jerusalém” (dia 29, às 21h30), inspirada na obra homónima de Mário Cesariny. A encenação é de Luís Costa.

No primeiro dia do FOLIO será exibido, às 17h, o filme Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, que chegou aos cinemas no início do mês de setembro, e, a 27 de setembro O Estranho Caso de Mário de Sá-Carneiro, de Paulo Seabra.

A programação de cinema do festival inclui também três filmes do realizador Miguel Gonçalves Mendes Autografia (2004), sobre Mário Cesariny, Curso de Silêncio (2008), sobre Maria Gabriela Llansol, e Nada Tenho de Meu (2012), com João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy. Da filmografia do realizador português ficará apenas de fora José e Pilar (2010), sobre José Saramago e Pilar del Río, que foi exibido na edição de 2015 do FOLIO.

Entre as várias leituras encenadas, encontra-se “Mário de Si”, uma perfomance coordenada por Pedro Giestas inspirada na correspondência entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e “Três Exemplos das Novelas Exemplares”, excertos de obras de Miguel de Cervantes lidas pelos Artistas Unidos.

Numa altura em que se assinalam os 400 anos da morte de William Shakespeare, o festival terá ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare”, coordenada por Beatriz Batarda. E porque este ano também é o ano da Utopia, Rui Tavares fará uma leitura comentada da obra de Thomas More.

As artes plásticas e a literatura

Na programação deste ano da FOLIA, um festival dentro do festival, as artes plásticas ganharão um outro folgo, com exposições, instalações e outras iniciativas. Uma parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) permitir levar à vila de Óbidos uma reprodução em tamanho real de “As Tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch. A iniciativa pretende assinalar os 500 anos da morte do pintor, cujas obras são uma das grandes atrações do MNAA.

O festival literário irá receber também uma exposição com vários trabalhos do fotógrafo Carlos Freire. O brasileiro, sediado em França, teve a oportunidade de fotografar alguns dos nomes mais ilustres do século XX, entre os quais se destacam os escritores Marguerite Yourcenar, Samuel Beckett, Roland Barthes e Jorge Luis Borges. E todos eles estarão expostos em Óbidos.

Para além de uma exposição com ilustrações de Afonso Cruz, a FOLIA irá também mostrar desenhos, gravuras e serigrafias da autoria de Júlio Pomar, que durante 50 anos pintou Quixotes. A iniciativa, realizada em parceria com a Fundação Júlio Pomar e o Atelier-Museu Júlio Pomar, pretende assinalar os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha.

A programação da FOLIA irá ainda incluir uma instalação de Rui Horta — “LÚMEN”– em torno da ideia de utopia, que ficará patente em Óbidos até ao final do festival.

Também há música em Óbidos

A cantora Marta Hugon juntou-se ao compositor Bena Lobo para criar “São Bonitas as Canções”, um tributo a Edu Lobo. Filho da geração da Bossa Nova, Lobo ajudou a escrever, juntamente com Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, parte da história da música brasileira. O concerto está marcado para quinta-feira, 22 de setembro, às 22h, na cerca do Castelo de Óbidos.

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O fadista Camané vai atuar a 1 de outubro (sábado), penúltimo dia do festival (SEBASTIÃO ALMEIDA/OBSERVADOR)

No dia seguinte, Sérgio Godinho será acompanhado ao piano por Filipe Raposo. Uma semana depois, a 29 de setembro (quinta-feira), Lívia Nestrovski e Fred Pereira irão apresentar um “repertório utópico”, que incluirá Kurt Weil, Chico Buarque e Amália. Da cerca do Castelo de Óbidos, os dois músicos irão seguir para o Teatro São Luiz, em Lisboa, onde irão atuar no dia 1 de outubro.

A 30 de setembro, será a vez de Júlio Resende apresentar o novo projeto “Alexander Search”, poemas musicados de Fernando Pessoa interpretados por Salvador Sobral. O fadista Camané irá fechar o festival com um concerto fora do vulgar — em vez de fado, o cantor irá interpretar canções de Tom Jobim, músico que sempre admirou “desde que oiço música”, como admitiu à organização do FOLIO. A atuação está marcada para as 22h, na cerca do Castelo de Óbidos.

O FOLIO decorre na vila de Óbidos entre os dias 22 de setembro e 2 de outubro. Os bilhetes para alguns eventos custam entre 5 e 12 euros. O programa completo pode ser consultado aqui.

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