Os trabalhos de demolição prosseguiram esta terça-feira no Bairro 6 de Maio, na Amadora, para retirar os escombros de oito construções deitadas abaixo na segunda-feira, enquanto uma dezena de desalojados reclamavam apoio em frente ao Ministério do Ambiente.

“Quer massaroca?”, perguntou Joana Semedo, 62 anos, sentada em frente ao pequeno fogareiro aceso junto à placa toponímica da Estrada Militar da Damaia.

A moradora no Bairro 6 de Maio, natural de Cabo Verde, habita numa construção precária junto à estrada “há 13 anos” e aguarda que a Câmara da Amadora lhe diga quando terá de deixar a casa.

“É a um euro, mas está mau”, desabafou, enquanto virava as espigas de milho ao lume com um pau, para não se queimarem demasiado.

O marido, contou, recebeu dinheiro da autarquia e regressou a Cabo Verde, deixando-a sem direito a ser realojada e, aparentemente, resignada com o que a espera: “Quando deitarem a casa abaixo tenho de ir buscar um quartinho para entrar, porque já não tenho direito [a casa]. Quem aceitou dinheiro já não pode fazer guerra”.

“O pai dele veio de São Tomé para aqui, trabalhou todo o tempo aqui, morreu aqui e o meu rapaz não tem direito a casa”, lamentou Maria Sanches Tavares, que também cuidava do milho no fogareiro, protegida como as outras quatro vizinhas debaixo de um chapéu-de-sol.

A moradora admitiu que não está inscrita no Programa Especial de Realojamento (PER), criado em 1993 para a reabilitação de bairros degradados, ao abrigo do qual a Câmara da Amadora tem vindo a demolir os núcleos de barracas no município.

“Eu só trabalho isto para ter um tostão para medicamentos, para a vista e para o coração, porque tenho um problema no coração”, explicou.

A poucos metros, numa ponta do Bairro 6 de Maio, Rolando Silva, 39 anos, vigiava os avanços da pesada retroescavadora que deitava ao chão restos de habitações encostadas à sua casa.

“Moro aqui há 17 anos, contribuo para o Estado, tenho emprego, mas não tenho contrato”, esclareceu o calceteiro, queixando-se de que os ganhos não dão para alugar uma habitação fora do bairro.

“Não quero guerra. Deem um tempo, isto não vai ser demolido tudo, porque o país está em crise e a construção também”, apelou.

A máquina prosseguia o seu trabalho perante o olhar de Joana Pina, 73 anos, a residir no bairro há 43, e que quando chegou a Portugal vinda de Cabo Verde “tinha documento português”.

“Eu não quero casa, quando tiver o meu dinheiro volto para a minha terra. Lá ninguém me bota a mim para a rua”, explicou, descontente com a verba que a autarquia lhe quer dar pela casa onde reside e criou os três filhos.

Uma vizinha, Ausenda Fonseca, 40 anos, está inscrita no PER, mas aproveitou para comentar que “ninguém consegue achar emprego e com o ordenado que é oferecido, para sustentar uma criança e pagar uma renda de 300 ou 400 euros, não tem maneira”.

“O dinheiro que a câmara está a dar é muito pouco para encontrar uma casa”, criticou, comparando que os montantes das compensações estão a par do “valor de um carro, não para uma casa”.

Na segunda-feira, o município demoliu mais oito construções degradadas, ocupadas “por um total de 15 pessoas”, segundo fonte oficial da autarquia.

Em comunicado, a Habita – Associação pelos Direitos à Habitação e à Cidade acusou a câmara de deixar sem alternativa de alojamento “quatro famílias, crianças e mulheres idosas doentes”.

Uma fonte oficial da autarquia assegurou que as pessoas “foram por diversas vezes notificados da sua exclusão do PER e, consequentemente, da demolição”.

Uma dezena de moradores juntou-se, esta manhã, em frente ao Ministério do Ambiente, em Lisboa, num protesto convocado pela Habita para exigir a continuação do diálogo relativamente aos realojamentos.

“Esta também é uma responsabilidade do Estado, não é apenas da câmara”, disse à agência Lusa Rita Silva, da Habita.

Um grupo composto por Rita Silva, um membro da associação SOS Racismo e uma moradora foi recebido pela chefe de gabinete do secretário de Adjunto e do Ambiente, José Mendes, por este se encontrar fora do país.

Fonte do Ministério do Ambiente afirmou que “a chefe de gabinete irá agora transmitir as preocupações” da comitiva a José Mendes.

Rita Silva sublinhou que se não existirem respostas da parte do Governo nos próximos dias, a associação irá “organizar um forte protesto”.

“Já que há pessoas a dormir na rua, também podem vir para a frente do ministério”, adiantou.