De um lado, Robert Waseige escolhe De Wilde; Gil Baiano, Oceano, Marco Aurélio e Pedrosa; Pedro Barbosa, Pedro Martins, Hadji e Amunike; Sá Pinto e Dominguez. Do outro, António Oliveira responde com Hilário; Paulinho Santos, Jorge Costa, Barroso, Aloísio e Fernando Mendes; Sérgio Conceição, Rui Jorge e Zahovic; Edmilson e Artur. Durante 90 minutos, o árbitro Lucílio Baptista mostra seis vezes o cartão amarelo e anota um golo, o do portista Edmilson, aos 26 minutos. Nesse mesmo dia, um sábado, 12 outubro 1996, o Estrela de Fernando Santos ganha 2-0 ao Vitória SC de Jaime Pacheco e ainda se regista um nulo no Boavista-Leça.

E então? Faz hoje 20 anos. Muito bem, e isso interessa o quê? É também o dia de estreia de Arsène Wenger no Arsenal, em Blackburn (2-0, bis de Ian Wright), para a Premier League. Daí para cá, o treinador francês dá corpo ao manifesto “daqui não saio, daqui ninguém me tira.” Imaginem só, 20 anos. Qualquer coisa como 7305 dias. É muito tempo, quase uma vida. Wenger é contratado ao Nagoya Grampus Eight, que o substitui por Carlos Queiroz, e aterra em Londres para provar o veneno dos ingleses. Todos eles, sem exceção, interrogam-se sobre o valor de um homem de 45 anos de idade e cujo passado evidencia uma descida de divisão (Nancy 1986-87) antes de se sagrar campeão francês (Monaco 1987-88) e levantar ainda uma Taça de França (Monaco 1990-91, com Rui Barros no plantel).

Quando rebenta o escândalo da combinação de resultados do Marselha, em 1993, o bom do Wenger acha-se a mais em França e faz as malas para o Japão, onde vive uma experiência sem igual no Nagoya Grampus Eight. Até que chega o Arsenal. O acordo é selado em setembro e Wenger é apresentado aos jornalistas no primeiro dia de outubro. A estreia, essa, é só no dia 12, aquele do Sporting 0 Porto 1. Naquele parêntesis temporal de 12 dias, entre a primeira conferência de imprensa e o primeiro jogo, Wenger é alvo de ataques maldosos infinitos. O jornal The Independent pergunta em letras garrafais: “Arsène who?”. E o capitão arsenalista Tony Adams solta o verbo. “Olhei para a fotografia dele e parecia-me mais um professor de escola, com aqueles óculos. Aí pensei, o que sabe este francês de futebol? Vai ser melhor que George Graham? E sabe falar inglês fluentemente?”

Que fartote, este recuar no tempo. Wenger ganha a confiança a pulso, altera a alimentação dos jogadores (só pasta antes dos jogos, mesmo que estes comecem ao meio-dia e a única refeição seja o pequeno-almoço) e ei-lo aí para as curvas, ainda no Arsenal. Ao todo, 1130 jogos, com 648 vitórias, 263 empates e 219 derrotas (uma percentagem de 57,3 de vitórias). Sempre, sempre, sempre no Arsenal. Nesse período, tanto Benfica como Porto somam 18 treinadores cada, enquanto o Sporting acumula 22 – em comum, um só nome (Jesualdo Ferreira). Lá fora, há de tudo entre United (5), Liverpool (7), Barcelona (10), Bayern (10), Milan (18), Inter (19) e Fluminense (42).

E resultados? Wenger reúne um arsenal deles. É, por exemplo, o primeiro treinador estrangeiro a juntar Premier League à Taça de Inglaterra na mesma época (1997-98). É, outro exemplo, o treinador capaz de se sagrar campeão inglês sem uma derrota. Nem uma (2003-04). E é, só mais este caso, o maior vencedor de sempre da Taça de Inglaterra, com seis títulos. Por outro lado, está a zeros na Taça da Liga, não ganha o campeonato desde o tal Invictus em 2004 e é capaz de perder finais de todas as três competições europeias (Taça das Taças 1992, pelo Monaco, mais Taça UEFA 2000 e Liga dos Campeões 2006, pelo Arsenal). E ainda perde com cinco treinadores portugueses: Mourinho (Chelsea 2005), Jesualdo (Porto 2008), Domingos (Braga 2010), Villas-Boas (Tottenham 2013) e Jardim (Monaco 2015). Vá, como todos os comuns mortais, é capaz do melhor e do pior. Sempre com a ideia fixa de jogar o melhor futebol de sempre. Quando todos os planetas se alinham, o Arsenal é um caso sério. Isso é notório na tal época 2003-04, a do título invencível. Aquilo é um ver-se-te-avias sem igual. Um baile à moda antiga. Em 38 jornadas, 26 vitórias e 12 empates. A equipa tem de se saber de trás para a frente e vice-versa: Lehmann, Lauren, Touré, Campbell, Cole, Vieira, Gilberto, Pires, Ljungberg, Bergkamp e Henry.

Wenger está na história do futebol inglês. Por esse título invencível e também por aquele 14 fevereiro 2005, dia em que não convoca qualquer inglês para a goleada sobre o Crystal Palace (5-1). No onze, Lehmann (alemão), Clichy (francês), Cygan (francês), Lauren (camaronês), Touré (marfinense), Edu (brasileiro), Pires (francês), Vieira (francês), Bergkamp (holandês), Reyes (espanhol) e Henry (francês). No banco, Almunia (espanhol), Senderos (suíço), Fàbregas (espanhol), Flamini (francês) e Van Persie (holandês). Ao todo, 16 estrangeiros. Cabuuuuum, rebenta a bolha. O futebol inglês sente-se ofendido e, ao mesmo tempo, ultrapassado no tempo. Tanto assim é que, quando o Arsenal chega à final da Liga dos Campeões na época seguinte, sem qualquer golo sofrido em nenhum dos seis jogos a eliminar (vs Real Madrid, Juventus e Villarreal), o presidente dos Jogadores Ingleses questiona-se se é uma equipa inglesa a jogar com o Barcelona.

Xinda pá, tantos estrangeiros. Quem é o primeiro a ser contratado por Wenger no Arsenal? Tchan tchan tchan tchaaaaaaaan, Luís Boa Morte. “Sim, em 1997. Na altura, jogava no Lourinhanense, espécie de equipa B do Sporting. Estávamos na 3.ª divisão e fomos os campeões da série D [com 11 pontos de avanço sobre o Estrela de Portalegre]. Devo muito ao selecionador nacional Jesualdo Ferreira, que confiou na minha capacidade e na de outros jogadores do Lourinhanense [como Caneira, Patacas e Nuno Assis], chamou-nos à seleção e tive a felicidade de ser observado por responsáveis do Arsenal nesse Torneio de Toulon. Eles entenderam-se com o Sporting e assinei por eles. Por isso, não completei a época no Lourinhanense, que, apesar de acabar em primeiro lugar a série D, teve de disputar um play-off de apuramento de campeão da 3.ª divisão. Nessa parte eu já não participei.” Já estava em Londres? “Sim, sim. Cheguei lá e fui apresentado a 3 de junho.” Com o Wenger? “Não, o Wenger faltou porque um amigo dele tinha falecido e foi ao funeral. Mas ele ligou-me nesse dia a encorajar-me e trocámos umas palavras. Só o conheci mais tarde.”

A ideia geral é a de que Wenger é arrogante, blasé… “Não, não, não vá por aí. O Wenger é impecável. E sabe falar com os jogadores, no balneário. Está sempre na sua onda, é isso. Quando ganhámos campeonato e Taça de Inglaterra, logo na minha época de estreia, em 1997/98, ele lá estava na festa, mas sempre na sua, sem grandes euforias. É assim, o Wenger. Quando estava a jogar no West Ham, lesionei-me gravemente e só fiz um jogo de agosto a maio. Sabe quem me ligou regularmente para falar comigo e me animar? O Wenger. É um homem que sabe o que quer, que tira o melhor dos jogadores à base da conversa.”

Na estreia pelo Arsenal, o extremo português joga a avançado, juntamente com Wreh. Estamos a 14 outubro 1997 e é um jogo válido para a Taça da Liga, com o Birmingham. É substituído aos 119 minutos e eleito o melhor em campo. Sem dúvida alguma, Boa Morte marca dois golos, provoca o penálti do 3-1 de Platt e ainda assiste Mendez para o 4-1. É um jogo inesquecível. O que lhe diz Wenger? “Deu-me os parabéns e pediu-me para continuar assim.”

Conversa, ora aí está um belo tema. Porque Wenger é um homem seguro de si mesmo e sem papas na língua. Daí que trave algumas batalhas dialéticas com outros catedráticos, como Alex Ferguson, José Mourinho e outros, alguns fantasmas.

“Se há pessoas que passam pela janela e falam com a tua mulher de forma regular, quase diária, há que perguntar a quem de direito o que se passa”

(a propósito do namoro entre Chelsea de Mourinho e o lateral-esquerdo Ashley Cole)

“Essa questão não é para mim e sim para os árbitros”

(a respeito das notícias sobre o adeus de Alex Ferguson no Manchester United)

“Continuo a pensar que é possível passar um campeonato inteiro sem derrotas. Estou cá há anos para construir essa equipa invencível”

(em 2002, dois anos antes do título de campeão sem derrotas)

“Ele aproveita qualquer erro, por mínimo que seja. Parece um jogador de Play Station”

(sobre Lionel Messi na ressaca dos quatro golos do argentino ao Arsenal em Camp Nou: 4-1)

“Por muito dinheiro que ganhes, só consegues fazer três refeições por dia e dormir numa só cama”

(boca para Anelka, seu protegido durante dois anos até o despachar para o Real Madrid)

“Todos têm uma opinião sobre este campeonato e ninguém é um profeta. Não sei quem vai ganhar a liga e tenho um currículo de 1600 jogos. Agora se o Nani sabe que o United vai ser campeão, é porque é 1600 vezes mais inteligente que eu”

(Dezembro 2010, cinco meses antes da consagração do United como campeão inglês)

Também há o reverso da medalha.

“Dizem que ele fala cinco línguas. Ótimo. E isso significa realmente o quê? Tenho aqui um rapaz de 15 anos a jogar connosco. É da Costa do Marfim e também fala cinco línguas”

(Alex Ferguson, Maio 1997)

“O Wenger tem um problema connosco. Acho que ele é aquilo a que chamam em Inglaterra um voyeur. É alguém que gosta de observar os outros. Em Stamford Bridge temos um ficheiro de citações do senhor Wenger sobre o Chelsea Football Club nos últimos 12 meses. E não é um ficheiro de cinco páginas. É um ficheiro de 120 páginas, por isso a nossa reação é muito forte.”

(José Mourinho, Outubro 2005)

“O Arsenal é uma orquestra, eu prefiro heavy metal”

(Jürgen Klopp, Novembro 2013)