A 1 de novembro de 1916, Amadeo de Souza-Cardoso inaugurou a sua primeira exposição individual em Portugal, no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, no Porto. A população, ainda pouco familiarizada com a arte moderna, acorreu em peso para elogiar, criticar e até cuspir nas obras do pintor português. 100 anos depois, já não há Jardim Passos Manuel — foi demolido e, no seu lugar, está o Coliseu do Porto. Mas a obra de Amadeo Souza-Cardoso resistiu ao tempo e, das 114 peças expostas na altura, 81 vão estão no Museu Nacional Soares dos Reis, a partir desta terça-feira, 1 de novembro de 2016.

Aos 25 anos, Amadeo de Souza-Cardoso, natural de Manhufe, em Amarante, já tinha exposto ao lado de Modigliani, Duchamp, Matisse, Picasso, Kandinsky e Van Gogh. Em 1912, chegou ao Grand Palais, em Paris, Em 1913, integra a primeira exposição de arte moderna da América, o Armory Show, em Nova Iorque, com oito trabalhos (vende três). Em Berlim, é convidado para expor coletivamente no I Salão de Outubro de Berlim. Quando rebenta a I Guerra Mundial, em 1914, sente que é hora de regressar à terra natal, após oito anos a viver em Paris. Não sabia ainda que, de certa forma, também iria ter a sua guerra em Portugal. Uma guerra artística, de modernismo versus academia.

No final do ano de 1916, Amadeo realiza então as suas únicas mostras individuais, primeiro no Porto, no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, entre 1 e 12 de novembro, e depois em Lisboa, na Liga Naval, de 4 a 18 de dezembro. Em Lisboa houve menos confusão porque o artista escolheu “um espaço mais elitista”, explica ao Observador Marta Soares, que divide com Raquel Henriques da Silva a curadoria da exposição Amadeo de Souza-Cardoso, Porto-Lisboa-1916-2016, que agora se inaugura. No Porto, foi diferente. Numa carta enviada ao crítico norte-americano Walter Pach, Amadeo de Souza-Cardoso relata que, em 12 dias, passaram 30 mil visitantes pelo Passos Manuel.

A revista Orpheu tinha saído em 1915, o modernismo dava os seus primeiros passos em Portugal e houve quem tivesse gostado. Houve também quem não tivesse compreendido e quem se tenha revoltado com tamanha afronta à pintura naturalista e romântica que era a norma na altura. Marta Soares não consegue garantir que as referências históricas que existem a cuspidelas às obras não sejam uma metáfora. Mas há uma carta que o poeta e escritor Teixeira de Pascoaes escreve a Amadeo, a 9 de fevereiro de 1917, que prova que ele foi agredido na rua (que incluiu uma visita ao hospital). A carta pode ser vista na exposição e a mensagem é curta: “Meu querido Amadeo Cardoso: Soube agora da estúpida agressão de que foi víctima. É com a maior indignação que o abraço e lhe desejo rápida cura. Seu muito amigo e admirador, Teixeira de Pascoaes.

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Ambos os quadros se chamam “A Vida dos Instrumentos”. No catálogo, Amadeo juntava-os. Na exposição do Porto e de Lisboa, eles também surgem inseparáveis. © Sara Otto Coelho / Observador

Amadeo foi o curador de si mesmo. Escolheu o local, tratou do transporte e da montagem das obras, fez o catálogo e ainda visitas guiadas aos jornalistas. A importância do Jardim Passos Manuel, pela sua abertura a diferente classes, a sua centralidade e a gratuitidade de entrada no Salão de Festas, ajuda a explicar o sucesso e a disparidade de opiniões que se viveu na Invicta, explica Marta Soares. É por isso que a mostra abre com uma recriação das dinâmicas do Passos Manuel. “Criamos um contexto para preparar o visitante”, adianta. Aí estão incluídos vários recortes de imprensa da época. Como este:

“‘Mas como são feitos esses quadros e o que representam?’, perguntarão V. Ex.as. É difícil responder, e se recorro ao título dos mesmos, julgo que ainda é pior.” Maria Andrade, A Luta.

Só depois de se entrar no espírito de 1916 (a sala de exposições temporárias do Museu Soares dos Reis não tem rede e não serão permitidas fotografias, guarde o seu telemóvel) é que se entra na arte de Souza-Cardoso. Fotografias da exposição original, ainda ninguém descobriu se existem, o que significa que é impossível recriar exatamente a disposição das obras.

Dos 114 títulos que constam no catálogo feito por Souza-Cardoso, as comissárias, conseguiram identificar 91 — na época, o catálogo não tinha a fotografia da obra correspondente. Entre roubos e colecionadores que preferem não emprestar, as comissárias conseguiram reunir 81 obras, entre óleos sobre tela, pintura a cera, aguarela e desenho. Marta Soares explica que em Lisboa estará mais uma, “Luto, Cabeça, Boquilha”, atualmente emprestada numa mostra em Bruxelas.

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O Observador visitou a exposição ainda em montagem. Esta é a segunda sala. Ao todo há quatro, mais a entrada dedicada à contextualização de época. © Sara Otto Coelho / Observador

O primeiro quadro que o visitante vê é “Máscara de aço” (ver na fotogaleria), óleo sobre tela pintado entre 1915 e 1916. É o único retrato de um leitor que se conhece na obra do modernista e é também o quadro número um de acordo com o catálogo que Amadeo preparou sobre o evento.

O sr. Amadeu de Souza Cardoso, que não é um anormal, mas uma criatura de talento, expôs os seus trabalhos. A população portuense mobilizou-se para os ir apreciar.” Notícia de Vaz Passos, no Jornal do Comércio e das Colónias.

A maior parte do espólio está na posse da Fundação Calouste Gulbenkian e também do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante. Em maio, com o impulso da Gulbenkian, a obra do pintor português foi exposta em Paris, no Grand Palais, onde foi recordada a Exposição Universal de 1900. No catálogo dessa mostra, Sylvie Hubac, presidente da Réunion des musées nationaux, diz de Amadeo que “L’histoire de l’art a pourtant longtemps oublié son génie” (algo como “a história da arte tem desde há muito esquecido o seu génio”).

Numa entrevista ao jornal O Dia, Amadeo Souza-Cardoso proclamou a sua independência: “Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola.” Talvez tenha sido essa experimentação, talvez tenha sido o facto de ter morrido em Portugal a 25 de outubro de 1918, com apenas 30 anos, ainda a I Guerra Mundial não tinha terminado. Certo é que a notoriedade que Amadeo conheceu em vida foi caindo no esquecimento após a sua morte. A história parece finalmente querer aprofundar a obra que deixou.

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Na última sala da exposição há uma vitrine com objetos que fizeram parte da vida de Souza-Cardoso e que ajudam a contar a sua história de vida. © Sara Otto Coelho / Observador

Organizada pelo Museu Nacional Soares dos Reis e pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Amadeo de Souza-Cardoso, Porto-Lisboa-1916-2016 fica no Porto até 31 de dezembro. Depois, fará uma viagem semelhante à de 1916, rumando à capital. Não à Liga Naval de Lisboa, no Largo Calhariz, já extinta — hoje uma agência da Caixa Geral de Depósitos, mas ao Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, onde ficará de 12 de janeiro a 26 de devereiro de 2017. 100 anos depois, quem sabe não há algum visitante a fazer as mesmas críticas de 1916:

Está o pintor como certos políticos… Também não há ninguém que os perceba.” Opinião.

Aquilo não é ‘abstracionismo’, é ‘obstrucionismo‘”, jornal A Montanha.