Relembra-se da história de José Salvador Alvarenga, que se perdeu em alto mar, por 14 meses, no seu pequeno barquito, quando saiu de casa para ir pescar na costa do México? O destino quis que durante 438 dias José não voltasse a casa. O homem, conta o El Mundo, ainda se sente perdido, num caminho agora não tem mar nem areia, mas pessoas e gravilha, e vê a sua história publicada em livro.

As aventuras dos mais de 300 dias à deriva no mar e outros 100 nas areias de uma pequena ilha, nas ilhas Marshall, foram contadas por Jonathan Franklin, que as transformou em livro.

Ao El Mundo, o Náufrago contou que ainda é, em várias ocasiões, acordado por sonhos onde está “preso num mar aberto” e lembra-se, como se fosse hoje, do dia em que partiu para a pesca, e não voltou. Ou melhor, voltou, mas já nada era o mesmo. Embora conhecesse o mar como ninguém, e fosse um pescador experiente, algo naquele dia o surpreendeu e não o deixou voltar.

Uma tempestade inesperada assombrou a sua embarcação e as fortes ondas que se fizeram sentir acabaram por fazer com que o seu motor cedesse, passado uns dias, relembra.

Para sobreviver, teve de beber urina e sangue dos animais, especialmente de tartarugas e pássaros, que ele e o seu companheiro apanhavam para comer. Só após algum tempo é que magicou um mecanismo capaz de armazenar a água das chuvas. O seu companheiro não teve a mesma sorte e acabou por morrer, depois de comer um pássaro doente.

José admite que, por dias, deixou o corpo no seu barco e continuou a dizer-lhe “bom dia”, todas as manhãs, para que não se deixasse sucumbir à solidão e falta de lucidez. Mas, ao fim de alguns dias, acabou por jogar o corpo ao mar .

“Depois de cinco dias à deriva, eu entreguei-me a Deus”, afirma José ao El Mundo, reforçando a ideia de que o que lhe havia acontecido foi, mais do que uma punição, um teste.

O homem esteve mais de 300 dias em alto mar, até finalmente conseguir avistar terra firme e, admite, o suicídio passou-lhe mesmo pela cabeça. Pensou em pendurar-se na proa do seu barco e acabar com o sofrimento. O homem poderia ter sido salvo muito tempo antes. Um navio passou por si, a tripulação acenou-lhe, mas ninguém parou para o ajudar.

Quando, enfim, chega o final daquela viagem inesperada, surge uma nova reviravolta: a família do companheiro que morreu consigo, em alto mar, dá início a um processo contra si, alegando que José não deitou o corpo ao mar mas que o terá comido. A verdade é que não há como provar que tal terá, ou não, acontecido, mas a palavra de José é a de que atirou o corpo para fora da embarcação.

O livro está agora pronto a ser lançado e a dar voz a José Alvarenga e à sua história de sobrevivência e superação.

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