Tenho de ir beber copos com os amigos

Antes de Selin Malkoc regressar à Turquia, o seu país Natal, estava entusiasmada com a ideia de voltar a ver todos os velhos amigos e pôr a conversa em dia. Organizou uma agenda apertada, e pouco tempo depois de estar de volta a casa deu por si a dizer que “tinha de almoçar com” certa amiga, ou que “tinha ir beber copos com os amigos”. “Como é que as coisas por que estava ansiosa se tornaram num ‘tenho de’?”, perguntou-se. A sua agenda tinha-se transformado num calendário de obrigações e a professora da Washington University em St. Louis, nos Estados Unidos, sentia que tudo era um enfado, parecia trabalho.

De volta a St. Louis partilhou a experiência com Gabriela Tonietto, investigadora da mesma universidade, que conseguiu identificar-se com o fenómeno por que Malkoc tinha passado. Da adversidade nasceu um estudo científico publicado pela Journal of Marketing Research, da mesma universidade, que afirma que agendar com precisão atividades lúdicas retira-lhes o divertimento e o prazer que tanto se procuram. Manter um calendário fixo e apertado para os tempos livres assemelha estes momentos ao horário laboral e essa é uma das razões por que, no pico da desmotivação, preferimos carregar no botão de pânico, cancelar tudo e ficar em casa.

“A espontaneidade é muito importante porque faz com que nos sintamos livres”, diz ao Observador a psicóloga Inês Afonso Marques. É, a este nível, um conceito muito caprichoso porque, sendo a espontaneidade um objetivo, não vale a pena marcar na agenda uma hora para sermos espontâneos. Numa agenda cheia de eventos para lá das oito horas mínimas de trabalho, a ansiedade pode atacar de todos os lados: por não se cumprir o plano, não se desfrutar dos compromissos como se queria, por se estar preso a horário pré-determinado. “Tem tudo a ver com as nossas expectativas”, diz a psicóloga, “e claro que se nos é imposta uma tarefa é mais difícil que se desfrute”.

Assim sendo, nem parece que se está a falar de divertimento e descanso.

O prazer de “ter um livro para ler e não o fazer”

A divisão entre trabalho e tempo livre é ancestral, diz ao Observador o sociólogo José Machado Pais, e “é benéfica”, sublinha Inês Afonso Marques.

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Tempo para o trabalho ou tempo para a família? (Ilustração: Istock/Getty Images)

“O tempo livre surgiu historicamente por contraposição ao tempo de trabalho, outrora considerado um tempo de sujeição e escravatura. Aliás, na Bíblia também aparece a ideia do trabalho associado ao castigo, à maldição. Quando Adão contraria a vontade de Deus, é-lhe dada a possibilidade de purificação através do sacrifício laboral”, explica o sociólogo. Esta divisão clara não significa que o trabalho não possa trazer satisfação pessoal, diz a psicóloga, mas é imperativo um equilíbrio entre o tempo que lhe é dedicado e aquele que é reservado á família, aos amigos, e ao que Inês Afonso Marques chama “auto-cuidado”. “A divisão clara entre o trabalho e o tempo livre é benéfica na nossa vida”, diz, “e quando há uma desregulação, sim, é muito importante que a pessoa ponha na agenda, faça um compromisso com ela própria para tentar dedicar mais tempo, por exemplo, à família ou aos amigos. Apesar de ser um compromisso, a pessoa sabe o porquê, há uma motivação intrínseca para a mudança.”

Neste caso, o cumprimento de uma agenda pode ser motivo de satisfação pessoal: abre-se propositadamente espaço para o tempo livre e para o lazer, que não são necessariamente a mesma coisa, avisa Machado Pais: os mais recentes inquéritos aos usos do tempo demonstram que as horas em que não se está a trabalhar são fortemente preenchidas por deslocações entre casa, trabalho e escola, idas ao supermercado, cuidados pessoais e de higiene. Nada disto é lúdico.

“O conceito de lazer remete para uma realidade diferente, o da liberdade de se fazer o que se quer quando o que se quer fazer nos deixa felizes”, define Machado Pais, continuando: “O que caracteriza um tempo de lazer não é a atividade que se realiza nesse tempo mas a avaliação subjetiva do que se faz”. O exemplo que o sociólogo nos dá é simples: uma viagem de avião pode ser entusiasmante e divertida para alguém que nunca viaja e entediante para um hospedeiro de bordo, mesmo que esteja a dirigir-se para o seu destino de férias.

O que o estudo liderado por Tonietto e Malkoc coloca em evidência é que o agendamento intenso do tempo livre impede que este passe a ser tempo de lazer. A solução que apresentam é o desejado equilíbrio que, dito assim, até parece fácil. As investigadoras sugerem que não se associem certos eventos a horas muito específicas e que se usem expressões um pouco mais vagas como “por voltas das 20h” ou “à tarde”, em vez de “às 15H34” (o que previsivelmente deixará a outra pessoa à espera, consumida de ansiedade).

“Não fazer nada é 100% mais fácil”

Num dos seus monólogos, o comediante norte-americano Jonh Mulaney fala de como os olhos dos adultos brilham quando chegam de fim de semana ao trabalho e diz “este fim de semana não fiz nada”. “É tão mais fácil não fazer nada que o facto de se fazer alguma coisa é notável”, diz ele. Será assim para alguns sábios, mas não para a maioria. Uma hipótese para chegar ao equilíbrio de que falam as investigadoras poderá ser a observação literal da expressão tempo livre – o momento em que não há eventos no calendário e por isso as hipóteses são infinitas, dependem da vontade.

“O tempo para uma pessoa aprender a aborrecer-se é o tempo de alguma criatividade e de novas descobertas. É um momento em que aprendemos a lidar com alguma frustração momentânea. E no fundo estamos sempre a fazer alguma coisa, mesmo quando parece que não estamos a fazer nada, estamos a pensar”, diz Inês Afonso Marques.

Machado Pais diz que “não fazer nada” pode querer dizer muita coisa. “Há uma ociosidade estupidificante mas há também uma ociosidade criativa. Mário Quintana, poeta brasileiro, dizia que a preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar não teria inventado a roda.”

Qualquer procrastinador fica nesta altura a salivar, mas procrastinação é outra coisa. A psicóloga Inês Afonso Marques aponta aqui para o adiamento compulsivo de tarefas que consideramos obrigações, o que tem relação com o impulso de cancelar todos os planos sociais quando a ansiedade aperta. A adicionar às pessoas desagradáveis ou ao restaurante em que a comida é consistentemente péssima – motivos legítimos para cancelar tudo e fingir desculpas educadas – recusamos determinados programas porque “temos algumas crenças irracionais associadas que têm a ver com as nossas próprias experiências de vida: eu nunca consegui cumprir um prazo, não é desta vez que vou conseguir; não sou socialmente competente, neste jantar não me vou divertir. Acabamos ou por ir adiando ou por cair naquilo que é mais fácil: não sair das nossas zonas de conforto, cancelar. Tudo isto implica algum medo.” Estes mitos pessoais regem a nossa capacidade de concretizar alguma coisa e exigem treino e a coragem de os enfrentar, diz Inês Afonso Marques.

Citando de novo o comediante, “pensando no alívio instantâneo, cancelar planos é como heroína”. A alegria instantânea é inegável, mas tão rápidos são os remorsos: “Podia estar a divertir-me”; “é horrível: disse que ia e não fui, o que é que vão pensar?”. O conselho de Inês Afonso Marques é que não se pressione o botão de pânico e enfrente a situação com disponibilidade para se divertir. “Cancelar tudo é a tentação, mas não é saudável. As pessoas precisam de saber lidar com algum desconforto, com alguns imprevistos.”

No quadro em que vivemos, por outro lado, se cancelar planos é uma tentativa de abrandar o ritmo, é um engano. “Cancelam-se compromissos mas logo surgem outros inadiáveis”, defende Machado Pais que no seu livro Lufa-Lufa Quotidina: ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana afirma que “o paradigma da lentidão deu lugar ao do encontrão” — “Como dizia o poeta brasileiro Manoel de Barros, prezamos menos a velocidade das tartarugas do que a dos mísseis.”

Malditos domingos

As investigadoras norte-americanas realizaram cerca de 25 testes, num deles deram cupões para café e bolos gratuito a alunos que estavam a estudar para exames finais. Para um grupo de alunos, os cupões tinham discriminada a hora exata a que deviam aparecer; aos outros dava-se um intervalo de tempo maior. Os primeiros responderam que esse intervalo não foi especialmente prazeroso. “Por vezes, são coisas em que queremos muito participar e por isso agendamos para garantir que não faltamos, mas isso pode ter um preço”, diz Tonietto.

É paradoxal que um momento de relaxamento se torne num momento de agitação e ansiedade. Machado Pais aponta de novo para os recentes inquéritos aos usos do tempo:

“Em muitas famílias, os fins de semana estão sobreocupados em relação aos chamados dias úteis da semana. É nos fins-de-semana que mais tempo se despende em tarefas domésticas, compras de supermercado, confeção da comida para a semana, assistência às crianças. Especialmente para muitas mulheres o fim de semana é um pesadelo.”

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Quando não é o trabalho é a casa, e uma mulher dá por si sem mãos a medir. (Ilustração: Istock/Getty Images)

O tempo parece aproximar-se de uma divisão cada vez mais cega: os dias de semana para trabalhar, os fins-de-semana para a casa e não completamente para o descanso. Para além desta agitação de que fala Machado Pais, regista-se ainda outra fenómeno paradoxal relacionado com o domingo.

Sandor Ferenczi, aluno de Freud, descreveu no início do século XX aquilo que se pode chamar a neurose de domingo. O dia tradicionalmente de descanso é também o dia de interrupção da rotina de um tempo global. O corpo que já se habituava a outro estado – o do repouso, da diversão – vê-se confrontado com a necessidade de uma mudança abrupta. “A pessoa começa a antecipar esta agitação, é a antecipação da quebra abrupta. É quase uma negação, mesmo em situações em que a pessoa está satisfeita com a rotina, mesmo para crianças que gostam de andar na escola”, diz Inês Afonso Marques. “Tudo é psicofisiológico: dores de barriga, dores de cabeça, agitação psicomotora — não conseguem parar quietos –, uma linha de pensamentos mais depressivos.”

Mais uma vez, a forma de contornar esta neurose é fácil dita assim: “aproveite-se o momento”. Mas exige treino, sobretudo quando se está envolvido num movimento maior e exterior. “O correr da vida embrulha tudo”, lembra Machado Pais, citando Rosa Guimarães. No livro Lufa-Lufa Quotidiana, o sociólogo pinta o quadro em que esta ansiedade da corrida mas também da espera nasce: “Nas filas de trânsito, por exemplo, o desespero da espera significa a valorização do tempo futuro em detrimento do tempo que passa. Ocorre então o sacrifício do presente, cuja outra face pode ser a alienação de si mesmo. (…) Quotidianamente tendemos a culpar a nossa incapacidade de gerir o tempo, de fazer bons usos do tempo, numa relação de exterioridade e distanciamento em relação à vida que passa. O desespero da espera é visto como o drama de não alcançar o que se espera. O drama despercebido é o da perda do que se esvai na espera.”

Inês Afonso Marques ataca isto com uma palavra que até está na moda, “mindfulness”, mas Machado Pais lembra que “andamos aprisionados e as nossas algemas são os relógios”.

Pelos vistos, as nossas agendas também.