Horas depois de o Governo ter fechado com os parceiros sociais o acordo de concertação social para o aumento do salário mínimo, António Costa reuniu, num jantar de Natal, os deputados socialistas e deixou a sua primeira reação ao que foi alcançado: “Fechamos este ano com chave de ouro, com o acordo de concertação social que José António Vieira da Silva hoje [esta quinta-feira] conseguiu”.

O resultado do acordo já tinha sido comentado, ao mesmo microfone, pelo líder parlamentar socialista — que lhe chamou um “sucesso” — e resultou na primeira salva de palmas da noite. Mas as referências ao assunto do dia ficaram por aqui, com Vieira da Silva já na sala onde decorria o jantar do PS, no “refeitório dos frades” da Assembleia da República, acabado de sair da reunião com os parceiros sociais. António Costa anunciou logo que faria “um discurso sem notícia” e ficou-se por um tom descontraído, sobretudo ao lembrar as caras “menos sorridentes” no jantar de há um ano.

“Há um ano havia maior ansiedade e muitas dúvidas como as coisas iam correr”.

O líder socialista referia-se ao efeito provocado pelos acordos que o PS assinara então com os partidos à sua esquerda, para pouco mais adiante concluir: “Não temos nenhuma razão de queixa dos nossos parceiros parlamentares”. Pelo meio lembrou que o PS “já aprovou dois orçamentos este ano e nenhum foi retificativo. E que o de 2016 foi cumprido com a melhor execução orçamental dos últimos 42 anos”. “É por isso”, atirou o socialista, “que a posição tem muita dificuldade em falar do presente, do futuro. Resta ou cantar a cantiga do “tempo volta para trás” ou estar à espera do retrovisor, para poder encontra-se com o tempo que passou”. Um tempo que Costa garante ser bem diferente do atual onde acredita que “as pessoas adormecem e acordam com tranquilidade”.

Mas o elogio maior, como é da praxe do momento, António Costa deixou-o para o grupo parlamentar do PS e recordou mesmo os tempos em que foi líder parlamentar:

“Sei bem como é difícil, sobretudo difícil ser deputado do grupo parlamentar de apoio ao Governo. É muito mais fácil quando se é oposição”.

O líder do PS também dedicou alguns elogios individuais, os mais relevantes a Carlos César, com quem lembrou que voltou a trabalhar “dia a dia, 40 anos depois” e a quem reconhece “inteligência, generosidade, teimosia, o fino bom feitio”. Mas também a Pedro Nuno Santos, “por ter revelado uma capacidade de não só gerir o dia a dia, como de resolver os problemas seculares. Há mais de 500 anos Portugal ansiava por um Sebastião e fazê-lo regressar a 1 de dezembro é de uma ciência extraordinária”. O secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares foi pai de um rapaz (chamado Sebastião) a 1 de dezembro, daí a referência de Costa.

O gestor diário da “geringonça”, Pedro Nuno Santos, foi também referido pelo líder parlamentar socialista, bem como a secretária de Estado Adjunta do primeiro.ministro, Mariana Vieira da Silva, pelo “trabalho extraordinário que têm conduzido”.

Mas Carlos César também disse que o verdadeiro trabalho de “paciência” foi do grupo parlamentar com o Governo e que este também teve “paciência com o grupo parlamentar” e que os dois também tiveram a “paciência” do Presidente da Assemebleia da República, Ferro Rodrigues que, por seu lado, descreveu o ano de 2016 como “um ano de paciência”.

Menos paciência parecem ter os socialistas com a Europa, com Ferro Rodrigues a alertar para uma “Europa que está num caminho que parece que está num beco, mas que pode ser mudada”. César também já tinha referido, na sua intervenção: “Todos nós esperamos que a evolução da União Europeia torne também credível, perante portugueses e todos os povos da Europa”. Aqui a paciência (ainda) menor pode mesmo ser a dos parceiros do PS no Parlamento, que insistem com o confronto às regras determinadas por Bruxelas a que o PS não dá qualquer sinal de vir a deixar de obedecer.