Carrie Fisher não teve uma carreira de actriz por aí além. Mas quem é que precisa de uma grande carreira, quando se entrou em três dos mais lendários, queridos e lucrativos filmes da história do cinema, “Guerra das Estrelas”, “O Império Contra-Ataca” e “O Regresso de Jedi”, vivendo uma personagem que passou a confundir-se com a sua intérprete na imaginação popular colectiva? Mesmo assim, é pena que Carrie Fisher não tenha tido mais bons papéis de comédia, porque possuía uma pronunciada queda para o género, como se pode ver em “O Dueto da Corda”, de John Landis (onde Dan Aykroyd lhe salvou a vida fazendo-lhe a manobra de Heimlich), “Garbo e Eu”, de Sidney Lumet, “Ana e as suas Irmãs”, de Woody Allen, “S.O.S.-Vizinhos ao Ataque”, de Joe Dante, ou “Um Amor Inevitável”, de Rob Reiner.

Carrie Fisher tinha mesmo muito sentido de humor, e a sua imagem de princesa Leia fazia sombra, sobretudo fora dos EUA, a uma argumentista e autora exímia na comédia de auto-depreciação. A sua infância no meio das celebridades de Hollywood e a sua relação com a mãe (era filha de Debbie Reynolds e Eddie Fisher), as falsidades e absurdos da indústria cinematográfica, os seus problemas e batalhas com a bebida, as drogas, os fármacos, o peso e a desordem bipolar (baptizou os seus humores conflituosos Roy e Pam), a sua vida sentimental e a própria personagem de Leia (“Ela está idosa. E encontra-se numa casa de repouso intergaláctica”, disse quando confirmou que ia entrar em “Star Wars — O Despertar da Força”) eram a matéria dos seus livros semi-autobiográficos. É o caso de “Postcards from the Edge”, filmado por Mike Nichols (“Recordações de Hollywood”, 1990), com Meryl Streep a fazer de Fisher, de “Shockaholic”, ou do “one woman show” que intitulou Wishful Drinking, e de onde saiu também um livro.

Como argumentista, Carrie Fisher ajudou a reescrever ou “polir” um sem-número de argumentos, caso dos da série de televisão “Indiana Jones-Crónicas da Juventude”, e de filmes como “Hook”, “Arma Mortífera 3”, “Kate e Leopold”, “Do Cabaré para o Convento” e até os três títulos da segunda trilogia de “Guerra das Estrelas” . Também escreveu, em 2001, com Elaine Pope, o telefilme “These Old Broads”, que juntou a sua mãe Debbie Reynolds, Elizabeth Taylor, Joan Collins e Shirley MacLaine. A saga “Guerra das Estrelas”, o fenómeno cultural em que se transformou e as obsessões dos fãs eram igualmente alvos regulares da veia cómico-sarcástica de Fisher, que se confessava perplexa com o todo o “hype” em seu redor. Recentemente, havia publicado outro livro, The Princess Diarist, sobre o romance secreto que teve com Harrison Ford durante a rodagem de “Guerra das Estrelas”. Tinha então 19 anos e Ford 33, e era casado.

Tal como a sua princesa Leia tinha pêlo na venta e não fugia perante o perigo, Carrie Fisher foi uma mulher muito corajosa que sempre enfrentou e combateu o lado negro e auto-destrutivo da sua personalidade, riu-se dele e usou-o como matéria da sua arte de humorista. Quando um dia lhe perguntaram se Leia não tinha de algum modo acabado por ser prejudicial à sua carreira, e representado assim o lado negro da Força para ela, Fisher respondeu: “Não, nada disso. Foi muito divertido! Eu era nova. Parece que as pessoas querem que isso tenha constituído um problema para mim. São filmes formidáveis. Porque é que não deveria estar orgulhosa de os ter feito? O lado negro?Alguma vez viram um filme em que eu entrei, ‘Esquadrão Anti-Vício’? Ou outro, chamado ‘Under the Rainbow’? Garanto que há muitos concorrentes para esse tal lado negro!”.

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