O ponto do antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, num discurso que fará ainda durante esta sexta-feira, assenta na ideia de que o voto no referendo à saída do Reino Unido da União Europeia foi feito “sem conhecimento dos reais termos” dessa decisão. Aquilo que Blair se propõe é “reunir apoio para encontrar uma saída para a atual pressa perante o precipício”. Uma expressão que está a ser interpretada em alguns setores como um manifesto pela reversão do processo de rescisão em curso do Reino Unido com a União Europeia.

Theresa May, atual primeira-ministra, já disse que vai acionar o artigo 50 — que faz disparar o processo de saída — até ao final de março. No limite, faltará um mês para que isso aconteça e, depois, Reino Unido e instituições europeias começam a redesenhar a relação de Londres com Bruxelas, dando cumprimento ao resultado do referendo. Só que, agora, Blair sugere que tudo pode ser, afinal, diferente.

Numa intervenção que preparou para apresentar perante o grupo pro-europeu Grã-Bretanha Aberta defende que os defensores da saída “sempre desejaram uma saída dura” do país da União Europeia. O próprio termo “Brexit duro” precisa de ser “emendado”, sugere o antigo primeiro-ministro, porque “a política, agora, é ‘Brexit a todo o custo'”. O “desafio” é, por isso, “expor, com convicção, o verdadeiro custo” dessa decisão, diz Blair, citado pela BBC.

O também ex-líder do Partido Trabalhista esclarece a sua posição: aceita o resultado do referendo de junho do ano passado, mas pretende que se volte ao Brexit com um olhar renovado (e mais informado), com a “clara noção de para onde nos dirigimos”.

“Passámos em pouco meses de um debate sobre o tipo de saída, em que eram analisadas as diferentes possibilidades, para a primazia de uma ideia — o controlo da imigração da União Europeia — sem que haja uma discussão real sobre o porquê de o Brexit não afetar a imigração com que as pessoas mais estão preocupadas”, dirá na intervenção desta sexta-feira.

A intervenção de Blair será muito dirigida ao grupo de britânicos que estiveram do lado do “ficar” no referendo. É a eles que o antigo primeiro-ministro dedica um “explícito apelo à mobilização” para que se “levantem e defendam aquilo em que acreditam” — expressão usada pelo corresponde de Política da BBC.