Bruno de Carvalho venceu de forma natural as eleições do Sporting. Os sócios do clube quiseram dar um voto de confiança a tudo o que foi feito por um candidato nos últimos quatro anos e não atenderam a tudo o que outro candidato preferia fazer nos próximos quatro anos. E os números foram sintomáticos dessa mesma escolha.

Assim, começa agora a versão do programa Sporting BdC 2.0. Em comparação com o que se passava em 2013, a realidade é distinta. Os problemas são outros, as respostas também. Por isso, o líder dos leões tem cinco desafios e duas condicionantes pela frente para obter tanto ou mais sucesso no próximo sufrágio eleitoral, em 2021.

A recompra das VMOC e o controlo do aumento de custos

Quando entrou no Sporting, as primeiras duas semanas foram terríveis para Bruno de Carvalho e os dirigentes mais chegados ficaram a dever muitas horas de sono à cama – se António Oliveira dizia que “por cada leão que cair, outro se levantará”, ali era a lei de “por cada gaveta que se abrir, outra conta saltará”. Ainda assim, e perante uma realidade complicada, a reestruturação financeira passou da teoria à prática. Viu a luz do dia, seguiu o seu caminho. Mas nem por isso está em piloto automático: além da preocupação com as provisões para garantir a recompra das VMOC necessários que garantam a maioria do capital social da SAD, o aumento a nível de massa salarial (que colocou os leões acima do Benfica) terá de ter correspondência a nível de receitas para não deixar os verde e brancos dependentes da realização de mais-valias com atletas.

A entrada de novos investidores e a redução do passivo

O próximo quadriénio será também um período onde Bruno de Carvalho irá focar atenções na concretização dos aumentos de capitais próprios da SAD definidos na reestruturação, com entrada de novos investidores e redução do passivo global. Essa será a chave para abrir muitas portas ou janelas de oportunidade relacionadas com as fontes de receita alternativas – naming do estádio, da academia e/ou do pavilhão.

Acabar com a falta de militância

Bruno de Carvalho nunca escondeu uma crítica que ainda hoje faz a algumas franjas dos sportinguistas: a falta de militância. “Os outros têm um exército que se mexe e influencia e nós não. Estou a falar dos que podem ter uma intervenção pública, como presidentes de câmaras, aqueles que estão em procuradorias ou na Assembleia da República. Não digo que sejamos beneficiados, não é isso, mas que tenham militância e não exista medo de assumi-la”, explicou em entrevista. O Sporting até pode estar em órgãos como a Federação ou a Liga, até pode reunir-se com a UEFA, a FIFA ou a Comissão Europeia, mas necessita, na ótica de Bruno de Carvalho, de combater com as mesmas armas dos outros. E mudar essa mentalidade não será fácil.

A rentabilização da nova Cidade Sporting

Podemos escalpelizar muitas coisas que foram bem feitas e menos conseguidas no clube mas, para quem vota (ou seja, mais os sócios e não tanto os adeptos), só a mera construção do pavilhão era um bilhete de entrada para o segundo mandato. Em breve será uma realidade que, em inversão ao que foi costume durante 20 anos, acrescenta património ao Sporting e não o inverso. No entanto, mais do que infraestrutura tão badalada, os outros equipamentos envolventes (campos de futebol de 5 e 7), Museu, Loja Verde e megastore) irão reabilitar o ideal das décadas de 80 e 90, quando os leões tinham centenas e centenas de pessoas ao fim-de-semana entre relvados e pavilhões. É uma oportunidade de ouro para outro grande salto a nível de associados.

A expansão da marca Sporting

Bruno de Carvalho tem feito um grande esforço para projetar o nome do clube em termos internacionais, seja por uma questão de prestígio ou numa forma “lucrativa” via implantação de Escolas Academia Sporting pelo mundo. Ainda assim, aquilo que tem atraído ainda é uma gota face ao oceano que pretende atingir. E aí já não basta acenar com o bom exemplo da formação e dos Bolas de Ouro Luís Figo e Cristiano Ronaldo, é necessário vencer no futebol e conseguir boas prestações internacionais. O presidente dos leões tem o sonho de um dia poder ganhar uma prova europeia no futebol (apontando para a Liga Europa) mas é na Champions que todas as atenções se centram e, aí, o Sporting só por uma vez conseguiu passar a fase de grupos…

Voltar a ser campeão nacional

A forma como apostou em Jorge Jesus mesmo numa altura em que se sentia alguma contestação dos adeptos face aos resultados menos conseguidos estreitou a ligação entre treinador e presidente. E se um só admite sair do Sporting quando for campeão, o outro considera que só em dupla poderá ser quebrado esse jejum. O Sporting está necessitado de vencer um campeonato para poder projetar um outro futuro mas, em parelelo, encontra-se inserido numa competição contra uma estrutura que diz controlar o futebol (Benfica) e outra que renasce agora das cinzas (FC Porto). E é o próprio líder verde e branco que admite haver uma maior pressão por essa meta, sem a qual uma nova reeleição não será uma mera formalidade como foi agora.

Ganhar a “guerra” contra o Benfica

Nunca ninguém vai admitir desta forma mas basta olhar para as conquistas no futebol para se perceber o que se passou nos últimos quatro anos: o Sporting ganhou a guerra com o FC Porto, que passou a ser uma equipa incapaz de ganhar (pelo menos até agora), mas perdeu a guerra com o Benfica, que passou a ganhar como há muito não se via. Seja através da comunicação, dos comentadores televisivos ou dos bastidores, os leões nunca conseguiram acertar na estratégia para enfrentar um eterno rival que se foi agigantando com ajudas indiretas verde e brancas. Existem dois caminhos: ou a versão Sporting BdC 2.0 tenta fazer um caminho sozinho a competir contra Benfica e FC Porto apenas nos relvados, ou terá de encontrar novas formas para enfrentar essas batalhas sem bola. E isto pode parecer valer pouco, muito pouco, mas diz a história dos leões que pode ser a chave para tudo o resto.