Miguel Castro Neto, professor da Universidade Nova e ex-secretário de Estado, foi nomeado personalidade Smartcities 2017 pela Green Business Week, uma feira que se realiza no Centro de Congressos de Lisboa até dia 17. A distinção premeia o trabalho de Miguel Castro Neto na área das cidades inteligentes, onde se passa de uma lógica de gestão urbana reativa para uma lógica proativa — com muita tecnologia à mistura.

“Estamos a falar de uma nova realidade, uma realidade onde redes de sensores interligados configuram um verdadeiro sistema nervoso capaz de sentir a cidade. Rede onde um cidadão, com acesso a um smartphone, passa a ser um sensor vivo da cidade, capaz de não só receber, como também fornecer dados”, afirma Miguel Castro Neto, premiado pelo seu trabalho na área das Smart Cities, em que, inclusivamente, coordena uma pós-graduação na Information Management School (IMS) da Universidade Nova.

Três dias a falar sobre Economia Sustentável

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A Green Business Week quer estimular a transferência de conhecimento incentivando o negócio. É uma mostra tecnológica nas áreas do ambiente e sustentabilidade, que decorre entre os próximos dias 15 e 17 de Março, no Centro de Congressos de Lisboa (CCL), sob a organização da FIL, a Fundação AIP, e com o apoio do Ministério do Ambiente e do Ministério da Economia e o alto patrocínio do Presidente da República.
A GBW conta com Marrocos como país convidado, mais de 10 municípios, e cerca de 10 países presentes na exposição ou conferências. O evento combina três grandes pilares – Smart Cities (Smart Grids, Mobilidade e Transporte); Água (Água, Resíduos e Ambiente); Energia – Eficiência Energética e Serviços – pretendendo incentivar o empreendedorismo, dinamizando projetos académico-científicos junto de empresas potencialmente interessadas em desenvolver a chamada Economia Sustentável.

Em conversa telefónica com o Observador, horas antes de receber o prémio, Castro Neto salientou que “ter​ ​​assumido funções​​ ​como secretário de Estado e hoje​ ​​receber este prémio é um reconhecimento do trabalho feito e reflete​ o​ esforço significativo na criação de conhecimento, sobretudo com a iniciativa NOVA Cidade”.

Ao mesmo tempo, já foram estabelecidos protocolos com as autarquias e com a Associação Nacional de Municípios, para “a partilha de conhecimento, numa área que vemos como fundamental que é transformação digital na estratégia de desenvolvimento sustentável das cidades”, explica o responsável.

É determinante a aposta em medidas efetivas na disponibilização de dados abertos implementando uma lógica de gestão urbana proativa, para atingir um novo nível de desenvolvimento – a cidade 4.0.”

O que está em causa? A “crescente dispersão de dados, criada pela revolução digital, cria a necessidade das autarquias se transformarem digitalmente e usarem estas tecnologias para mudar as cidades e o serviço prestado às comunidades”. Além disso, o investigador trabalha para se perceber “como é que esta transformação digital pode ser uma oportunidade para criar novos produtos e serviços e apoiar o empreendedorismo e o desenvolvimento económico.”

Há vários exemplos práticos, por esse mundo fora. Miguel de Castro Neto dá um exemplo de como os “dados podem criar uma oportunidade única para novos serviços”. Em Londres, por exemplo, nasceu uma startup — a Walkonomics — que determina o melhor percurso entre dois pontos não com base no custo ou no tempo, mas de acordo com o caminho com mais árvores e mais espaços verdes.

O que nos leva para uma das preocupações de Miguel de Castro Neto. “Para isto acontecer foi necessário a cidade libertar os dados sobre onde estão os espaços verdes”. “Este é um ponto crítico para que se crie este ecossistema: é preciso que entidades públicas e privadas libertem os dados, o que hoje ainda é um desafio muito grande. Tirando algumas experiências meritórias — por exemplo, Lisboa tem um portal de dados muito rico — há muito poucos dados disponíveis. “Mas para isso acontecer tem de haver a transformação digital das organizações”, aponta o investigador.

Um exemplo mencionado por Miguel de Castro Neto é a aposta das cidades em soluções mais eficientes para a iluminação pública, com a substituição das lâmpadas por LED. “Seria ainda mais inteligente se se calculasse o tráfego de pessoas com outros dados em bruto” para coordenar a altura em que as luzes devem estar ligadas ou desligadas. Outro exemplo: se todos os estabelecimentos comerciais e restaurantes têm o horário de funcionamento definido com a autarquia, porque é que essa informação não é libertada para poder ser acedida mais facilmente, por todos os stakeholders? “São inúmeros os exemplos de como as novas tecnologias podem ser úteis e um estímulo ao empreendedorismo”, diz Miguel de Castro Neto.

Estamos a falar de libertar dados em bruto, sobre áreas como o trânsito, a agenda cultural etc. São dados que ainda não estão livres nem estão tratados de forma a poderem ser libertados, mas são dados simples, informação que não é sensível mas que poderia ser muito útil”.

E as próprias pessoas, desde residentes a turistas, podem partilhar alguns dados sobre si, nomeadamente a sua nacionalidade, através dos seus smartphones, o que pode ser interessante até para as atividades comerciais.

Quanto à feira que distingue o trabalho de Miguel de Castro Neto, a Green Business Week (15-17 de março no Centro de Congressos de Lisboa), o investigador diz que a feira “tenta fazer a ponte entre o mundo empresarial e a academia. Tem uma parte de exposição, conferências mas também uma zona para as startups, para se apresentarem a potenciais investidores. Vão ser três dias bastante ricos”, afirma o ex-secretário de Estado.

Miguel Castro Neto foi secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza nos governos de Pedro Passos Coelho, entre 2011 e 2015. É Presidente do Conselho Nacional de Engenharia Agronómica da Ordem dos Engenheiros, coordenador do Grupo Cidades e Ordenamento do Território da Plataforma para o Crescimento Sustentável e Presidente do Conselho de Curadores do Festival Terras Sem Sombra. É sócio-fundador da Agriciência, Consultores de Engenharia, Lda.