Não é bem, bem verdade.

Diz-se de Bas Dost que golos só os faz na área, que é tão raro vê-lo fora dela como ao cometa Halley. OK, esta tarde-noite em Alvalade só os fez aí, mas foi vê-lo, Dost, vezes e vezes sem conta a recuar (às vezes até ao meio-campo defensivo do Sporting) para pressionar, às vezes recuperar a bola, tabela-la, jogar e fazer jogar. Mas diz-se igualmente dele que de tão matulão e, portanto, lento, ou a bola lhe caí redondinha nos pés, na cabeça, ou não é capaz de mexer uma palha para a ela chegar. Falso, completamente falso: quer no primeiro quer no segundo golo que fez ao Nacional, Dost mexeu-se e bem — que o digam os defesa visitantes, que no segundo ficaram à espera de um molengão e saiu-lhes um lesto na rifa.

Mas falemos deles, os golos. Não são tirados a papel-químico, mas quase. Logo no início, 13′, canto de Bryan Ruz à direita, a canhota do costa-riquenho colocou em arco a bola na pequena área, meeeeesmo no centro da pequena área, Bas Dost correu a ela com Rui Correia a seu lado, Correia caiu, o holandês não, saltou sozinho e desviou de cabeça para dentro da baliza de Adriano. De tão colocado que foi o desvio de Dost, rente ao poste esquerdo, o brasileiro bem se esticou mas não teve chance de defesa.

O holandês igualava aqui Messi e Aubameyang na luta pela Bota de Ouro: vinte e três golos, quarenta e seis pontos. Mas queria mais, queria supera-los, ser o goleador dos goleadores na Europa. E conseguiu-o aos 26’… mas por pouco tempo. É que o golo foi prontamente invalidado pelo árbitro auxiliar de Jorge Ferreira.

Tudo começa em Matheus, que desmarca Alan Ruiz à esquerda, o argentino cruza para a área, a bola resvala em Víctor García, segue na direção do guarda-redes Adriano, que a tira a punhos da pequena área. Acabou? Não. À direita, a bola chega aos pés de Gelson, que prontamente a remata — mas uma vez mais a bola ressalta num jogador do Nacional, no caso Sequeira. Atrás do guarda-redes madeirense, apenas Dost e Rui Correia, com o holandês ligeiramente adiantado em relação ao central. A bola seguiu para Dost, que a encostou para dentro da baliza. E festejou. Quando se apercebeu que não contava, protestou, protestou muito. E viu o cartão amarelo. Não tinha razão.

“Anula lá este se fores capaz!” — terá pensado Dost aos 34′. Ainda se recorda do papel-químico, certo? Pois bem: uma vez mais através de um canto à direita, uma vez mais batido por Bryan Ruiz de pé esquerdo, uma vez mais golo de Bas Dost, que bisa. Mas se é verdade que há “ratice” do holandês, não é menos verdade que a defesa do Nacional tem muita culpa no cartório. A bola caiu entre William e Rui Correia, nem o sportinguista cabeceou nem o central do Nacional cortou, esta ficaria de volta de quatro (!) jogadores visitantes, que olhavam uns para os outros, impávidos e serenos, sem se livrarem da bola. Dost não foi de passividades, atacou a bola e rematou-a pelo buraco da agulha, entre Adriano e o poste direito.

Está feito: vinte e quatro golos no campeonato — e Messi e Aubameyang de mãos a abanar.

Da segunda parte não há muito o que contar. Mesmo a perder por 2-0 o Nacional recolheu-se à defesa (talvez com receio de voltar à Madeira com uma “sacada” de golos na bagagem), tanto ou tão pouco que chegou a ter nove — sim, leu bem: nove — jogadores atrás da bola, mantendo apenas o solitário Jhonder Cádiz lá na frente, a fazer figura de corpo presente.

Para tentar chegar ao terceiro golo o Sporting teria que ultrapassar este mundo e o outro. E Alan Ruiz quase o conseguia aos 53′. Vindo da esquerda, com bola colada à canhota como que por íman, driblou Sequeira, driblaria Rui Correia e Mezga depois — e aqui “driblar” é mesmo driblar, deixando-os tombados sobre o relvado e com uma valente dor de rins –, ficou de frente para a baliza do Nacional e, puxando da canhota atrás, aqui vai disto. O remate foi forte e colocado na direção do poste esquerdo, mas Adriano defenderia — a custo, mas defenderia.