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Os bancos começaram nesta quarta-feira a apelar ao espírito clubístico dos adeptos do Benfica para vender as Obrigações Benfica SAD 2017-2020 aos seus clientes. O mote — “Quando investimos é para ganhar” — sugere que a taxa de juro proposta de 4% é um bom negócio, mas não é: a sociedade anónima desportiva está descapitalizada, há risco de incumprimento e, depois de fazer as contas às despesas dos investidores, o retorno anual dos títulos fica próximo do melhor depósito a prazo para a mesma duração da aplicação.

Balanço melhora, mas não o suficiente

A evolução do balanço da Benfica SAD é positiva: o capital próprio tem subido semestre a semestre desde meados de 2015. Todavia, a sociedade ainda está descapitalizada, porque cerca de 95% dos ativos foram pagos por dívida, mostram os dados do final de 2016. Aliás, devido à acumulação sucessiva de prejuízos, os capitais próprios são inferiores a metade do capital social, o que, ao abrigo do Código das Sociedades Comerciais, obriga a reunir uma assembleia geral de sócios para decidir a dissolução, a redução do capital social ou o aumento de capital.

Apesar de a Benfica SAD não ter notação de risco de crédito, é possível calcular indicadores sintéticos — como o Z-Score de Altman — e a probabilidade de incumprimento a partir do balanço e das demonstrações de resultados. A emissão obrigacionista, que pode ser subscrita até ao próximo dia 20 de abril, receberia uma notação de “lixo”, ou seja, uma classificação de investimento altamente especulativo. A probabilidade de falência está entre as mais elevadas da bolsa portuguesa — mas menor do que a da Sporting SAD e da FC Porto SAD — e entre as mais altas dos clubes de futebol cotados de todo o mundo — numa lista em que se destacam, pela positiva, o alemão Borussia Dortmund e o escocês Celtic FC.

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Benfica nunca pagou tão pouco

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A Benfica SAD nunca propôs uma taxa de juro tão baixa numa emissão de obrigações. Em 2013, era de 7,25%.

Taxa anual nominal bruta
Benfica SAD 2004-2007: 5,00%
Benfica SAD 2007-2010: 6,15%
Benfica SAD 2010-2013: 6,00%
Benfica SAD 2013-2016: 7,25%
Benfica SAD 2015-2018: 4,75%
Benfica SAD 2016-2019: 4,25%
Benfica SAD 2017-2020: 4,00%

Fonte: Euronext.

Para a sociedade desportiva, 4% é uma boa taxa, porque, no último semestre de 2016, a taxa média dos empréstimos foi de 5,66%. Para os investidores, a taxa oferecida — distribuída em pagamentos semestrais — pode parecer generosa num panorama de rendimentos negativos ou próximos de zero. Todavia, há obrigações de entidades mais sólidas que pagam um rendimento muito próximo. É o caso, por exemplo, da emissão da Iglo Foods — a subsidiária da maior produtora de alimentos congelados da Europa que tem o Capitão Iglo e os Douradinhos como embaixadores em Portugal — que se vence em junho de 2020: rende perto de 4% por ano, mas é um investimento menos especulativo. A Moody’s atribui-lhe uma notação de B1 e a Standard & Poor’s de BB-.

Não está só a ajudar o clube

A maioria dos aforradores não precisa de investir em obrigações para conseguir um retorno equivalente ao dos títulos Benfica SAD 2017-2020. Se contabilizar as comissões e os encargos cobrados pelo banco — é obrigado a ter um intermediário para investir nos títulos —, é provável que o retorno líquido fique próximo da taxa de juro líquida do melhor depósito a prazo a três anos.

Se investir agora 7.312 euros (a média de subscrição na última operação do género desta SAD) nas Obrigações Benfica SAD 2017-2020 alcançará uma rentabilidade anual líquida de 1,85%, aplicando os preçários dos três bancos com mais recursos de clientes portugueses. Não fica muito longe da taxa anual líquida do depósito BNI Europa 36 Meses, que é de 1,51%. O depósito é claramente muito menos arriscado do que as obrigações, em particular porque tem a proteção até 100 mil euros por depositante, assegurada pelo Fundo de Garantia de Depósitos.

Quanto menos dinheiro for aplicado nos novos títulos da Benfica SAD, menor a rentabilidade. Para aplicações inferiores a cinco mil euros, o depósito do BNI Europa é mais rentável.

Rentabilidade anual líquida de comissões, taxas, despesas e impostos
Estas rentabilidades assumem que a Benfica SAD cumpre todos os pagamentos de juros e reembolsa a totalidade do capital investido nas Obrigações Benfica SAD 2017-2020.
Montante investido Caixa Geral de Depósitos Millennium bcp Banco BPI
100€ -0,80% -47,95% -40,58%
500€ -7,71% -9,04% -6,68%
1.000€ -2,54% -3,33% -2,07%
2.000€ 0,03% -0,38% 0,28%
5.000€ 1,55% 1,34% 1,69%
10.000€ 2,05% 1,90% 2,17%
20.000€ 2,30% 2,17% 2,41%
50.000€ 2,45% 2,35% 2,55%
100.000€ 2,50% 2,41% 2,60%
Cálculos aproximados usam preçários dos bancos a 5 de abril de 2017. Assumem subscrição ao balcão por um investidor de Portugal continental, que as Obrigações Benfica SAD 2017-2020 são os únicos títulos em carteira durante 3 anos e uma taxa de IRS sobre os juros de 28%.

Os investimentos inferiores a dois mil euros representam prejuízos efetivos para os aforradores, segundo os preçários dos três bancos. Ou seja, os bancos ficam com os juros pagos pela Benfica SAD para o pagamento dos encargos e ainda exigem mais dinheiro.

No limite, a subscrição de 100 euros, o mínimo permitido nesta oferta pública de subscrição, pode representar um prejuízo anual de quase 50%. Por exemplo, através do Millennium bcp, ao investir 100 euros recebe 1,44 euros por semestre em juros, mas paga trimestralmente em guarda de títulos 12,76 euros, o que totaliza 153,12 euros em três anos. E ainda é preciso somar os encargos na subscrição, nos pagamentos de juros e no reembolso.

Os investidores não têm de guardar os títulos durante três anos: podem vendê-los na bolsa (e também comprá-los). No entanto, pode ser difícil fazer bons negócios. As duas últimas emissões de obrigações — Benfica SAD 2015-2018 e Benfica SAD 2016-2019 — têm poucas transações bolsistas e, por isso, são negociados apenas no sistema de leilão da Euronext Lisbon.

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.