Foi o primeiro no festival e tem sempre um lugar na frente em todo o lado, enquanto continuar com estas canções de guru espiritual que não julga mas encaminha. Sabemos que tomava conta de tudo sozinho, esta espécie de Elvis vindo de Tondela, mas tem o nome gravado no bombo da bateria — e esse só pode ser um bom sinal.

Quem sabe dançar assim com uma guitarra nos braços merece todo o nosso carinho e atenção, mesmo que a voz tenha dúvidas aqui e ali – era cedo, desculpem o homem, todos merecemos ser desculpados de quando em vez. Mesmo que as guitarras se percam ou o som se porte mal. Acontece. Só não acontece a quem não é rockstar. Úria é.

Mesmo com tudo isto, ele há coisas impossíveis de ultrapassar. Bom gosto, muito bom gosto. Fazer canções com aqueles acordes menores certeiros, para cada um dos angustiados entre o público. Voltar sempre ao “Lenço Enxuto”, aquele tema que diz que toda a merda do mundo pode vir, se formos os dois juntos contra esse mundo de merda ele perde. Do mesmo tipo que escreveu o verso “repressão canta-se à toa, qualquer causa é boa num refrão”. É tudo simples, pois é, mas porque é que não nos lembrámos de tudo isto primeiro?

Não foi dos melhores, estávamos todos frios, do lado de lá e do lado de cá. E depois de uma noite para gente grande e momentos com glória como a que levou há poucas semanas ao Tivoli, em Lisboa, as expectativas, essas sacanas, ficam sempre difíceis de satisfazer. Mas Samuel, o mestre do boogie woogie para pastores, o aristocrata dos arrabaldes punk, vai ser sempre um bom anfitrião. Ainda que lhe ficasse bem um palco já sem sol.