O Prémio Nobel da Paz Liu Xiaobo morreu esta quinta-feira, aos 61 anos, na China, vítima de um cancro do fígado em fase terminal, anunciou o departamento de justiça de Shenyang, a cidade onde recebia tratamento médico.

Liu Xiaobo só começou a receber tratamento médico poucos dias depois de o governo ter revelado que o ativista sofria de um cancro. Oficialmente, Xiaobo recebeu uma licença médica para poder sair da cadeia. Mas mesmo nos seus poucos meses em liberdade condicional não teve permissão para falar com ninguém que não a mulher, Liu Xia.

Liu Xiaobo nasceu na província chinesa de Jilin, a 28 de dezembro de 1955. Filho de um professor fiel ao Partido Comunista, tornou-se um opositor ao autoritarismo do governo e iniciou-se nos caminhos do ativismo democrático na década de 80, quando conheceu a sua (segunda) mulher, Liu Xia.

Xiaobo participou nos protestos pacíficos de 1989 na Praça da Paz Celestial, onde foi detido. O governo respondeu com punho cerrado a estes protestos: estima-se que mais de dois mil manifestantes tenham sido mortos pelas forças armadas nestes protestos.

Foi coautor de um manifesto político, assinado por mais de 300 intelectuais chineses, que exigia uma reforma pacífica do estado e da economia e o fim da lei do partido único. Por esse manifesto, e pela sua visibilidade internacional, Xiaobo foi detido numa madrugada, em 2008, e a sua sentença foi anunciada um ano mais tarde, em 2009: 11 anos de prisão por “incentivo à subversão”.

Por esta altura, já era o dissidente político mais conhecido na China e viria a receber o Prémio Nobel da Paz em 2010. Em jeito de resposta diplomática, a sua mulher recebeu uma pena de prisão domiciliária (sem acusação formal) e viu-se isolada do mundo: sem telefone ou internet. Ao longo destes últimos 7 anos, Liu Xia só saiu de casa para visitar os pais e o marido, com rara frequência.

Liu Xiaobo teve uma biografia escrita pelo chinês Yu Jie, que o descreveu como tendo sido um jovem “brilhante, intelectual e mulherengo”. Acrescenta o seu espírito inédito: “Ele era capaz de se criticar a ele próprio e de refletir nas suas ações de uma maneira que a maior parte dos ativistas no movimento democrático não conseguem”.

Já teria sido noticiado o seu estado de saúde, tido como “crítico”. Vários países, entre eles os Estados Unidos, manifestaram apoio a Xiaobo e pediram ao governo chinês que o autorizasse a receber tratamento médico no estrangeiro. Tal não chegou a acontecer, uma vez que o governo chinês se mostrou indiferente a influências externas sobre os seus “assuntos internos”.

Liu Xiaobo entrou em falência respiratória esta quarta-feira, depois de o hospital ter anunciado que o seu estado de saúde se teria agravado: sofria de uma infeção abdominal, peritonite, disfunção de órgãos e choque sético. Por decisão da família, não foi entubado de forma a receber assistência artificial, acabando por morrer esta quinta-feira aos 61 anos de idade.