A empresa tecnológica chinesa Huawei emitiu esta terça-feira um comunicado a negar ter pago as viagens à China que foram inicialmente avançadas pelo Observador e este fim de semana noticiadas pelo Expresso, mas admite ter providenciado a “necessária hospitalidade” aos visitantes — sem explicar se isso significava o pagamento das estadias e outros custos associados aos visitantes como a refeições ou voos internos. O Observador tem documentos e depoimentos que indicam o contrário do que a empresa chinesa afirma.

“A Huawei não pagou qualquer viagem à China”, escreve a empresa no comunicado. “A Huawei recebe entidades públicas e privadas oriundas de todo o mundo com quem partilha os mais recentes desenvolvimentos na indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação, como são o caso de 5G, das Smart Cities, da Safe City, da Internet das Coisas e da Indústria 4.0”, assume a tecnológica sem explicar, no entanto, como funciona a relação entre os visitantes e as entidades que convidam e pagam as viagens, como terá sido o caso da NOS.

Estas visitas, exclusivamente de trabalho, assim como a necessária hospitalidade, têm como único objetivo a partilha de conhecimento, o que constitui uma prática empresarial comum, também em Portugal e na Europa”, escreve ainda a Huawei.

A empresa não explica, no entanto, em que se traduz “a necessária hospitalidade”. E volta a dizer que “está disponível para prestar, em sede própria, todos os esclarecimentos necessários”. Ou seja, no inquérito judicial que está a decorrer no Departamento de Investigação e Ação Penal.

Três fontes indicaram que a Huawei tinha pago os voos e estadias

A versão da Huawei, porém, não coincide totalmente com a de fontes do Observador que afirmaram ter sido a empresa chinesa (e não qualquer parceiro) a fazer convites, a pagar viagens ou estadias aos políticos e altos quadros do Estado que visitaram as suas instalações. Um documento assinado por Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social do anterior Governo, em janeiro de 2014, a autorizar a viagem de um alto quadro do Estado para a China — a que o Observador teve acesso — indicava que a viagem era organizada pela própria empresa chinesa. Não havia qualquer referência a terceiros no documento a que o Observador teve acesso: “A Huawei Enterprise, com sede em Shenzhen, China, vai realizar uma deslocação à sua fábrica e sede por forma a dar a conhecer a forte aposta em Investigação & Desenvolvimento”, informava o presidente do conselho diretivo do Instituto de Informática da Segurança Social, que pedia ao ministro que autorizasse a deslocação do vogal da administração, João Mota Lopes, paga pela empresa.

Pelo menos o documento enviado ao ministro garantia que as “despesas com as deslocações e estadias” eram ”suportadas” pela entidade promotora. E explicava: “Este evento tem por objetivo a realização de um Summit com elementos da Administração Pública Portuguesa, por forma a dar a conhecer, em detalhe, a oferta da Huawei em termos de soluções e produtos”.

Outros participantes nas viagens à China admitiram ao Observador, em respostas escritas, que tinha sido o próprio gigante chinês a pagar todas as despesas. Rodrigo Gonçalves, dirigente do PSD, que viajou para a China em janeiro de 2017, escreveu nas respostas ao Observador: “Fui a convite da Huawei”. E acrescentou que a empresa “pagou os voos e a estadia”.

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Luís Newton, presidente da Junta de Freguesia da Estrela, que viajou para a China em fevereiro de 2015, escreveu o seguinte na resposta ao Observador, antes de a notícia ser publicada: “Na sequência dos projetos digitais que a junta estava a desenvolver, fui contactado pela Huawei, que me convidou a fazer uma apresentação na China a técnicos da empresa. Foi a Huawei que suportou os encargos da minha estadia.” Não diz que a empresa chinesa pagou os voos, mas pelo menos explicita que foram os chineses a pagar a referida “hospitalidade”. A viagem e a estadia do deputado Sérgio Azevedo também terá sido suportada pela Huawei, segundo as explicações que tinha dado ao Observador.

Algumas fontes que o Observador voltou a contactar, mas que não quiseram ser citadas, admitem que possa não ter sido a Huawei a pagar a deslocação, mas não foram informados disso. A ideia com que tinham ficado era que a empresa chinesa tinha pago tudo.

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Nos casos da viagem organizada pela NOS à China de 2 a 6 de junho de 2015, e que envolveu cinco altos quadros do Ministério da Saúde, o convite tinha o logótipo das duas empresas e a frase: “A NOS e a Huawei convidam”, noticiou o Expresso Diário na tarde desta terça-feira. Os convidados ficariam instalados no Intercontinental, um hotel de cinco estrelas, escreve ainda o Expresso, cujos quartos custam cerca de 170 euros por noite. Houve lugar também a voos internos durante o programa dessa visita, não sendo claro quem pagou essas despesas.