De acordo com o historiador grego Heródoto, a civilização lídia (atual Turquia) foi a primeira a utilizar moedas como método de pagamento e a primeira a construir estabelecimentos comerciais fixos, há cerca de 2700 anos. Em 2017, chega a Portugal a Lydia, uma aplicação que permite fazer pagamentos digitais a amigos, familiares e em estabelecimentos comerciais (não, não precisa de dinheiro), que foi desenvolvida pela startup francesa Lydia Solutions.

Lançada em 2013 por Cyril Chiche e Antoine Porte, a Lydia soma 11 milhões de euros em investimento. Na primeira ronda de investimento em capital de risco, arrecadou 3,6 milhões (um recorde em França). A última ronda foi de 6,6 milhões de euros, em setembro de 2016, de acordo com a base de dados da Crunchbase. A ideia surgiu quando os fundadores olharam para apps de homebanking” acharam que era tudo tão complicado, tão visualmente feio, com tanta burocracia” que resolveram criar outra solução.

Apesar do investimento, o presidente executivo, Cyril Chiche, não revela dados de faturação e afirma que a empresa só tem dado “prejuízo calculado”, para já. Acrescenta ainda que a app “já ultrapassou um milhão de utilizadores” e espera duplicar esse número até ao fim do próximo ano. Além de Portugal, a Lydia está presente noutros quatro países: Reino Unido, França, Espanha e Irlanda.

“Vir para Portugal foi uma decisão estratégica. Cidades como Lisboa têm vindo a ser cada vez mais recetivas à chegada de novas startups e ideias inovadoras. Além disso, existe uma grande comunidade de jovens e estudantes universitários, o que corresponde exatamente ao que a Lydia está à procura”, diz ao Observador Alexandre José de Melo, responsável pelo desenvolvimento do negócio em Portugal.

Como funciona a Lydia?

Para começar a utilizar esta carteira digital, o utilizador deve descarregar a aplicação (já disponível na App Store e Play Store) e inserir alguns dados básicos: e-mail, uma palavra-passe e um número de telefone que confirme a identidade do utilizador. A partir deste momento é possível receber pagamentos. Como? Através de um saldo virtual: a app permite movimentar dinheiro sem precisar de fornecer ou pedir informações bancárias. Só tem de o fazer quando faz pagamentos ou transfere dinheiro da conta Lydia para a conta pessoal. Estes dados não são divulgados aos contactos do utilizador.

Se quiser efetuar um pagamento terá que inserir um cartão bancário na conta. Se quiser reverter o saldo da conta Lydia para o seu banco, basta inserir o IBAN. Pode ainda juntar os seus contactos e dividir uma conta de forma prática. Além disto, a Lydia permite enviar uma mensagem automática a quem lhe deve dinheiro, com o valor exato da dívida e uma forma simples de a pagar. É uma maneira menos pessoal (e frontal) de dizer: “Paga o que deves”.

Os dados dos utilizadores estão mais seguros que nunca e transferir dinheiro ou dividir contas não é uma dor de cabeça”, explica Cyril ao Observador.

Mas há alguns contrapontos. Embora não seja exigido um valor mínimo para efetuar pagamentos a outras pessoas, o utilizador só consegue reverter o dinheiro que tem no saldo Lydia para a sua conta pessoal se esse valor exceder 1 euro. E para as contas portuguesas, é preciso esperar até três dias úteis para que isso aconteça (pelo menos para já). Ainda assim, não há custos operacionais para o utilizador.

A Lydia tem ainda uma vertente comercial. A ideia é simplificar (e tornar mais seguros) os pagamentos online e em estabelecimentos comerciais, à semelhança da tecnologia utilizada pelo Apple Play (que apesar de muito interessante, não está disponível em todos os países). Imagine que faz uma encomenda online, ou apanha um táxi: para pagar basta ler um código QR com a câmara do smartphone.

À imagem da revolução cloud mobile, a Lydia foca-se em simplificar o quotidiano dos utilizadores e as trocas de dinheiro. Apresentamos soluções que dão resposta aos verdadeiros problemas das pessoas. É bom ver que a frase “eu faço um Lydia” já é uma expressão corrente”, pelo menos na faixa etária 18-30 em França, explicava Cyril em 2014.

A aplicação que chega agora a Portugal conta com dois portugueses na equipa – Alexandre José de Melo e Tomás Miranda – mas a ambição é ampliar a equipa e em breve vão ser feitas contratações, nomeadamente na área de promoção junto de institutos de Ensino Superior. As candidaturas podem ser enviadas para este e-mail.

O lançamento da app em Portugal ocorreu esta terça-feira, durante a inauguração da French Tech Lisbon, que junta a capital portuguesa a uma rede global de mais de 30 hubs e comunidades. A iniciativa French Tech foi criada pelo Governo Francês em 2013 para apresentar o ecossistema empreendedor francês como um player global, acelerando o crescimento internacional das startups francesas.