Tudo começou em janeiro do ano passado quando rapper B.o.B. publicou uma fotografia no Twitter com uma dúvida na descrição: “As cidades lá ao fundo estão aproximadamente a 16 milhas uma da outra. Onde está a curva? Expliquem isto”, escrevia ele. Convencido de que os cientistas estão a manipular fotografias e que a Terra não é redonda, o autor de “Airplanes” lançou uma angariação de fundos na página GoFundMe para financiar um satélite que voasse até ao espaço e provasse que o planeta é plano. Os astronautas não podiam acreditar.

Tanto não podiam acreditar que decidiram responder ao músico norte-americano. O primeiro foi o astronauta Terry Virts, que passou um total de 230 dias, 10 horas e 48 minutos a bordo da Estação Espacial Internacional — e a observar este gigantesco globo a que chamamos casa. Num tweet publicado em finais de setembro deste ano, Terry Virts escreveu: “Posso poupar muito dinheiro ao BoB — A Terra é redonda. Eu andei em redor dela”.

A seguir foi a vez de Buzz Aldrin, um dos astronautas da missão Apollo 11 que levou a Humanidade à Lua e que inspirou o nome do herói da Disney Buzz Lightyear. Também no Twitter, o piloto escreveu que também ELE andou em redor da Terra: “Chama-se uma órbita: o percurso curvo de um objeto celestial em redor de uma estrela, um planeta ou um satélite”.

Até o astronauta Scott Kelly, que passou um ano no espaço para estudar os efeitos nos raios cósmicos no corpo humano, publicou um vídeo nas redes sociais e sugeriu a BoB que desse o dinheiro que quer angariar a uma instituição de caridade.

Nada disto convenceu BoB, que acha que “se alguém nos desencoraja a fazer alguma coisa é porque tem algo a esconder”.

Por isso, o Observador decidiu dar-lhe outras soluções para que o rapper possa ver pelos próprios olhos que a Terra é redonda. E garantimos que todas são mais baratas do que lançar mais um satélite para a órbita de um planeta.

Veja um barco a navegar em direção ao horizonte

Sente-se na praia e observe um barco a partir do porto e a entrar em mar alto em direção ao horizonte. Se a Terra fosse plana, veríamos o barco a ficar cada vez mais pequeno à medida que se afastava da costa. Mas como a Terra é quase esférica (quase, porque é ligeiramente achatada nos polos), à medida que ele se afasta da praia vemos o casco a esconder-se primeiro e depois o mastro. Há quem diga que esse efeito é apenas o resultado de uma ilusão ótica criada pela nossa perspetiva de objetos à distância, mas isso não é verdade: basta fazer exatamente a mesma coisa e observar o barco através de binóculos ou telescópios. Vai sempre parecer que o barco está a mergulhar no horizonte.

Olhe para as estrelas

Agora, escolha uma noite de céu limpo e um lugar afastado das luzes da cidade para olhar para as estrelas. As constelações que conseguir observar a partir do lugar que escolheu vão depender da latitude em que está: no hemisfério norte, a constelação de Ursa Maior, por exemplo, só pode ser vista em latitudes mais altas do que 41º Norte e é completamente invisível abaixo dos 25º Sul; e no hemisfério sul, a constelação Cruzeiro do Sul é vista durante todo o ano mas apenas pode ser vista nos trópicos no hemisfério norte. O facto de vermos “céus diferentes” só é possível porque a Terra é um globo e só podemos ver determinadas partes do céu tanto no hemisfério norte como no sul.

Observe um eclipse

Terá de esperar por julho do ano que vem para poder ver um eclipse lunar parcial em Portugal, mas basta olhar para as fotografias que chegaram no último eclipse solar que atravessou os Estados Unidos este verão para tirar as suas próprias conclusões. Um eclipse lunar ocorre quando a Lua é ocultada pela sombra da Terra. Ora, como o nosso planeta é redondo, a sombra também é redonda e vai cobrindo assim a superfície lunar. Se ela fosse plana, a sombra da Terra não passaria de uma linha que atravessava a Lua. E, como sabemos, não é isso que observamos.

Trepe uma árvore

A vizinha Andrómeda é uma galáxia muito brilhante que está a 2,54 milhões de anos-luz da nossa Via Láctea. Está mesmo muito longe — para chegarmos até lá teríamos de viajar durante 2,54 milhões de anos à velocidade da luz –, mas ainda assim conseguimos vê-la quando olhamos para cima. E mesmo assim, apesar de olharmos para objetos tão longínquos, não somos capazes de ver as luzes de Nova Iorque, por exemplo, que estão a apenas 5,5 mil quilómetros de nós com apenas um oceano a separar-nos. Porquê? Porque entre Portugal e Nova Iorque, que fica na costa norte-americana mais próxima a nós, está a curvatura da Terra. Essa curvatura não nos permite ver a mais de 5 quilómetros em linha reta, a não ser que trepemos uma árvore e tenhamos uma perspetiva ainda mais alta que nos deixe ver um pouco mais além.

Faça uma viagem de avião

O ideal seria fazer uma viagem em redor do planeta, mas basta entrar num avião e viajar para um país mais distante a uma grande altitude para poder olhar pela janela e observar a curvatura da Terra. A mesma vista pode ser conseguida se marcar uma sessão de paraquedismo: olhando para o horizonte (uma boa alternativa para quem sofre de vertigens), a curvatura do planeta também se afigurará perante si. E a teoria da Terra plana cai por terra.

Compare sombras

É uma experiência que já foi levada a cabo pelo matemático grego Eratóstenes há muitos anos. Ele mediu o comprimento da sombra de uma vareta em Alexandria (Egito) ao meio-dia de 21 de junho, precisamente no dia e na hora em que sabia (depois de ler textos antigos) que uma vareta espetada na Terra em Assuão (Egito) não produziria sombra. Se o mundo fosse plano, então as sombras das varetas tinham de ser iguais porque a posição do Sol em relação ao solo seria sempre a mesma. Mas não eram, como ele verificou com os próprios olhos, o que significava que a Terra era curva.

Chega, B.o.B?