“Um pássaro preso nunca aprende a voar”, escreveu Daniel Podence nas suas redes sociais uns dias após a derrota do Sporting em Turim, acompanhado de uma fotografia sua a preto e branco sentado no banco de suplentes. Poucos minutos depois, a frase tinha sido apagada. Depois da boa exibição frente ao Oleiros, para a Taça de Portugal, o avançado voltou a ficar sem minutos diante da Juventus e associou-se essa mensagem enigmática à utilização mais reduzida na presente temporada. No jogo seguinte, o internacional Sub-21 foi titular frente ao Desp. Chaves, sendo substituído aos 67′ com o resultado em 4-0. “Estás a voar bem”, terá dito Jorge Jesus ao jogador. Podence sorriu.

Não foi a partir daí, final de outubro, que o pequeno grande talento do Sporting de 22 anos assumiu de vez o lugar na equipa, mas o treinador foi continuando a trabalhar Podence para ser parceiro de Bas Dost no ataque em jogos com determinadas características, nomeadamente na Primeira Liga. Os frutos estão a surgir agora, em dezembro: no dia 1, com o Belenenses, sofreu um penálti convertido que deu o triunfo por 1-0; no dia 9, no Bessa, fez a assistência para o primeiro golo de Coentrão; agora, dia 17, distribuiu oportunidades por todos os companheiros.

Quando tem os jogadores “soltinhos”, como Jesus tanto gosta de dizer, o Sporting conta com elementos diabólicos do meio-campo para a frente: Dost é um goleador à antiga que também sabe jogar no apoio central (um aspeto importante mas que muitas vezes não é referido como deveria ser); Gelson Martins é um desequilibrador de linha que evoluiu no seu jogo interior, potenciando ainda o crescimento ofensivo de Piccini; Bruno Fernandes é um dos médios mais completos e transversais da Primeira Liga, que alia inteligência tática, qualidade técnica e capacidade de meia distância; Acuña é um ala com características ao jeito do técnico leonino e que “rima” da melhor forma com Fábio Coentrão. Depois, há um quinto elemento. Que, conforme o jogo, é Battaglia ou Podence.

Ficha de jogo

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Sporting-Portimonense, 2-0

15.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: João Capela (AF Lisboa)

Sporting: Rui Patrício; Piccini, Coates, Mathieu, Fábio Coentrão; William Carvalho (Bryan Ruíz, 88′), Bruno Fernandes; Gelson Martins, Acuña (Bruno César, 67′), Podence (Battaglia, 67′) e Bas Dost

Suplentes não utilizados: Salin, André Pinto, Ristovski e Doumbia

Treinador: Jorge Jesus

Portimonense: Ricardo Ferreira; Hackman, Lucas Possignolo, Rúben Fernandes, Lumor; Pedro Sá, Dener (Wilson Manafá, 79′), Paulinho; Wellington (Bruno Tabata, 80′), Fabrício e Nakajima

Suplentes não utilizados: Leo, Ryuki, Pires, Felipe e Hebling

Treinador: Vítor Oliveira

Golos: Bruno Fernandes (9′) e Bas Dost (60′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Hackman (27′ e 55′), Bas Dost (74′) e Bruno Tabata (82′); cartão vermelho por acumulação a Hackman (55′)

Pela primeira vez na presente época, a escolha recaiu pela terceira vez consecutiva na Primeira Liga no português. Que voltou, pela terceira vez consecutiva, a ser um dos melhores. E o Sporting ganhou, pela terceira vez consecutiva (quatro contando com o triunfo em Paços de Ferreira, após o empate caseiro com o Sp. Braga). O tempo tem dado razão a Jorge Jesus, que colocou Daniel Podence no “ponto” para superar um período que costuma ser complicado por Alvalade (meses de dezembro e janeiro).

Frente ao Portimonense, na vitória por 2-0, o avançado demorou apenas dois minutos para começar a deixar marca no encontro: grande lançamento em profundidade de Bruno Fernandes nas costas da defesa dos algarvios a isolar Podence que, descaído sobre a esquerda, não conseguiu superar a oposição de Ricardo Ferreira. Trocaram os papéis, melhorou a finalização: ainda dentro dos primeiros dez minutos, o internacional Sub-21 tem uma fantástica assistência para o médio que, frente ao guarda-redes dos alvinegros, apontou o oitavo golo pelos leões (e para se perceber o “feito”, basta dizer que, nas últimas duas épocas, tinha marcado… oito golos).

Apesar de jogar menos, Podence não deixa de fazer a diferença e conseguiu o terceiro passe para golo na Liga (sexto no total), destacando-se na lista verde e branca nesse parâmetro. E só não aumentou esse número porque, na sequência de um cruzamento seu da direita, o cabeceamento de Coates bateu num defesa e saiu para canto (25′).

O Sporting jogava bem a todos os níveis: por um lado, conseguia com relativa facilidade entrar no último terço do Portimonense, também por culpa das boas exibições de William Carvalho e Bruno Fernandes na construção e dos constantes desequilíbrios provocados pelas movimentações interiores e exteriores de Gelson Martins e Podence; por outro, “abafava” as saídas dos algarvios para o ataque com uma pressão alta que provocava o erro. E aqui é justo deixar uma nota para a equipa de Vítor Oliveira: não foi pelo jogo menos conseguido em Alvalade que fica de alguma forma beliscada a capacidade de um conjunto que gosta de ter bola, de jogar e de arriscar na frente.

Só dava Sporting até que Nakajima, uma das principais revelações da Primeira Liga (um japonês que se adaptou de tal forma ao nosso país que até das sardinhas e do bacalhau se tornou fã), ficou muito perto do empate: na única vez em que os avançados algarvios ganharam as costas à defesa verde e branca, o nipónico picou a bola por cima de Rui Patrício mas saiu ao lado (34′). Esse lance, mesmo contra a corrente do jogo, podia ter mudado muita coisa, até porque viria a ser única chance flagrante dos visitantes; não entrando, tudo ficou na mesma. Que não pior porque o remate de pé esquerdo de Piccini passou a centímetros da baliza de Ricardo Ferreira (40′) e porque Lucas Possignolo, em cima da linha, cortou uma bola que ia para golo de Bas Dost (45′).

A segunda parte manteve as mesmas características mas com uma grande diferença: aos 55′, Hackman, que já tinha sido expulso na Luz, viu o segundo cartão amarelo e deixou o Portimonense reduzido a dez. Nada a apontar à segunda admoestação por entrada sobre Acuña, que até podia ter sido vermelho direto, mas dúvidas no lance que originou o primeiro amarelo e a dois níveis: 1) Podence fez ou não falta antes de ser atingido na cara pelo braço do defesa?; 2) esse toque que João Capela assinalou foi ou não dentro da área (marcou fora)?.

Hackman já tinha falhado no primeiro golo, ao ficar para trás na subida em bloco da defesa dos alvinegros, deixou a equipa a jogar com menos um e viu já nos balneários o golpe fatal na partida apenas cinco minutos depois: após uma jogada de envolvimento em que Dost abriu na direita para Gelson Martins, Bruno Fernandes ainda tocou de raspão na bola após o cruzamento e o holandês, de primeira, atirou sem hipóteses para Ricardo Ferreira (60′). Estava feito o 2-0, confirmava-se a tendência: o dianteiro tem mais golos na Liga (47) do que jogos feitos (46).

Até final, os leões foram gerindo o jogo da melhor forma, raramente possibilitaram ao adversário ter bola junto da área de Rui Patrício e, com um pouco mais de pragmatismo no último terço, podiam mesmo ter dilatado a vantagem no marcador. Não aconteceu. Ainda assim, o Sporting conseguiu um triunfo sólido, justo e que garante a passagem dessa barreira do Natal no primeiro lugar, em igualdade ou não com o FC Porto que joga apenas amanhã.

E terminando como começámos este texto, Podence apagou aquela frase a 21 de outubro do seu Instagram mas a mensagem foi entendida. Por Jorge Jesus, que percebeu a impaciência do jogador em jogar mais minutos como titular, e por Podence, que percebeu a paciência do treinador antes de colocá-lo a jogar mais minutos como titular.