Óbito

Três fracassos, vários sucessos e uma gravidez aos 17 anos. Cinco episódios da vida de Guida Maria

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Guida Maria -- ou a portuguesa "que ganhou uma fortuna com a vagina" -- morreu esta terça-feira. Do sucesso aos 12 anos, aos fracassos no virar do milénio, recordamos cinco episódios da vida da atriz.

A atriz portuguesa Guida Maria morreu esta terça-feira aos 67 anos

Tiago Petinga/LUSA

“Guida Maria é, por certo, a única portuguesa com coragem para proclamar que ganhou uma fortuna com a vagina“. Quem o diz (ou escreve) é o jornalista Joaquim Letria no prefácio da biografia “Guida Maria – Uma Vida”, publicada em 2009 pela RCP Edições. A atriz portuguesa morreu esta terça-feira “tranquilamente durante o sono”, vítima de cancro no pâncreas. Tinha 67 anos.

Com base numa conversa gravada, ao longo de cerca de 15 horas, e transformada em 156 páginas, o Observador recorda cinco momentos da vida profissional e pessoal da atriz Guida Maria. O primeiro grande sucesso ao representar Helen Keller, na peça “O Milagre de Anne Sullivan”, os estudos em Nova Iorque e os três fracassos no virar no milénio. Na vida pessoal, recuamos a quando foi mãe solteira com apenas 17 anos.

A biografia “Guida Maria – Uma Vida” foi publicada em 2009 pela RCP Edições

O primeiro sucesso aos 12 anos (as “festas da marmelada”) e os estudos. “O descalabro total!”

Da altura em que tinha 12 anos, não deixa de recordar as “festas da marmelada” ou festas na garagem “ao som dos êxitos da época tocados nos gira-discos”, que acabavam no máximo às 23 horas. “Com o horário nocturno não havia tempo para nada. Nem para a ‘marmelada’, nem para os passos fantásticos”, recorda a atriz na biografia. Mas os 12 anos de Guida Maria são sinónimo de um momento importante na sua carreira. Apesar de se ter estreado no teatro há mais anos — pisou os palcos, pela primeira vez, com sete anos na peça “Fogo de Vista”, de Ramada Curto, no Teatro da Trindade — o seu primeiro grande sucesso veio mais tarde. Aos 12 anos, “um acontecimento, totalmente imprevisto, veio alterar a rotina daqueles dias de brincadeira”.

Em meados de 1961, o meu Pai [Luís Cerqueira] chamou-me. Tinha de ir a Lisboa fazer um teste para o ‘papel’ de uma menina cega, surda e muda. De facto, foi algo extraordinário. Naquele tempo, para quase todas as pessoas, ser actriz era sinónimo de ser ‘puta’“, conta Guida Maria.

O papel era para a personagem Helen Keller, para a peça “O Milagre de Anne Sullivan”, encenada por Luís Sttau Monteiro. Guida Maria recorda-se “perfeitamente” do dia do casting. Foi o encenador quem lhe explicou que tinha de fazer o papel de uma menina cega surda e muda — algo que a deixou “aliviada porque não tinha que decorar o papel” mas que, ao mesmo tempo, estranhou: “[Luís Sttau Monteiro] insistia para eu fixar os olhos num determinado ponto, por cima da porta, onde estava um cortinado vermelho, à antiga. Achei aquilo tudo muito estranho”. Estranhou mas correu bem e foi escolhida — informou o pai dias depois, apesar de ter considerado não deixar a filha fazer o papel “para não prejudicar os estudos”.

Fiz, imediatamente, uma grande cena, ameaçando atirar-me da janela, deixar de comer, nunca mais falar e respirar, eu sei lá o que mais. Naquele tempo, ainda não havia droga, portanto os argumentos tinham de ser mais imediatistas”, recorda Guida Maria na biografia.

Guida Maria e Luís Sttau Monteiro durante o ensaio de “O Milagre de Anne Sullivan”, em 1963 (Foto do livro “Guida Maria — Uma Vida” da RCP Edições)

Contra a vontade do pai mas com o apoio da mãe, a atriz passou a ter explicadores e acabou por fazer o papel. Ao lado de grandes nomes do teatro como Eunice Munõz, a peça esteve em digressão pelo país durante mais de um ano e foi um “êxito estrondoso”. “Meu Deus, o país inteiro correu para a porta do Teatro Avenida, como se de Fátima se tratasse, para testemunhar o «milagre da ceguinha»”, lembra a atriz. O sucesso aos 12 anos estava garantido mas não facilitou os estudos: “Foi o descalabro total!”

[Reveja no vídeo as frases mais marcantes e algumas das melhores interpretações de Guida Maria]

Mãe aos 17 anos e um pai que queria impedir o nascimento do neto: “Morreste para mim”

“Ai, meu Deus… Que posso eu dizer sobre esta parte da minha vida?”. Foi a fase da vida de Guida Maria em que a atriz decidiu ser mãe. Em parte para “aborrecer” o seu pai: “Podia bater-me, castigar-me, o que aconteceu diversas vezes, mas aquelas partes eram minhas e só minhas”. Mas não só para “aborrecer”. Na altura, Guida Maria tinha começado a namorar com o pai do filho e estava apaixonada. Viu na decisão de ter um filho, a possibilidade de se “libertar do jugo paterno”.

Quando descobriu que estava grávida, ainda com 16 anos, o pai da criança “já tinha partido para a guerra do Ultramar“, onde ficaria nos dois anos seguintes. A atriz descreve a altura em que tinha que dar a novidade ao pai da criança e ao seu próprio pai como uma “embrulhada”.

Foi por partes: primeiro, o pai da criança. Escreveu-lhe a contar que estava grávida mas do outro lado só veio um pedido: “Primeiro confirma se estás grávida ou não!”. Entretanto, o pai da criança deixou de lhe escreve e Guida Maria assumiu a “questão sozinha, com um único pensamento: seja o que Deus quiser!”.

Em bom português, ele [o pai da criança] portou-se ‘abaixo de cão’, o que, diga-se em abono da verdade, também era vulgar naquele tempo”, aponta a atriz no livro “Guida Maria — Uma Vida”.

Depois, o seu próprio pai. Precisou de tempo. E, para isso, como era muito magra, começou a usar peças de roupa larga para disfarçar a barriga. Mas a barriga cresceu e “já não era possível esconder mais”. Guida Maria decidiu contar à família. O pai, para se espanto, já sabia. “És uma puta”, terá dito na altura. Agarrou-lhe nos ombros, gritou, insultou e disse-lhe que nunca mais se queria cruzar com a filha: “Morreste para mim!”.

Guida Maria e o pai, no camarim do Teatro da Trindade, em 1957 (Foto do livro “Guida Maria — Uma Vida” da RCP Edições)

O pai obrigou-a a casar mas a atriz não queria. Chegaram a ir a tribunal. O pai chegou mesmo a tentar convencer a mãe de Guida Maria a obrigá-la a “fazer um desmancho”. “Durante os nove meses de gravidez, o meu Pai teve sempre uma atitude irascível”, recorda a atriz. Mas ao fim desses nove meses, Pedro Daniel acabou por nascer.

Nessa altura, Guida Maria conheceu o músico escocês Mike Sargeant — que viria a ser o pai da também atriz, agora com 47 anos, Julie Sargeant — que “sempre mostrou vontade de perfilhar ” Pedro Daniel. Guida Maria casou com Mike em 1969, quando tinha 19 anos. Divorciaram-se em 1972 — um divórcio que “correu às mil maravilhas”.

O curso em Nova Iorque. Saudades da feijoada, a vida em Harlem e a fazer limpezas

Estava num café que já não existe em Campo de Ourique com a mãe, que lhe disse que tinha chegado a carta: “A tal carta que podia abrir a porta a um sonho”. Era uma carta da Secretaria de Estado da Cultura, que lhe atribuía uma bolsa. A atriz que tinha descuidado dos estudos para começar uma carreira no teatro, ia parar a sua carreira para, lá está, estudar teatro, na “American Academy of Dramatic Arts”, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Eram vinte mil escudos por mês e propinas pagas.

Com um movimento repentino, abri a carta. A bolsa tinha sido concedida. Dei gritos de alegria, enquanto o semblante da minha mãe se fechava”, recorda a atriz Guida Maria.

Chegou a Nova Iorque no mesmo dia em que fez 30 anos: 23 de janeiro de 1980. “No primeiro dia de aulas, ficou tudo claro. Os professores arrasavam os alunos, testando a auto-estima de cada um até ao limite, mas incentivando-os a fazer sempre mais e melhor”, relembra a atriz. Mas Guida Maria já tinha o seu lugar garantido no Teatro Nacional de Portugal e fazia questão de dizer aos professores que não queria ficar a trabalhar nos Estados Unidos — “a única forma de escapar a este massacre” dos professores.

Guida Maria relembra das dificuldades da língua e a revolta por acharem que era brasileira e não portuguesa, que a levou a discutir com uma professora, a texana Miss Metric.

Sinceramente, eu estava tão aborrecida que nem sequer foi preciso
recorrer à improvisação teatral. Limitei-me a fazer um monólogo, de dedo em riste, aos berros, a insultá-la de toda a forma e feitio. Terminei a apontar para ela e para a porta da sala de aulas, gritando: «Rua! Rua!». Levei uma salva de palmas dos meus colegas”, conta Guida Maria.

Em Nova Iorque, Guida Maria viveu no Harlem — uma das zonas mais problemáticas da cidade — numa casa cuja senhoria era açoriana, tinha mais de 70 anos e era surda. Guida Maria recorda o momento em que disse aos colegas e professores que vivia em Harlem: “Ficaram em pânico. Tinham receio que eu pudesse aparecer morta!”. A própria atriz não estranhou a reação. “Parecia o Quénia”, diz Guida Maria, apesar de não sentir medo de viver no Harlem. Não tinha medo mas tinha saudade: dos filhos, dos pais, de “uma boa feijoada à portuguesa”.

Quando pensava nos meus filhos, nos meus Pais, nos meus amigos e,
também, numa boa feijoada à Portuguesa, passava-me pela cabeça desistir. Tinha fome, tinha frio, não tinha dinheiro para nada. Por vezes, perguntava-me se conseguiria acabar o curso”, desabafa.

Mas conseguiu. Trabalhou como empregada de mesa no “Cafe Fígaro”, no Village, que acabou por deixar porque estava a prejudicar-lhe os estudos, chegando mesmo a ficar em risco de chumbar”. Arranjou um emprego no escritório de uma empresa de produtos dietéticos mas acabaria por se tornar empregada de limpeza na casa do chefe, um judeu. Mas não acabou por durar. O judeu queixava-se que Guida Maria não lhe esticava bem os lençóis e a atriz “explodiu”.

Sem emprego, ficou com dificuldades económicas. O que a salvava era o pequeno-almoço num bar de um emigrante grego, de quem se tornou amiga. “Estudava muitas vezes com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo”, revela a atriz. Guida Maria acabou a trabalhar numa lavandaria.

“Monólogos de uma vagina”, o último grande trabalho de Guida Maria

Ouviu falar da peça. Leu o texto. Não conseguiu ver a peça porque estava sempre esgotada. Comprou os direitos e mandou-a traduzir. E assim surgiram “Monólogos da Vagina” na vida de Guida Maria — um sucesso que marcou a sua carreira e que a própria atriz nunca achou que viria a alcançar, admite. A peça estreou em Portugal a 20 de outubro de 2000. Mas antes disso, Guida Maria teve de ultrapassar vários desafios.

A produção da peça foi paga com o dinheiro de Guida. Encontrar um teatro disponível foi o “primeiro obstáculo”. “Ou os teatros estavam ocupados, ou então estavam disponíveis por tempo limitado e custavam uma fortuna”, recorda. O Teatro do Casino do Estoril foi a solução. Estava fechado e Guida Maria resolveu marcar um jantar com o responsável pela administração da Estoril Sol, Mário Assis Ferreira.

Foi tudo sorrisos até ao momento em que lhes anunciei o nome da peça: ‘Monólogos da Vagina’. Seguiu-se um enorme silêncio. Sem dizerem que não, começaram a tentar mudar o título”, conta Guida Maria na biografia.

Apesar de ter saído do jantar “convencida que eles não aceitariam um espectáculo com aquele título”, Guida Maria acabou por receber um telefonema para “arrancar com o espetáculo”. A atriz rumou a Paris e Madrid para ver a peça. Nenhuma lhe agradou mas criou dúvidas. Guida Maria convidou “muitas pessoas para assistirem aos últimos ensaios” para perceber se estava no caminho certo.

A atriz relembra as noites “inesquecíveis”, destacando a interação com o público . “Foi um sucesso”. A atriz aponta que nem precisou de fazer publicidade: “Tive um enorme apoio da parte dos media, que fizeram muitos e muitos artigos sobre a peça”. Guida Maria reconhece que “Monólogos da Vagina” foi o seu “último grande trabalho”: “Fui tão aplaudida e tive tanto retorno. Recebi da parte do público um carinho que compensou todo o esforço para montar a peça”.

O 11 de setembro, o Euro 2004 e a dificuldade de interpretação: a causa de três fracassos?

“Estou feita! Ninguém vem ver o espectáculo!”. É que o 11 de setembro tinha acabado de acontecer e as pessoas “só falavam do atentado terrorista”. Com medo de sair à rua, ficavam em casa a ver televisão e não vinham ver o novo espetáculo produzido por Guida Maria: “Andy e Melissa” de A. R. Gurney, representada pela própria atriz e pelo ator Mário Jacques, que morreu em 2015. Houve muitas desistências de bilhetes reservados.

Cheguei a atender um telefonema de uma senhora que me dizia que a morrer, queria morrer em casa. O pânico estava instalado, apesar de estarmos a milhares e milhares de quilómetros de Nova Iorque”, recorda a atriz no livro “Guida Maria — Uma Vida”.

Guida Maria e Mário Jacques na peça Andy e Melissa, em 2001 (Foto do livro “Guida Maria — Uma Vida” da RCP Edições)

Apesar dos elogios que recebeu no dia da estreia, “a peça foi um flop” que atirou Guida Maria para uma “permanente angústia”. “Se tivesse estreado ‘Os Monólogos da Vagina’, naquele momento, também teria acontecido o mesmo?”, questionou a atriz na altura, apesar de admitir que “a desculpa do atentado” nunca a convenceu totalmente. O espetáculo acabou por ser suspenso. “Eu reajo a estes falhanços como reajo com os homens. Quando me magoam, nunca mais quero saber deles, não lhes falo mais”, conta Guida Maria.

E assim fez. Guida Maria decidiu avançar mais uma vez com o seu dinheiro em mais um monólogo: “Zelda” — uma peça cujos direitos tinha comprado na altura que comprou os da peça ‘Monólogos da Vagina’. Na altura em que a peça estreou, “houve mais um evento extraordinário: o Euro 2004”. A história repetiu-se e não apareceram pessoas para ver a peça.

Foi o ruir do sonho de fazer uma mini companhia. O prejuízo foi muito grande. Financeiro, físico e psicológico”, admite a atriz.

Não há duas sem três. Guida Maria ainda voltou ao Teatro do Casino do Estoril para interpretar um papel em “Stôra Margarida”. A peça teve um enorme sucesso no Brasil. Em Portugal, nem tanto. ” Ninguém percebeu o paralelismo. Foi o meu terceiro ‘flop’! E acabou a aventura”.

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