Aníbal Cavaco Silva

Cavaco Silva. “É estranhíssimo falar-se na substituição da procuradora com 10 meses de antecedência”

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Para o ex-Presidente, é "estranhíssimo" falar-se em substituir Joana Marques Vidal 10 meses antes do fim do mandato. Ao Expresso, diz que líderes passados do PS foram contra atual solução de Governo.

NUNO FOX/LUSA

Cavaco Silva considera que foi muito estranho o que aconteceu em Portugal, “mesmo estranhíssimo, falar-se da substituição (da procuradora-geral da República) com 10 meses de antecedência”. Em entrevista ao Expresso, o antigo Presidente da República prefere não qualificar nem comentar esta iniciativa do Governo, nem outras aliás, mas deixa elogios a Joana Marques Vidal.

Afirma ter sido “surpreendido muito positivamente pela sua atuação”, considerando ainda que a procuradora-geral tem dado um contributo importante “para a dignificação do exercício da função judicial”. Cavaco Silva recorda ainda os processos de substituição de procuradores-gerais quando foi Presidente, negociados com o Governo muito mais perto do fim do mandato. E revela que rejeitou dois nomes propostos para o cargo por José Sócrates. Não diz quais,  apenas afirma que não os considerou adequados. Nomeou Joana Marques Vidal já no Executivo liderado por Passos Coelho e com quem teve uma longa conversa onde a alertou para a necessidade de descrição e “uma certa aversão ao mediatismo”.

Nesta longa entrevista à revista do Expresso, o ex-Presidente justifica ainda porque deu posse a um Governo do PS, apoiado pelos partidos à esquerda. “Conclui que era uma melhor solução” do que continuar com um Governo de gestão do PSD/CDS até à eleição do novo Presidente da República. Não lhe quis deixar esse encargo”. E uma vez que já não podia dissolver o Parlamento. Mas destaca:

Esta solução era inédita na nossa democracia teve a oposição muito forte no passado de todos os dirigentes socialistas com quem trabalhei. Um dia contarei o que me disseram sobre o Bloco e PCP. Está registado”.

Apesar de recusa em comentar diretamente políticas ou medidas do Governo, vai deixando recados. E um deles têm a ver com “os foguetes” a propósito dos números do crescimento económico de 2017, conhecidos esta semana.

Portugal, diz, está a beneficiar de uma envolvente externa” extremamente favorável”, nomeadamente ao nível das taxas de juro, “como nunca se viu na história monetária portuguesa”. Neste “quadro de benesses”, o economista tem “algum receio de que não se esteja a aproveitar o momento para corrigir alguns dos nossos desequilíbrios estruturais” — endividamento, insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, falta de capital, inverno demográfico e a reforma do Estado.

Costa é um “político muito hábil”. Rio é “honesto e fazedor”

Cavaco Silva afirma que por princípio não comenta mandatos de anteriores presidentes, nem do seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa, mas cita frequentemente Emmanuel Macron, apoiando a posição do presidente francês de que a proximidade entre jornalistas e políticas é negativa para os dois lados. Sublinha ainda que enquanto Presidente “não podemos ter o desejo de ser amados”. 

Para um Presidente, falar constantemente com os jornalistas, estar sempre cercado por jornalistas, não tem nada que ver com proximidade com o povo”.

O ex-Presidente deixa algumas palavras sobre António Costa. “Usou sempre de uma cordialidade imensa comigo, sempre muito correto”, enquanto negociava a solução governativa. E reconhece que o atual primeiro-ministro é “um político muito hábil”. 

Ainda uma palavra para o novo líder do PSD. Para Cavaco, Rui Rio tem algumas qualidades que são importantes para os tempos que correm: “Tenho a impressão de que é um homem honesto, educado”. É “um fazedor” e tem sentido de serviço público, apesar de ser “um pouco teimoso no sentido do critério do interesse nacional. O também ex-presidente do PSD deseja as maiores felicidades num “cargo tão difícil como o de presidente do PSD.”

Lembrando que os ciclos chegam ao fim, o ex-Presidente defende que este bom momento “deve ser aproveitado para fazer as correções de natureza estrutural”, de forma a ganhar margem de manobra para quando chegar a próxima crise. E ainda que não o diga, preto no branco, que isso não está a ser feito, Cavaco Silva reafirma a sua “preocupação”. E o que deve ser feito?

Cavaco Silva diz que não está no tempo “de dar lições, nem as quero dar em público sobe aquilo que o Governo deve fazer para resolver os problemas que estão bem identificados”. Mas deixa a sugestão. O poder político deve estudar os assuntos com profundidade, chamar peritos e conhecedores para encontrar soluções para os problemas.

Questionado sobre os incêndios do ano passado, o antigo Presidente conclui que, de tudo o que foi dito e escrito, “emerge um grande falhanço da parte do Estado” naquilo que é mais importante que é garantir a proteção da vida das pessoas. E considera que esse falhanço remete para a discussão sobre a dimensão do Estado, da sua capacidade técnica de gestão, concluindo que a “reforma do Estado é uma questão importante”. 

Quando lhe perguntam pelos resultados do seu consulado como Presidente, Cavaco Silva diz que chega ao fim do mandato “sem frustração” e sem “desilusões, considerando que cumpri aquilo que me tinha comprometido ao candidatar-me. Colocar-me ao serviço do país.”

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A estagnação da economia e a estatização da sociedade tinham de dar nisto, numa política reduzida a um círculo fechado de amigos e de parentes. Mas em vez de enfrentarmos isso, ataquemos Cavaco Silva.

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