A paixão pelas motos começou praticamente desde miúdo por influência do pai, que costumava acompanhar e que lhe apresentou em viagem a concentração de Faro ou a dos Pinguins, em Valladolid. Em 2013, quando conseguiu o primeiro pódio no Moto 3, Miguel Oliveira teve oportunidade de, pela primeira vez, estar na reunião algarvia. E as coisas tinham mudado: já era visto como um herói que conseguiu aquilo que mais nenhum português tinha conseguido. Cinco anos e nove vitórias depois, o piloto de Almada prepara-se para fazer a terceira temporada no Moto 2 após um ano que terminou com três triunfos consecutivos a carimbarem o terceiro lugar.

“Em 2015 foi um início difícil de temporada, porque até mesmo agora nos testes não sabíamos com que poderíamos contar ou aspirar. Fomos para o Qatar à espera de ver o que acontecia, e melhorámos corrida a corrida. Este ano é diferente: na pré-temporada, mostrámos que somos fortes e continuamos com tempos no topo das tabelas, por isso, sabemos que desde o início temos potencial para chegar a posições de topo”, comentou o piloto ao seu site oficial antes da primeira prova da temporada, estabelecendo a comparação com o último ano no Moto 3, onde ficou no segundo lugar com seis triunfos e 254 pontos, apenas menos seis do que o britânico Danny Kent.

Aos 23 anos, Miguel Oliveira terá um ano determinante que poderá acabar com a passagem ao Moto GP, escalão mais alto dos Mundiais de velocidade onde está Valentino Rossi, a principal referência que sempre teve até pelo carisma do italiano nove vezes campeão mundial com quem já conviveu de perto. “Estive no rancho dele em Itália. Perguntava-me várias vezes porque me dava atenção, ele é o deus dos deuses das motos. Tem-se mantido no topo. Com todos os títulos e vitórias há algo especial nele que o faz querer ir mais além”, contou em entrevista.

O piloto de Almada está habituado a ganhar: aos nove anos, após uma curta passagem pelos karts, venceu pela primeira vez uma prova de motos em Palmela. Gostava do simples prazer de conduzir, mas era aquele bichinho da competição que o puxava para outros desafios. Um dia, respondendo a leitores do Record, mostrou bem que tinha um caminho bem definido desde miúdos: “Perdi parte da adolescência por não ter tido aquelas brincadeiras que adolescentes normais têm, mas dediquei-me a um desporto e tentei divertir-me ao máximo a fazer o que gosto”.

Miguel Oliveira teve a primeira grande experiência em 125cc pela Aprilia, em 2011. Um ano depois, passou para a Suter Honda (a partir daqui em Moto 3), seguindo-se a Mahindra Racing, fazendo história ao conseguir o primeiro pódio de sempre da equipa na Malásia, a 13 de outubro. Dois anos depois, muda-se para a Red Bull KTM Ajo e tem a melhor época de sempre: seis triunfos (Itália, Holanda, Aragão, Austrália, Malásia e Valência), três segundos lugares (Espanha, São Marino e Japão) e o vice-campeonato de Moto 3 com 254 pontos.

Seguiu de forma natural para o Moto 2 em 2016, passando a correr pela Leopard Racing com o ex-adversário Danny Kent. Não foi além do 21.º lugar na classificação geral numa temporada marcada por muitas quedas e uma fratura da clavícula que o afastou de algumas provas, mas voltou a ser aposta da KTM Red Bull Ajo e teve uma época que abriu grande expetativa para a que agora se inicia: terceiro posto na geral apenas atrás de Franco Morbidelli (Kalex) e Thomas Luthi (Kalex) com três vitórias (Austrália, Malásia e Valência), dois segundos lugares (Argentina e Alemanha) e quatro terceiras posições (Espanha, Catalunha, Rep. Checa e Aragão).

A frequentar o mestrado integrado de medicina dentária, Miguel Oliveira, que nos poucos tempos livres gosta de ir andar de bicicleta, jogar futebol ou estar um bocado no computador, é um nome que se afirma cada vez mais no desporto nacional, como se viu na eleição de Atleta do Ano pela Confederação do Desporto de Portugal. 2018 será uma espécie de ano de confirmação, quiçá o último antes de alcançar o sonho de chegar ao Moto GP.

“O que faz a diferença para se vencer uma corrida? Primeiro ter a moto para isso, depois ter a vontade. Todos queremos vencer mas o factor psicológico entra muito em jogo. Temos de traçar uma estratégia e conseguir concretizá-la”, explicou um dia o número 44 (número sorteado um dia em Espanha e que ficou por ter dado sorte). Com adversários competitivos como Alex Márquez, Lorenzo Baldassarri, Francesco Bagnaia ou Danny Kent, o piloto mostra-se focado sobretudo em 2018 e na possibilidade dar mais alegrias aos portugueses, sem pensar nessa possibilidade de ser o ano que lhe valerá o bilhete para o principal escalão.

“Isso será uma consequência do trabalho, quer te dês bem ou não. Estou mais concentrado em fazer melhor em Moto2; mais tarde, se houver a oportunidade de subir para Moto GP, será bem-vinda. Tenho de agradecer a todos, porque as pessoas estão muito entusiasmadas em ver motos e cada vez mais em ter um representante de Portugal no Campeonato do Mundo. Espero que esta base cresça ainda mais. O objetivo não é ser famoso, mas cada vez mais pessoas estão a reconhecer-me e isso é algo positivo”, comentou no lançamento da temporada.

Nos primeiros resultados, e depois do sexto lugar nos treinos livres, Miguel Oliveira conseguiu o quarto melhor tempo da qualificação para o Grande Prémio do Qatar, a 547 milésimos do espanhol Alex Márquez. Lorenzo Baldassarri e Francesco Bagnaia, também da Kalex, completam a primeira linha da grelha. De referir que, depois do 11.º posto em 2015, o português acabou a prova inaugural do ano passado na quarta posição.