Desde o ano passado que dezenas de companhias de bicicletas partilhadas têm nascido nas cidades da China: entre junho de 2015 e dezembro de 2017, a China recebeu 60 startups desse ramo. Foi uma das estratégias em que o governo apostou para diminuir a utilização dos automóveis e, pelo caminho, tentar reduzir o problema da poluição atmosférica do país. Mas a ideia teve um efeito inverso e estima-se que apenas dez dessas startups possam sobreviver: é que havia tantas companhias a pôr bicicletas na rua que a oferta tornou-se maior que a procura. A certa altura, as pessoas utilizavam as bicicletas e depois estacionavam-nas nos lugares errados ou abandonavam-nas. Agora, as cidades chinesas transformaram-se num autêntico cemitério de bicicletas.

O negócio tinha potencial: a ideia era que os chineses descarregassem uma aplicação para o telemóvel e que depois, a partir dela, reservassem bicicletas que os levariam até onde precisassem. A bicicleta podia ser deixada em sítios criados pela empresa ou noutro sítio qualquer (dependia das companhias) para depois serem alugadas por outros habitantes. Mas o crescimento gigantesco do negócio não foi acompanhado pela lei, porque não havia infraestruturas nem regulação suficiente para suportar e proteger o património das empresas. Grande parte dos milhões de bicicletas que invadiram as cidades começaram a ser largadas no meio da rua, ao ponto de se acumularem em pilhas que cortavam as estradas e congestionavam ainda mais o trânsito nas metrópoles. E o pior ainda estava para vir.

É que, de tão maltratadas que algumas delas ficavam, as bicicletas foram abandonadas em terrenos baldios, em jardins ou nas margens das estradas mais pequenas. De repente, havia milhões de bicicletas coloridas e empoeiradas amontoadas na China, todas elas sem uma roda, sem parafusos, com volantes estragados e vandalizadas de alguma forma. Uma viagem nelas custaria meros cêntimos por cada 30 minutos, mas nem sequer este preço foi competitivo o suficiente com tantas empresas a tentar encontrar o seu lugar no mesmo negócio.

Nos últimos tempos, e principalmente desde janeiro deste ano, algumas dessas bicicletas começaram a ser reabilitadas e novas normas vão ser lançadas para evitar que o cenário se repita. O número de bicicletas em circulação também foi limitado para evitar ondas de vandalismo e para acompanhar o volume de potenciais clientes, que tem vindo a diminuir.

Ainda assim, algumas das empresas não resistiram à bolha: a Bluegogo, que chegou a ter 20 milhões de clientes e 600 mil utilizadores, abriu falência em novembro “porque nenhum dos investimentos e dos elogios se refletiu em dinheiro”. E os próprios clientes tiveram problemas depois de a empresa ter aberto falência, porque ficaram com crédito preso na aplicação: alguns desses clientes partiram as bicicletas por vingança ou levaram-nas para casa para as venderem online em busca de uma forma de recuperar o dinheiro perdido. As imagens na fotogaleria ilustram o estado caótico em que ficaram as cidades chinesas.

O negócio só vai correndo bem para a Ofo e para a Mobike, que juntas controlam 90% do mercado e que estão avaliadas em mil milhões de dólares. Ambas explicam o sucesso com um mote: não querem dinheiro, querem grande escala e expansão. Tem resultado: a Ofo já chegou a 20 países e a 200 cidades só dentro da China.