Uma pequena falange, com somente três centímetros de comprimento e descoberta em Al Wusta, um deserto da Península Arábica, está a surpreender os cientistas. Porque obriga a repensar tudo o que até hoje se acreditava saber sobre as primeiras migrações do Homo sapiens a partir de África.

Antes, acreditava-se que o Homo sapiens (a única espécie de homem que existe nos nossos dias) só teria começado a viver continuamente fora de África há aproximadamente 60 mil anos. O “problema” é que, após a datação do surpreendente achado arqueológico, comprovou-se que o mesmo terá 85 mil anos.

A descoberta, um trabalho de 30 cientistas de diferentes universidades, foi publicada recentemente na revista científica Nature Ecology and Evolution. Durante o trabalho em Al Wusta, na Arábia Saudita, os cientistas recolheram cerca de 800 ossos de animais e perto de 400 artefactos de pedra. How Groucutt, investigador de Oxford, explicou à BBC que identificar (e sobretudo diferenciar) a falange foi uma surpresa. “Geralmente não somos capazes de distinguir quando se trata de um fragmento humano. Mas este osso é peculiar”, lembrou, acrescentado que a falange de homem de Neandertal, por exemplo, é mais “curta e larga” do que a de um Homo sapiens.

Mais nenhuma ossada humana foi encontrada naquele deserto. “Isso é normal, quase todos os humanos desapareceram [da Península Arábica] sem deixar rasto”, explicou Groucutt.

Mas o que terá levado o Homo sapiens a migrar de África mais cedo do que o pensado? O clima, talvez o clima. Segundo os cientistas, há 85 mil anos o clima da região era diferente e as monções teriam criado lagos — o que resultou na migração de animais, sobretudo gado selvagem e antílopes, mas igualmente do Homo sapiens. “O interessante é que no passado se afirmou que os humanos não se poderiam espalhar pela Ásia antes de terem ferramentas mais complexas. Os nossos achados sugerem que esse tipo de migração, na verdade, não reflete um avanço tecnológico mas, sim, uma mudança climática.”, explicou How Groucutt, deixando uma pergunta por responder: “Agora, o grande mistério é o que aconteceu a estas pessoas”.

Os cientista não sabem ainda se a população terá sido extinta ou simplesmente se mudou para outro lugar.