O mundo está devagarinho, devagarinho a mudar. E embora possa parecer que pouco ou nada anda a ser feito no que toca ao mercado da beleza e dos testes em animais, a coisa não é bem assim. A revista Forbes escrevia o ano passado que nunca antes tinha havido uma época melhor para este mercado, já que a indústria da beleza estava a valer qualquer coisa como quase 400 mil milhões de euros (em vendas), tornando-se assim uma das áreas mais lucrativas.

E o que é que isso significa? Coisas boas: o consumidor está cada vez mais exigente, tem mais conhecimentos, está mais preocupado com o ambiente, há cada vez mais novas marcas a crescer nesta indústria e os testes em animais já são um factor de peso no que toca a comprar ou não uma marca. Enquanto as novas marcas apostam cada vez mais em políticas 100% cruelty-free, se as atitudes dos consumidores continuarem a apontar neste sentido (fim da compra de produtos testados em animais), as próprias grandes companhias (e que detém as principais marcas de cosmética do mundo) vão ser obrigadas a mudar as suas estratégias e os próprios países a mudar as suas leis.

E isso já está a acontecer. Grandes marcas têm lutado ativamente contra os testes em animais e têm pressionado o mundo para esta mudança e para uma maior consciencialização como a The Body Shop que, no ano passado, lançou a petição Forever Against Animal Testing (e que ainda pode assinar aqui) com a ONG Cruelty Free International (a principal a trabalhar nesta área) e que já se tornou a maior campanha contra os testes em animais da história. Quando as oito milhões de assinaturas forem atingidas (já se passou o marco das 5 milhões), a The Body Shop e a Cruelty Free International vão apresentar a petição às Nações Unidas e pedir uma convenção internacional para proibir os testes em animais.

O grande elefante na sala que é a China

Sempre que entra o tópico dos testes em animais, fala-se na China. E é bom que se continue a falar mas é preciso clarificar o assunto porque a lista negra das marcas que testam em animais não é um “bicho papão” assim tão grande. Mas já lá vamos. A China é um dos mercados mais poderosos e valiosos na beleza. A lei chinesa não é tão permissiva daí que muitas das marcas que se oponham aos testes em animais acabem por se submeter às leis locais e continuem a não praticar testes em animais. O que acontece é que autorizam que sejam feitos em fábricas chinesas para poderem vender na China.

Por outro lado, com a pressão que tem sido feita por muitos países que aderiram à legislação cruelty-free (como a União Europeia, Israel ou a Índia), com as campanhas contra os testes em animais, com as marcas que se têm recusado a vender na China e com as outras marcas que vendem mas trabalham ativamente para mudar as leis chinesas, a própria legislação já está a mudar.

Em 2014 foi permitido que as marcas fabricadas dentro do próprio país pudessem escolher testes alternativos aos animais, os produtos vendidos pela Internet e nos aeroportos não têm de testar em animais, as marcas que tenham lojas apenas em Hong Kong não têm de fazer testes em animais e, como escreve a PETA, no final do ano passado foi criado perto de Shangai o primeiro laboratório de testes não-animais aprovado pelo governo chinês. Este laboratório foi criado com a ajuda do Institute for In Vitro Sciences e financiado por uma bolsa da PETA.

Por enquanto, a legislação chinesa ainda não baniu os testes em animais, mas estas mudanças representam um marco significativo nesta luta e são um sinal de que a lei chinesa poderá mudar.

Apesar de tudo, a maioria das marcas está contra os testes

Eis o que pouco se fala: 80% dos países do mundo ainda não tem leis contra os testes em animais na cosmética, como escreve a Forbes. Um bom exemplo são os Estados Unidos da América. Isso significa que as marcas que produzem e vendem os seus produtos em solo americano podem escolher fazer ou não testes em animais. E muitas organizações ambientais são mesmo a favor deles.

Um exemplo que a PETA escreve é o do Natural Resources Defense Council, uma organização ambiental que discordou publicamente do facto de a União Europeia ter aderido à lei contra a crueldade alegando que “precisamos testar os cosméticos em coisas vivas”, mesmo que os testes não animais já sejam mais baratos, mais rápidos e estejam mais do que provados de conseguir prever os efeitos de um cosmético na saúde humana.

Felizmente, a grande maioria das marcas de cosmética americanas já não conduz testes em animais. Graças a quem? A nós — os Europeus. Erin Hill, presidente do Institute for In Vitro Sciences disse à revista Glamour que “a grande mudança em relação aos testes em animais nos EUA ocorreu quando a Europa os baniu em 2013”. Porquê? Porque se uma marca queria continuar a vender em mercados tão desejados como Paris, Londres ou Milão (Lisboa não é um mercado assim tão relevante), não podia mais ter produtos testados em animais. E as marcas americanas aderiram massivamente a esta lei europeia. Assim, a lei americana não baniu mas as marcas simplesmente deixaram de fazer testes em animais em todas as fases de produção de um produto.

O que é que podemos fazer?

Podemos e devemos continuar a questionar as marcas que gostamos relativamente às suas políticas de testes. Mas há duas coisas importantes a saber. Por um lado, se é realmente contra os testes em animais e este tema faz parte dos seus valores e da sua filosofia de vida, então pode ajudar a mudar o mundo ao só comprar produtos de marcas que se recusem a vender na China e mantenham uma política 100% contra os testes em animais. Esta é a lista da PETA com todas as marcas que são totalmente cruelty-free.

Por outro lado, muitas marcas que gostamos vendem-se na China e, como tal, podem não praticar testes em animais em nenhuma fase da sua produção mas autorizam que estes sejam conduzidos em solo chinês para aí serem vendidos, como Caudalie, Nars, Bobbi Brown, Maybelline, Origins, Clarins e tantas outras. Mas isso não significa que estas marcas, afinal, representem só coisas más. Muitas delas continuam a lutar contra os testes, apoiaram a petição da The Body Shop, têm trabalhado com ONGs e com o governo chinês para mudar as leis e têm inclusivamente financiado muitos dos trabalhos que procuram encontrar uma alternativa ética aos testes, como os do Institute for In Vitro Sciences.

Assim, esta não é uma realidade tão preto no branco e não temos de “odiar” todas as marcas que vendem na China, até porque muito dos seus lucros (e os que vêm também das vendas na China) estão a ser usados nesta luta. Temos, sim, de conhecer o trabalho das marcas que gostamos, perceber a forma como estão a contribuir para o fim dos testes em animais e fazer compras conscientes.

Mas porque vale sempre a pena celebrar as marcas que estão a mudar o mundo ao adotar políticas totalmente contra os testes em animais (ao recusar-se a vender na China, o que também está a ajudar as leis a mudar), reunimos na fotogaleria algumas novidades de marcas 100% cruelty-free já a pensar no calor e na primavera.