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O Atl. Madrid jogava no Wanda Metropolitano e Diego Simeone estava num camarote. Sentado, sem ninguém a seu lado. Foi uma imagem que durou pouco porque, passados uns minutos, lá andava o treinador de um lado para o outro como se aquela zona de cadeiras fosse a sua área técnica. Sem El Cholo, ficou o Cholismo, uma filosofia nascida em 2012 que se eternizou nos espanhóis. Uma ideia onde as individualidades podem ser estrelas mas no final é a equipa que tem de brilhar. Uma paixão sem limites pelo jogo, seja ele melhor ou pior jogado. Arsène Wenger teve a sua história de amor durante 22 anos no Arsenal, mas a mesma culminou com um final tudo menos feliz.

Desde que substituiu Gregorio Manzano em dezembro de 2011, após passagem por clubes argentinos como o Racing, o River Plate e San Lorenzo (e agora um apontamento sem ligação direta ao jogo: é provável que muito em breve uma equipa europeia agarre no exemplo bem sucedido do ex-médio e possa apostar em Marcelo Gallardo, que foi companheiro do atual técnico dos colchoneros na seleção vários anos), Simeone mudou por completo a história do Atl. Madrid que, dos anos 80 até aí, ganhara apenas um Campeonato, quatro Taças, uma Supertaça. E mudou a todos os níveis, da cultura aos resultados. Internos, conseguindo a proeza de vergar o Real Madrid e o Barcelona na Liga de 2013/14 (ganhou ainda uma Taça e uma Supertaça), e no plano internacional.

Logo uns meses depois de assumir o cargo, El Cholo conquistou a Liga Europa, vencendo o surpreendente Athl. Bilbao na final por 3-0. De seguida, ganhou a Supertaça Europeia com uma goleada por 4-1 frente ao Chelsea num jogo onde Falcão marcou três; em 2013/14 e 2015/16, chegou à final da Champions, perdendo com o Real Madrid no prolongamento (em Lisboa) e nas grandes penalidades (em Milão); agora, depois de cair nas meias-finais da Liga dos Campeões no ano passado, alcançou a final da Liga Europa, eliminando o Arsenal (1-1 em Londres e 1-0 em Madrid) já depois de ter ultrapassado o Sporting, o Lokomotiv Moscovo e o Copenhaga na fase a eliminar da prova. Contas feitas, conseguiu alcançar a quarta final em apenas seis anos no comando dos colchoneros.

Com Germán Burgos no banco, o adjunto conhecido como Mono quando era guarda-redes e que conseguia ser ainda mais excêntrico do que o próprio Simeone, com uma cabeleira farta que não deixava enganar, o Atl. Madrid não tinha a seu lado a principal referência por castigo e enfrentava um adversário que jogava o tudo por tudo na última competição ainda com aspirações em aberto para o Arsenal. “Espero que esta história de amor tenha um final feliz”, desejava Arsène Wenger na conferência antes do encontro. Não teve, com algumas culpas próprias.

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O início de jogo foi acidentado. Com um remate que em condições normais Diego Costa não falharia, com uma lesão provavelmente grave do central Koscielny logo ao sétimo minuto (entrou Chambers, sendo que o Mundial pode estar em risco para o central francês), com um toque que abriu a cabeça de Griezmann sem que o avançado gaulês se apercebesse da gravidade do lance. Mas foi sobretudo curto em termos de futebol, de ideias e de oportunidades, com uma nuance importante: quando o Arsenal está em baixo (mesmo que tenha mais posse), fica refém de um rasgo das suas individualidades; quando o Atl. Madrid está em baixo, não depende de ninguém porque aparece a equipa. E foi através de uma boa pressão coletiva que se destacaram as individualidades: Partey ganhou uma segunda bola após alívio de Oblak, Griezmann isolou Diego Costa com um fantástico passe e o dianteiro espanhol nascido no Brasil foi por ali adiante sem que a pressão de Bellerín o afetasse minimamente para apontar único golo (45+1′).

No segundo tempo, Ramsey, Xhaka e Mkhitaryan ainda tiveram remates com algum perigo à baliza do Atl. Madrid (o do suíço obrigou a mais uma intervenção monstruosa de Oblak), mas foram os espanhóis a ficar mais perto do segundo golo, por Diego Costa e Griezmann, antes de gerirem o jogo guardando a vantagem de 2-1 na eliminatória sem dar margem para reações aos londrinos. Até esta noite, falava-se dos três Campeonatos, das sete Taças e das sete Supertaças conquistadas por Wenger; a partir de hoje, o único tema em torno do francês é o seu sucessor.