Esta segunda-feira vai marcar o trajeto de Bruno de Carvalho num futuro próximo. Os mais desprevenidos, que no caso até serão os mais atentos, poderão pensar que é um efeito direto da manifestação que juntou à noite centenas de pessoas em frente ao Edifício Visconde de Alvalade. Podia ser, mas houve algo mais “representativo” para o líder do clube: as palavras de Eduardo Barroso, apoiante do número 1 desde 2011, à SIC Notícias.

“Faço um apelo ao meu amigo Bruno de Carvalho: devia demitir-se, sair agora. Devia cair em si, demitir-se e dar voz aos sócios”, destacou, considerando também que Jaime Marta Soares, o presidente (agora demissionário) que lhe sucedeu na Mesa da Assembleia Geral, “não tem capacidade intelectual para resolver isto”.

Por mais paradoxal que possa parecer, a postura intransigente de Bruno de Carvalho dificilmente mudaria perante uma manifestação como a que se viu esta noite em Alvalade. Decidiu que não tem de demitir-se, que tem uma total legitimidade para ocupar o cargo e que estará também a ser vítima, como já descreveu, do maior ataque de que há memória no Sporting. Mas se juntarmos a opinião de Eduardo Barroso aos cânticos de centenas de pessoas que, a seguir ao trabalho na maioria dos casos, fizeram questão de juntar-se para corporizar uma vontade que será bem mais abrangente do que os números de hoje mostraram, o peso é diferente. E basta recordar a frase do próprio líder leonino na primeira sessão de esclarecimentos aos sócios realizada no Pavilhão João Rocha: havia algumas pessoas que lhe tinham retirado apoio mas que lhe eram indiferentes, mas havia uma que gostava de convencer a entender os seus argumentos para ficar no comando do clube – o mesmo Eduardo Barroso que, esta noite, pediu eleições.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Olhando para o que se passou durante cerca de hora e meia em Alvalade, os promotores do protesto conseguiram, em toda a linha, cumprir os objetivos a que se propunham e que dependem apenas de si. “O objetivo era dar voz aos sócios que estão desagradados com o momento do Sporting e conseguimos. Exigimos eleições imediatas. Está aqui muita gente a manifestar-se, com linguagem positiva e a mostrar o seu desagrado de forma pacífica. Não sei se os órgãos sociais nos estão a ouvir ou não. Não exigimos apenas a saída do presidente, mas de todos os órgãos sociais: Conselho Diretivo, Conselho Fiscal e Disciplinar e a Mesa da Assembleia Geral. Temos de fazer reset a tudo isto e dar voz a quem quer o bem do Sporting”, comentou Bernardo Froes, o rosto da manifestação, enquanto ia ouvindo alguns conselhos de lado. “Curto Froes, curto”. “Não fales mais”. “Já está bom”. A comunicação é um poder, mas tanto pode ser algo positivo ou negativo consoante for melhor ou pior usada. Ali, resultou em cheio.

Por volta das 20 horas, não havia muita gente. Se calhar estaria metade ou menos do que mais tarde se registaria. E para quem pensava que poderia haver qualquer tipo de agitação ou confronto (as forças da autoridade presentes no local até estavam do outro lado da estrada, numa postura mais preventiva do que outra coisa), basta pensar que, a certa altura, quando um grupo de cinco ou seis pessoas tentou cantar o nome de Bruno de Carvalho, olhou para o lado, percebeu que estava isolado e acabou por desmobilizar – as duas manifestações esperadas, a favor e contra o presidente leonino, acabaram por transformar-se numa só, a voz única, pedindo eleições antecipadas. Porque “basta”, como dizia o cartaz que, quando chegou ao local, funcionou como início do verdadeiro protesto.

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Mas houve mais dados na retina de um movimento que sabia ao que vinha. Dois exemplos práticos: a primeira vez que se ouviu “Bruno, ca****, pede a demissão”, os assobios abafaram em poucos segundos o cântico, que não queria ofender ninguém mas sim pedir um virar de página na grave crise institucional que o Sporting atravessa; mais tarde, na imagem que se transformou a marca desse protesto, dois rapazes mais novos andavam com caixas de lenços de papel que chegavam a ser atiradas para a zona do passeio onde se concentravam também associados que preferiam ter a perspetiva geral do aglomerado de pessoas. Tudo pensado para, de forma organizada, deixar um statement.

“Está na hora do Bruno ir embora”, foi um dos lemas principais nos cânticos. “Demissão, demissão”, a forma mais curta de explicar o sentimento geral (e único) entre os presentes. Mas entre os mais expostos e os mais resguardados, viram-se várias figuras que poderão não ficar apenas pelo pedido de um ato eleitoral antecipado. E algumas surpresas, como João Santana Lopes, irmão do antigo presidente do clube e primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, e alguns antigos funcionários do clube (sem qualquer cargo como dirigentes) que surgiram numa primeira linha.

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Ao lado, ou de um lado e de outro, encontravam-se caras mais conhecidas entre os opositores de Bruno de Carvalho. Caras como Vítor Ferreira, antigo vice no primeiro mandato do atual líder com a área do património que acabou por deixar a Direção ainda antes das eleições de 2017; como Vítor Espadinha ou Carlos Seixas, ex-conselheiro leonino que renunciaram ao mandato do órgão que será extinto a partir do próximo sufrágio; como Carlos Severino, ex-diretor de comunicação e candidato derrotado nas eleições de 2013; como Pedro Madeira Rodrigues, que perdeu no último sufrágio contra Bruno de Carvalho; como José Pedro Rodrigues, antigo candidato a vice em listas que perderam também nas urnas e que tem sido um dos rostos mais visíveis nas críticas ao presidente leonino.

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No entanto, a todos estes juntaram-se caras menos habituais neste tipo de movimentos. Como Henrique Monteiro, jornalista e diretor editorial adjunto do grupo Impresa. Como Daniel Oliveira, jornalista e comentador que foi durante muito tempo um acérrimo defensor de Bruno de Carvalho. Como Adelino Granja, advogado. Como Margarida Caldeira da Silva, antiga conselheira leonina. Como Nuno Fernandes Thomaz, antigo vice executivo da Caixa Geral de Depósitos que preside agora à Centromarca – Associação Portuguesa de Empresas de Produto de Marca. Pessoas de “fações” diferentes do Sporting, que se identificam com correntes distintas sobre qual seria o melhor projeto para os leões, mas que têm agora um objetivo comum: levar o clube para eleições.