A velocidade com que em Lisboa desaparecem lojas, cafés, restaurantes históricos é tão alta que a Câmara Municipal criou há três anos o programa “Lojas com História“, por considerar que há “urgência na preservação e dinamização deste património”. A Pastelaria Suíça não será um desses exemplos. O famoso café do Rossio deverá encerrar nos próximos tempos, soube-se esta semana, o que traz à memória casas do comércio tradicional que, só na zona do Rossio, nasceram e morreram ao longo das décadas. Mas também há exemplos centenários.

ROSSIO QUE DESAPARECEU

Restaurante Irmãos Unidos

O famoso retrato de Fernando Pessoa que Almada Negreiros pintou em 1954 foi encomendado por esta casa. Lugar preferido da geração de modernistas da literatura portuguesa, situava-se no quarteirão contíguo à Rua da Betesga (ou seja, no lugar do Hospital Real de Todos os Santos, que sucumbiu com o Terramoto de 1755). Começou a funcionar em 1832 e perdurou até inícios da década de 1970.

Loja do Diário de Notícias

Fechou em 2013, mas já não era a loja do Diário de Notícias desde que em 2006 tinha sido transformada em livraria da Oficina do Livro, do grupo editorial Leya. Projetada pelo arquiteto Cristino da Silva, abriu em 1938. Hoje é a Feira de Tecidos, loja originárias de Matosinhos.

Café Chave d’Ouro

Foi aqui que se ouviu a famosa frase “obviamente, demito-o”, que o general Humberto Delgado proferiu a 10 de Maio de 1958 quando um jornalista lhe perguntou o que faria com Salazar caso ganhasse as eleições presidenciais. Número 38 da praça do Rossio, tinha sido fundado em 1916 e encerrou em 1959. “A fachada inicial, representando um anjo, transformou-se rapidamente numa das imagens mais famosas do Rossio”, de acordo com a olissipógrafa Marina Tavares Dias.

Loja das Meias

Lojas das Meias em fotografia sem data produzida pelo Estúdio Horácio Novais

Foi inaugurada em 1905 no mesmo local que em 2007 passou a ser a Benetton, esquina do Rossio com a Rua Augusta. Famosa pela qualidade das meias e espartilhos, tornou-se a primeira loja da cidade com elevador, em 1925. Também aqui, venderam-se pela primeira vez se venderam em Portugal as calças “jeans”, na década de 1960.

Café Portugal

No lugar do café Portugal, que funcionou entre as décadas de 1930 e 80, abriu há três anos o My Story Hotel Rossio, com um restaurante que recuperou o antigo nome. Nos anos 90, o edifício serviu como loja da editora Valentim de Carvalho e ainda hoje acolhe uma sapataria Seaside.

Café A Brasileira

Também chamado A Brasileira da Rossio, apareceu em 1911, seis anos depois de A Brasileira do Chiado. O dono era o mesmo: Adriano Teles, português que tinha feito fortuna no Brasil como exportador de café. A casa fechou em 1960 e apareceu representada com frequência na obra do caricaturista Stuart Carvalhais (1887-1961). Hoje é uma agência do Millennium BCP.

ROSSIO QUE PERSISTE

Café Gelo

Foto: Álvaro Isidoro /Global Imagens

Sala de estar de um grupo de intelectuais no fim da década de 1950: Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Herberto Helder, Luiz Pacheco, Hélder Macedo, tantos outros. E isso tornou-o mítico. Mas já o era: Alfredo Costa e Manuel Buíça tinham estado no Gelo pouco antes de matarem o rei D. Carlos, em 1908. Funcionou entre os últimos anos do século XIX e a década de 1990. Foi hamburgaria e reabriu com o mesmo nome em 2003.

Restaurante Luso Central

Mesmo ao lado no Nicola, destaca-se hoje pela comida italiana e clientela de turistas, muito distante da Leitaria Luso Central, de 1916, que lhe deu origem. Também teve vida como snack-bar Piquenique (ou “Pic-Nic”, dizia o letreiro), até há poucos anos.

Nicola

Café Nicola (Junta Distrital de Lisboa/FCG)

Conhecido como o café do Bocage, por causa da escultura de Marcelino de Almeida que se encontra no interior desde 1929, foi mesmo um dos locais preferidos do poeta setubalense e de tantos intelectuais. Abriu como Botequim do Nicola, por volta de 1779, mas o aspeto atual é já do século XX, com fachada de Manuel Norte Júnior. Negócio de um italiano, foi um dos primeiros cafés de Lisboa.

Tabacaria Mónaco

Diz-se que saíam da Tabacaria Mónaco os cigarros e charutos que os ministros de Salazar ofereciam às visitas. Mais que uma loja, era uma instituição. Fundada em 1875, teve Eça de Queirós e Fialho de Almeida como clientes. Cerâmicas de Rafael Bordalo Pinheiro e murais de António Ramalho decoram o espaço ainda hoje. Um corredor com história que o Ministério da Cultura classificou no ano passado como monumento de interesse público.

Tendinha do Rossio

Alfredo Marceneiro na Tendinha (DR)

Apareceu ao lado do Arco do Bandeira em 1840 e deu mote ao fado “Velha Tendinha”, que Hermínia Silva cantou em 1934. Tasca de artistas, fidalgos e fadistas, foi muitas vezes visitada por Alfredo Marceneiro. Pode ter sido ali que o pintor José Malhoa encontrou o fadista Amâncio, que em 1910 surgiria ao lado da Severa na famosa tela “O Fado”. Hoje serve refeições rápidas e baratas e o vinho nunca falta.

Joalharia Ferreira Marques

A fachada em estilo Arte Nova surge numa das cenas do filme “007 – Ao Serviço de Sua Majestade”, de 1969, parcialmente rodado em Portugal. E também em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, de Manoel de Oliveira, em 2009. A casa começou em 1926 pela mão do portuense Adriano Ferreira Marques e é conhecida pelo interior sumptuoso.

Pérola do Rossio

Junto à Suíça, que está para fechar, fica a Pérola do Rossio, casa de chás e cafés onde não faltam vinhos, doces, bolachas e chocolates, além de bules e máquinas de café. Fundada em 1923 por Mário Lopes de Moraes, tem nos néones do exterior e do interior um elemento decorativo de destaque.

Chapelaria Azevedo Rua

Ostenta o título de mais antiga chapelaria portuguesa, fundada em 1886 por Manuel Aquino Azevedo Rua. Dessa época permanecem balcões e estantes em madeira. É conhecida pelos bonés de gomos e panamás. Os atuais proprietários garantem que o negócio está de pedra e cal.