O Presidente timorense, José Ramos-Horta, desafiou esta quarta-feira, num discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, a realizar uma cimeira com as potências nucleares para discutir a redução do arsenal deste tipo de armamento.

“O meu convite ao Presidente Trump é este: seja audacioso, seja imprevisível, seja visionário. Convide todas as potências nucleares, bem como os principais Estados e indústrias militares convencionais, sem exceção, para uma cimeira algures, talvez numa cidade de Portugal, para discutir um compromisso de não primeiro ataque nuclear“, afirmou José Ramos-Horta no discurso proferido na 81.ª Assembleia-Geral da ONU.

Tal cimeira, segundo o também prémio Nobel da Paz, deveria servir também para reforçar os canais de comunicação entre os líderes das potências nucleares e promover a redução gradual daquele arsenal até à sua total desativação e destruição.

“Seja você próprio. Seja o Presidente Trump. Seja audacioso. Seja imprevisível. Faça o impensável e conquistará a gratidão e o respeito do mundo inteiro“, salientou Ramos-Horta.

No discurso, o chefe de Estado timorense, que falou em português e inglês, recordou alguns palcos de conflitos e de crises humanitárias no mundo.

“Os riscos são demasiado elevados para continuarmos a manter um ‘status quo’ instável. A oportunidade de fazer melhor está diante de nós, e a escolha é entre uma ordem internacional que se desmorona e uma ordem internacional que se ergue para a paz”, disse.

O Presidente timorense salientou também que a realidade das zonas em conflito e das crises humanitárias não é uma abstração.

“Estou preocupado. Preocupado porque começámos a tratar uma catástrofe como algo com que simplesmente aprendemos a coexistir. Preocupado porque a morte de civis está a ser justificadamente banalizada. Preocupado porque a força bruta parece, cada vez mais, soar mais aceitável do que a diplomacia”, disse Ramos-Horta.

O Presidente timorense e prémio Nobel da Paz salientou que “indiferença não é neutralidade” e “silêncio não é segurança”.

“Estas tragédias não são tragédias de outros. São aquilo que permitimos. Aquilo que continuamos a permitir. E aquilo pelo qual, um dia, teremos de prestar contas“, advertiu.

O chefe de Estado timorense falou ainda sobre a organização internacional e defendeu que o futuro secretário-geral das Nações Unidas deve ser proveniente da América Latina e ser uma mulher e insistiu na reforma da organização.

“Timor-Leste defende uma reforma abrangente e a expansão do Conselho de Segurança, tanto na categoria dos membros permanentes como na dos membros não permanentes, para que os países em desenvolvimento e as regiões historicamente sub-representadas tenham uma voz mais forte nas decisões relativas à paz e à segurança internacionais”, disse.

“O direito de veto é incompatível com o princípio da igualdade soberana dos Estados-Membros”, salientou o prémio Nobel da Paz.

Durante a sua intervenção, Ramos-Horta leu também 10 mensagens enviadas aos líderes mundiais por jovens timorenses e homenageou o atual secretário-geral da ONU, o português António Guterres, que termina funções em 31 de dezembro deste ano.

“Manteve-se humilde, honesto e fiel aos seus princípios, cuidando dos milhões de mulheres e crianças rejeitadas e esquecidas, apanhadas no turbilhão de guerras desencadeadas por senhores da guerra”, disse o Presidente timorense.

Ramos-Horta concluiu o discurso a pedir a globalização da compaixão.

“Chegou agora o momento de globalizarmos a compaixão. Não como uma emoção passiva, mas como uma força poderosa para alcançar justiça e paz para todos”, concluiu.