O novo estádio José Alvalade acabou por quebrar uma espécie de tradição que existia no antigo: fosse junto à porta 10A, onde os jogadores entravam e saíam para os treinos, fosse na sala de sócios, era normal haver uma concentração de associados todos os dias, sobretudo os mais velhos, que discutiam a vida do clube entre um café, um jogo de cartas e uma partida de bilhar. Esse hábito caiu e agora, de quando em vez, existem apenas esses grupos, em menor número, na zona de restauração do Alvaláxia. Por isso, e quando um grupo de cerca de dez pessoas via no hall VIP a entrega das listas de Bruno de Carvalho para as próximas eleições através dos ecrãs da Sporting TV, percebia-se que podia haver ali um foco de tensão. Como se confirmou mesmo.

“Eu já o conheço há 30 anos, da altura do filho do João Rocha. O homem nunca se calava nas Assembleia Gerais. A culpa de não termos ganho a Taça foi do Marta Soares”, dizia um sócio para os restantes, em defesa de Bruno de Carvalho e da possibilidade de ser aceite no sufrágio de 8 de setembro. Os outros, mesmo aqueles que pela conversa se percebia concordarem com essa hipótese para o presidente destituído em Assembleia Geral, ouviam e partilhavam também a sua opinião, mas de forma mais calma. Apenas o supracitado associado parecia ter os ânimos um pouco mais exaltados e pior ficou quando o presidente da Mesa saiu da Sala de Reuniões para ir ao encontro dos jornalistas – no seguimento de alguns insultos, Marta Soares pediu para que o sócio fosse identificado e tiveram mesmo de ser os seguranças a retirá-lo daquele espaço, no momento de maior confusão esta manhã em Alvalade. “Quer expulsar sócios, quer expulsar toda a gente. É uma vergonha”, gritava.

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O líder demissionário da Mesa parou depois junto dos restantes presentes e, de forma totalmente pacífica, teve uma curta (e calma) conversa, explicando em traços gerais que é o clube e a sua imagem que perdem com esse tipo de episódios. Uns minutos depois, com tudo serenado, Jaime Marta Soares falou aos muitos jornalistas presentes.

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“Fiz uma análise superficial se tinham tudo o que é necessário mas não é aqui que se decide nada. Agora, existem 48 horas para que os serviços verifiquem todos os pressupostos, seguindo-se mais 48 horas para fazer eventuais retificações que tenham de ser feitas. Se estiver tudo bem e dentro dos direitos dos associados, será aprovada; se não estiver, não será. Nesta altura não posso fazer esse tipo de especulações porque primeiro tenho de ver os documentos. O mandatário desta lista, que está fora do país, enviou-me um email dizendo que não poderia estar presente mas que estaria representado por outra pessoa e aceitei o mesmo. Se vi se estava lá o nome de Bruno de Carvalho? Não vi nada, só me foi entregue a lista, nada mais, mas se é a lista dele, claro que terá o nome de Bruno de Carvalho”, comentou, antes de duas horas de espera até à saída dos membros da lista.

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Na véspera, depois da apresentação formal de João Benedito, Marta Soares tinha sublinhado que nunca se recusou aceitar nenhuma lista e que todos seriam tratados da mesma forma. À chegada de Nuno Sousa, Afonso Pinto Coelho e João Mesquita Trindade, ex-número 1 do Conselho Leonino que continua com o líder destituído, o presidente da Mesa aproveitou o facto de conhecer bem o médico de 77 anos para quebrar um inevitável gelo depois das trocas de acusações na praça pública. Dentro da sala, onde esteve acompanhado por Diogo Orvalho e não Luís Pereira, também ele membro da Mesa da Assembleia Geral, as palavras de circunstância foram muito idênticas. Mas houve uma grande diferença.

Ao contrário do que tinha acontecido com Frederico Varandas, Pedro Madeira Rodrigues e João Benedito, os representantes da lista ‘Leais ao Sporting’ estiveram duas horas na Sala de Reuniões onde as listas têm sido recebidas, naquilo que Nuno Sousa, um dos membros da equipa de Bruno de Carvalho, considerou ser “um procedimento normal e formal, a rubricar os documentos”, mas que não ocorrera antes com nenhum dos proponentes, que estavam pouco mais de cinco minutos da sala. Mais um pequeno detalhe mas que faz toda a diferença nesta espécie de realidade virtual em que todos sabem que a lista esta terça-feira vai ser chumbada “à condição” devido à atual suspensão do antigo número 1 do Conselho Diretivo da condição de sócio por um ano.

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“Bruno de Carvalho vai a eleições, vamos acreditar que irá mesmo. Agora vamos esperar 48 horas para perceber se formalmente está tudo correto e em condições de ser aceite. Depois dos serviços do Sporting se pronunciarem e quando formos notificados, veremos o que irá acontecer de seguida”, esclareceu Nuno Sousa. O que significa isto em termos práticos? Que se, como tudo aponta, os nomes de Bruno de Carvalho, Alexandre Godinho e Trindade de Barros forem “riscados” por estarem suspensos, os mesmos deverão sair para que a lista seja viabilizada. Em paralelo, segundo apurou o Observador, a recolha de assinaturas com o nome de Erik Kurgy como proponente a líder do Conselho Diretivo só está a ser feita de forma preventiva.

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Pouco depois, na página oficial do Facebook, a candidatura não deixou de fazer reparos aos avanços e recuos existentes até à entrega das listas. “‘Feitos de Honra, Leais ao Sporting’, lista candidata aos órgãos sociais do Sporting liderada por Bruno de Carvalho, foi, finalmente, recebida. É lamentável, que o presidente demissionário da Mesa da Assembleia Geral, Jaime Marta Soares (JMS), apenas tenha permitido a receção desta candidatura na sequência de uma ordem decretada por Tribunal, e sob pena de cometer um crime de desobediência (o que, em rigor, com a recusa de ontem, infelizmente sucedeu). Mais uma vez, JMS sujeitou o Sporting a um vexame! (…) Confirma-se que a Justiça portuguesa funciona e que o Sporting atual – “legitimado” por órgãos sociais transitórios sem legalidade, que deveriam atuar com rigor e independência – ficou impedido de praticar uma “justiça” própria, com objetivos definidos por interesses externos que não olham a meios para atingir fins, e teve que abrandar no exercício de trapaças administrativas e no instigar do divisionismo dos sócios – veja-se o resultado que deu o comunicado, pleno de ameaças, que enviou aos núcleos na tentativa de proibi-los de receber quem muito bem entenderem”, destacou.

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