Foi vice-campeão olímpico em K2 1.000 com Emanuel Silva nos Jogos de 2012, em Londres. Foi campeão mundial de K1 5.000 em 2017, tendo ganho ainda mais três pratas e um bronze em K1, K2 e K4 de Mundiais. Foi campeão europeu em K4 1.000 em 2011, K1 5.000 em 2016 e tricampeão em K1 1.000, em 2016, 2017 e 2018. Ganhou ainda duas pratas na primeira edição dos Jogos Europeus, em K1 1.000 e K1 5.000. E se juntássemos aqui os títulos conquistados em Taças do Mundo e nas provas nacionais, tínhamos ainda umas boas linhas por preencher. No entanto, há algo que faz de Fernando Pimenta um dos melhores desportistas portugueses de sempre – mais do que olhar para o que já ganhou, o canoísta tem sempre em mente aquilo que falta ganhar. E foi por isso que este fim de semana acabou por ser histórico para o atleta de Ponte de Lima.

Recordando os 200 milésimos de segundo que o afastaram do ouro em K1 1.000 no último Campeonato do Mundo, era aí que estavam centradas todas as atenções. Não era propriamente a coisa mais fácil, até porque a última qualificação foi realizada de manhã e a final disputou-se por volta da hora de almoço. Ainda assim, Pimenta voltou a ter o condão de simplificar o que parece complexo, vencendo uma das poucas medalhas que ainda lhe faltavam à frente do alemão Max Rendschmidt e do checo Jozef Dostal. Foi o delírio em Montemor-o-Velho, foi o delírio por parte do atleta de Ponte de Lima. Tudo sabendo que este domingo havia mais uma final para disputar, na tentativa de defender o triunfo alcançado em 2017.

“É impossível pedirem-me mais. Vou partir sem pressão tentando fazer uma grande prova. Vou tentar dar tudo para ter uma boa largada, andar na dianteira e atacar com tudo no final”, destacou depois de se ter consagrado o primeiro português a ganhar o ouro numa distância olímpica em Mundiais. Pelo tipo de prova, pela dureza da mesma e por ser claramente o atleta que todos os outros iriam tentar seguir, Pimenta sabia que teria tudo menos facilidades. No entanto, e mais uma vez, o canoísta do Benfica teve mais uma atuação de luxo, revalidando o título mundial em K1 5.000 conquistado no ano passado em Racice numa prova onde se encostou desde cedo à liderança e foi fazendo alguns ataques sobretudo a partir de meio da prova. À entrada para os últimos 300 metros, todas as dúvidas ficaram desfeitas e houve quase festa antecipada em Montemor-o-Velho.

“Se espero ser capa amanhã dos jornais? Espero que sim, hoje não fui mas é a triste realidade que se vive no desporto”, começou por confidenciar nas primeiras respostas aos muitos jornalistas presentes nestes Mundiais. “Estes títulos são para quem está aqui, para quem me apoia nos momentos bons e mais pesados. O treinador disse-me que era possível e só tenho de acreditar nele. Foi uma prova de nervos porque ninguém queria arriscar mas consegui colocar um bom ritmo logo na primeira volta e depois foi seguir. Se fosse preciso ainda dava mais um pouco, ainda tinha mais se fosse preciso”, comentou.

“É o resultado de muito trabalho, do acreditar, do nunca estar satisfeito. Já tinha conseguido fazer história nos outros Mundiais com a medalha de prata no K1 1.000 mas continuei a acreditar em mais. Diziam que era muita pressão para mim mas esses mind games não tiveram efeito nenhum. Foi muito especial o facto de ser em Portugal, é um fim de semana inesquecível para mim, para a canoagem portuguesa, para o desporto português e para os portugueses. Hoje acordei, olhei para o lado, vi a medalha e percebi que não um sonho, que tinha mesmo conseguido. O início foi muito nervoso mas entrei logo no grupo da frente e depois foi gerir, poupar energias e sentir-me bem nas últimas três voltas”, prosseguiu o canoísta nacional.

Não há segredos. Também temos dias menos positivos mas temos é de levantar a cabeça nesses dias. Sabia que tinha de vir para a água e colocar em prática tudo o que tinha feito este ano”.

Agora, fica apenas a faltar um grande objetivo a Fernando Pimenta, acabado de completar 29 anos: ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, depois da prata de 2012 em K2 1.000 com Emanuel Silva e os quintos e sextos lugares em K1 1.000 e K4 1.000, respetivamente, de 2016. Essa será a principal meta em 2020, em Tóquio. E Mário Santos, antigo presidente da Federação Portuguesa de Canoagem e chefe de Missão em Londres, resumiu numa única frase o que poderá acontecer no Japão. “O que se pode esperar de Fernando Pimenta em Tóquio? O mesmo de sempre desde que chegou à Seleção: em dia bom, ganha; em dia menos bom, faz medalha”, explicou após o triunfo mundial no K1 1.000.