“És de Alcoutim e não sabes andar de kayak??? A sério???”
Esta é a frase escolhida pelo Grupo Desportivo de Alcoutim (GDA) para espicaçar os jovens da região a experimentarem a canoagem. Está impressa no cartaz de promoção, colado à porta do Centro Náutico, sobre a imagem de um bebé com uma expressão incrédula e de um fundo com uma canoa a deslizar à superfície do Guadiana. “Vem fazer parte de uma equipa vencedora”, acrescenta.
“Alcoutim é o género de vila do interior em que não é expectável encontrar equipas vencedoras, principalmente porque já não há muita juventude para tal”, diz Bruno Carmo. Também conhecido por “Caldeira”, o treinador da canoagem do GDA é o autor do cartaz. De acordo com os últimos Censos, realizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2021, Alcoutim é o concelho com menor densidade demográfica em Portugal, com cerca de quatro residentes por quilómetro quadrado. Entre os 2500 habitantes do município, não chegam a duzentos os que têm menos de 18 anos.
Bruno, 43 anos, acreditou que essas duas centenas de crianças mereciam continuar a ter um clube para praticar desporto e elevar orgulhosamente o nome da terra. “Quando começámos, há 25 anos, diziam-me que em duas ou três épocas deixaria de ter atletas. E a verdade é que passou um quarto de século e temos conseguido.”
▲ Bruno Carmo é o treinador da canoagem do Grupo Desportivo de Alcoutim
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Nessa fase, o GDA, fundado em 1948, enfrentava o desaparecimento. Primeiro, no final da década de 1990, deixou de haver futebol sénior, para pouco depois acabarem também as categorias de formação. À viragem do século, a histórica instituição encontrava-se praticamente inativa. Bruno Carmo não quis deixar o clube morrer. Crescera em Mértola, onde se tinha iniciado na canoagem, até que uma luxação no ombro, aos 12 anos, comprometera precocemente as suas ambições: “Não fui muito disciplinado na reabilitação”, admite. Mais tarde, em 1996, já a viver em Alcoutim, integrou uma equipa embrionária de canoagem do GDA, que não durou mais do que uma temporada, enquanto também fazia parte da equipa de futebol.
Nesse mesmo ano, a vila algarvia acolheu a seleção russa de canoagem, juntamente com algumas congéneres do leste europeu. “Como forma de pagamento do estágio, os russos deixaram cá algumas canoas e caiaques”, recorda. Uma delas está afixada sobre a receção do Centro Náutico, onde também funciona a sede do clube. “Foi com esse equipamento que contámos quando voltámos a abrir uma equipa de canoagem, em 2001. Eram uns 15 ou 20 caiaques, não estavam em grandes condições, mas arranjámos quase todos”, explica o treinador. Mais tarde, em 2004, através de fundos comunitários, o GDA comprou mais embarcações e pagaias (remos de pá).
Porém, o equipamento não era suficiente. Faltava criar uma cultura da modalidade, uma vez que a vila – tal como o país – tinha as atenções monopolizadas pelo futebol. “Tínhamos um grupo de cinco ou seis atletas, em que eu me incluía, que faziam parte da equipa de 1996. Depois, para cativar os miúdos, tivemos de ir apresentar o projeto na escola”, recorda o treinador. “Havia algum receio dos pais, por causa do rio, dos afogamentos. Ainda hoje temos sempre de combater esses medos, injustificados, pois na verdade nunca tivemos nenhum acidente”.
Desde então, o GDA consegue manter uma base de vinte a trinta atletas por temporada. Não só residentes na vila, mas também em freguesias mais distantes, como Giões, Vaqueiros, Martim Longo, Pereiro, nos concelhos vizinhos de Mértola e de Vila Real de Santo António (VRSA) ou mesmo do outro lado da fronteira, na povoação espanhola de Sanlúcar de Guadiana. O clube já conseguiu arrecadar cerca de trezentas medalhas em várias categorias e escalões, para além de mais de cinquenta títulos nacionais, imortalizados numa correnteza de fotografias exposta no salão principal.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Tendo em conta a nossa realidade de envelhecimento e desertificação, é um palmarés que nos orgulha imenso”, diz Jorge Palma, 28 anos, presidente do GDA, para além de técnico de desporto da Câmara Municipal de Alcoutim e presidente da União das Freguesias de Alcoutim e Pereiro. “Estarmos no interior nunca foi uma condicionante ou algo que nos impedisse de chegar ao maior patamar da canoagem. Claro que é impossível competir coletivamente com os clubes do norte e do centro, que muitas vezes têm 200 ou 300 atletas, mas ter miúdos no topo da canoagem nacional já é um grande motivo de orgulho. Mais importante ainda é construir referências, porque crescemos a ver os mais velhos a triunfar na canoagem e, naturalmente, queremos seguir-lhes as pisadas”.
Ao assumir a presidência, Jorge e o seu grupo de amigos apostaram na dinamização da sede do GDA. À entrada, uma vitrina exibe as taças, enquanto outra, encostada à parede, ostenta vários cartões de sócio. Há dois espaços de ginásio: um mais convencional e outro equipado com máquinas direcionadas à prática de canoagem. Nas escadas para o bar, o símbolo do clube, um brasão simples, dividido entre o verde e o branco, as cores da vila.
▲ "Estarmos no interior nunca nos impediu de chegar ao maior patamar da canoagem", diz Jorge Palma, presidente do GDA, fotografado nas instalações do clube
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
No salão principal, um ecrã gigante para acompanhar as transmissões desportivas na televisão, o bar, as fotografias com os grandes feitos da canoagem e uma, mais antiga, com uma das mais lendárias equipas de futebol. O terraço espaçoso tem uma vista esplêndida para o Guadiana e para Sanlúcar, a gémea espanhola de Alcoutim, separada à nascença pelo caudal do rio. “O clube é um espaço de convívio para os habitantes da vila, principalmente os mais novos, tendo esse lado social também uma extraordinária importância numa povoação sem grande oferta de lazer”, diz o presidente.
Os heróis da vila
O clube já formou atletas de eleição. Um deles, João Albuquerque, chegou mesmo a competir, pagaiada a pagaiada, contra Fernando Pimenta, o melhor canoísta português. “Quando chegou à passagem para sénior, optou por não frequentar a faculdade e concorreu à PSP. Esteve quatro anos em Alhandra, com o rio mais próximo a sessenta quilómetros, o que lhe travou a evolução”, explica Bruno Carmo. “Voltou aqui aos 23 ou 24 anos, e ao fim de um ano andava outra vez na luta com o Pimenta. É um atleta que se não tivesse tido esse interregno poderia ter aspirado a uns Jogos Olímpicos.”
Mais recentemente, também Joana Ramos, outra campeã nos escalões de formação, teve o percurso interrompido pelas dificuldades inerentes ao isolamento geográfico de Alcoutim. “Podia ter ido para a universidade em Coimbra, perto do centro de alto rendimento, mas acabou por ir parar ao Porto. Conseguimos um clube a quinze quilómetros para ela continuar a treinar, mas depois era difícil com os transportes, ia só às vezes, para além de não se ter adaptado muito bem à cultura do novo clube. Continuou a remar, ainda fez um Europeu, agora foi para o Brasil e estagnou. Era mais uma atleta que se pudesse ter permanecido aqui, provavelmente teria atingido um patamar muito elevado”, diz o treinador.
Indiferentes a essas dificuldades, os jovens do GDA chegam ao cais de Alcoutim para um treino matinal. Alguns deles vêm na carrinha da Câmara, que perfaz mais de uma centena de quilómetros para recolher os atletas nas suas aldeias de origem. São os catraios – com idades entre os oito e os 14 anos – que transportam os seus caiaques desde o armazém do Centro Náutico, que os cuidam e os arrumam cuidadosamente, uma tarefa dificultada pelos danos causados pelas tempestades do último inverno, que destruíram as ligações do cais. “Essa responsabilidade em relação ao equipamento dá-lhes uma grande autonomia, benéfica para o seu crescimento”, diz o presidente Jorge Palma, também ele ex-atleta da modalidade.
Leonor Dias, aos 14 anos, é uma das estrelas da companhia: sagrou-se este ano campeã nacional de K1 200 metros, título que somou aos três em K2, numa embarcação com a colega Maria. “Foi ao segundo, nos 200 metros é sempre ao segundo. Treinei muito para ganhar esta prova, já tinha ficado em segundo lugar”, lembra Leonor, que se prepara para integrar o estágio da seleção nacional de infantis em Montemor-o-Velho, sendo a única atleta do sul no seu escalão. “Os maiores clubes estão no norte e no centro do país, existe maior competitividade nos treinos deles”, diz. “Têm mais atletas de referência pelos quais se podem guiar e também treinam mais nas pistas em que são disputados os [campeonatos] nacionais.”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Filha de uma contabilista e de um advogado, Leonor entrou para a canoagem do GDA aos nove anos, influenciada por uma amiga. Rapidamente percebeu que estava mais talhada para os caiaques do que para o karaté e para o ballet, que tinha experimentado antes. “Comecei a ganhar e vi que tinha jeito para isto.” A residir num monte, em Santa Marta, a adolescente leva meia hora no autocarro escolar para chegar às aulas, em Martim Longo. Ao final do dia, apanha o autocarro rumo a Alcoutim para treinar; na maioria dos casos na companhia do irmão mais novo, João Maria, de 11 anos. “A canoagem é muito importante para o nosso concelho, porque nós temos o Guadiana, que é a nossa imagem de marca. Como somos de um sítio pequeno, conseguimos através deste desporto dar reconhecimento à vila, o que é muito bom”, diz.
Leonor vai para o 9º ano de escolaridade, o último oferecido pela básica de Martim Longo. No próximo ano, terá de transitar para a secundária de Vila Real de Santo António, a mais de quarenta quilómetros, o que certamente lhe limitará a assiduidade nos treinos: “Não acho que vá sair da canoagem, mas com a dificuldade em treinar todos os dias, não morando sequer aqui em Alcoutim, pode fazer com que não continue a ser a mesma, ou seja, a ganhar títulos. Mas quero aproveitar, só com o tempo é que vou poder decidir”, diz a atleta, decidida a seguir estudos artísticos, devido ao interesse por pintura e desenho.
▲ Aos 14 anos, Leonor Dias prepara-se para integrar o estágio da seleção nacional de infantis em Montemor-o-Velho, sendo a única atleta do sul do país no seu escalão
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“Aqui temos sempre dois travões”, explica Bruno Carmo. “O primeiro é quando vão para o 10º ano, que só podem fazer em Mértola ou em Vila Real de Santo António. Cada trajeto no autocarro escolar pode demorar até 1h30m, o que complica imenso a comparência nos treinos”. Segundo o treinador, nesse momento acontece uma primeira triagem: “Os que gostam mesmo disto, os que competem e ganham nas competições, fazem o esforço. Os outros, que é mais para fazer desporto, acabam por encontrar outra atividade que lhes dê mais jeito.”
Mais tarde, na entrada para a universidade, surge o segundo entrave, com deslocações para cidades distantes. “Mas eu diria que, nesse caso, já é mais uma opção deles, porque podiam continuar a treinar em clubes das áreas das universidades que frequentam”, comenta o treinador.
O clube de todos os alcoutenejos
“Lembras-te do antigo campo de futebol, onde hoje é a praia fluvial?”, pergunta Luís Canelas, antigo futebolista do GDA. Está sentado com os amigos debaixo do telheiro do restaurante O Soeiro, adjacente ao cais da vila, onde a sombra os salva do sol escaldante.
“Então não lembro?!”, atira outro conviva. “Tínhamos de parar o jogo para as vacas da Ti Alzira e do Ti Manel Teresa passarem”.
Pouco depois, chega um homem de boina, baixo, pele enrugada pelas horas de trabalho ao braseiro.
“Olha, este é o filho daquele casal das vacas”, aponta João Regonha, outra antiga glória do clube.
“É verdade… muita fome matou o leitinho das nossas vacas”, responde o visado.
Conversar sobre as melhores histórias de determinada memória coletiva é sempre um deleite. Em Alcoutim, uma povoação pequena, o exercício é ainda melhor porque os protagonistas dessas mesmas histórias – ou os seus descendentes – vão passando para baixo e para cima, oferecendo comentários e episódios adicionais.
“Tivemos bons jogadores no GDA”, anunciam Canelas e Regonha. “O Russo, o Carrapato, o Pombo, o Cara de Homem, o Casca Grossa…”. Alcunhas de craques que se espalharam pelos montes e barrancos da região, entrando nas casas dos alcoutenejos pelas formosas chaminés que as adornam.
▲ O GDA deixou de ter futebol sénior na década de 1990. No entanto em 1996, quando a histórica instituição se encontrava praticamente inativa, surgiu uma equipa de canoagem
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O GDA nasceu em 1948, fruto do desejo de um grupo de jovens à frente dos quais se destacava Fernando Lopes Dias, que viria a ser naturalmente o primeiro presidente e cujo nome batiza a avenida de entrada na vila. Os garotos de Alcoutim não se sentiam bem-vindos na Sociedade Recreativa Alcoutinense, a agremiação dos senhores influentes da vila, que privilegiavam as tertúlias em prol do desporto. Pediram-lhe algum equipamento desportivo que não usavam e fundaram o novo clube.
O primeiro jogo de futebol “oficial” disputado em Alcoutim desenrolou-se a 14 de setembro de 1948 (dia de feira) e teve como adversário o Grupo Desportivo “O Celeiro”, de Vila Real de Santo António. Ignora-se o resultado. Aos visitantes foram dadas duas alternativas de transporte, ou no “gasolina” (nome popular dado às primeiras embarcações a motor que faziam a ligação regular de passageiros e mercadorias) ou em veleiro fretado. Segundo José Varzeano, autor do folhetim evocativo do 50º aniversário da agremiação, “quando se realizava um jogo de futebol em Alcoutim, havia sempre um baile em honra da equipa visitante”.
Em 1949, o clube manifestou ao Sport Lisboa e Benfica “grande regozijo em ser sua filial”. Para além do futebol, o GDA arrancou com a prática de atletismo, natação e andebol de sete, com duas equipas para se poderem defrontar. No ano seguinte montou uma pequena festa com quermesse, destinando-se os lucros à Secção de Beneficência, para ajudar os mais necessitados. Fizeram questão que o acontecimento fosse celebrado nos antigos dias de feira, entretanto cancelados. Esses festejos transformaram-se nas Festas Anuais da Vila, que ainda hoje se realizam no segundo fim de semana de setembro.
“Ao longo dos anos, foram criados jogos que ainda animam as festas, como o pau de sebo, a travessia do Guadiana a nado e a apanha do pato”, diz Luís Simão, 25 anos, antigo atleta de canoagem. Nota: a apanha do pato é mesmo o que parece, com patos largados no rio e os participantes a terem de nadar atrás deles até os agarrarem.
“E o mestre no pau de sebo era o Avelino, o nosso antigo guarda-redes, que era internacional”, diz Rúben Ribeiros, outro dos presentes na degustação de minis.
“Internacional? Isso significa que vestiu as cores da seleção portuguesa?”, perguntamos. “Não, nem pensar”, esclarece Rúben. “Era internacional porque jogava tanto aqui deste lado como além do lado espanhol”.
Uma vila, um clube, uma comunidade, dois países
Todos os anos, por altura das festas, Alcoutim ainda recebe a partida mais aguardada do ano: a vila algarvia defronta os hermanos de Sanlúcar. “Uma vez, jogámos com dois defesas centrais profissionais, um deles o Gaspar, que jogou no FC Porto. Ele tinha uma namorada espanhola mas jogava sempre por nós”, conta Canelas. “Curiosamente, foi das únicas vezes que perdemos”.
O pior momento aconteceu quando o Carrapato perdeu a cabeça, agredindo o árbitro e direcionando uns impropérios à sua mulher. “Tivemos de ir a tribunal e o Carrapato teve de pagar uns 200 contos [mil euros]”, recorda Epifânio Correia, 62 anos, antigo professor de educação física e deputado municipal em Alcoutim, que transportou o juiz da partida ao hospital.
O mesmo professor assistiu à extinção do futebol das atividades do clube: “A autarquia deixou de apoiar o futebol sénior em 1995. Ainda continuámos com a formação até 2000, muitos por teimosia de gente como eu. Tínhamos escolas, iniciados e juvenis, mas o esforço começou a ser muito pesado para todos e tivemos de acabar com as equipas”, diz Epifânio Correia.
▲ O professor Epifânio Correia fez parte de diferentes direções do clube
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Ainda me lembro de jogarmos fora e de eu e a minha mulher estarmos a fazer sandes às sete da manhã para levarmos para os jogadores”, diz o Sr. Soeiro, dono do restaurante, que também foi presidente do clube.
Jogavam de verde e branco, embora nem sempre assim tenha sido. O primeiro equipamento do GDA era integralmente preto, por influência do seu presidente, Fernando Dias, “na altura em Coimbra e grande adepto da Associação Académica”, escreve Varzeano.
“O clube era muito importante porque juntava a mocidade e preparava as festas, às quais vinham muitos espanhóis”, diz Mário Baptista, guarda fiscal reformado de 93 anos, o sócio mais antigo do clube. No lar de Alcoutim, pejado de utentes, Baptista detém-se a contemplar o cerro diante da instituição, onde na juventude caçava perdizes. Recorda-se melhor das espingardas e dos cães do que dos jogos de futebol do GDA.
Em 1960, o GDA e a Sociedade Recreativa local decidiram fundir-se, dando origem ao Clube 1º de Dezembro, data da criação da instituição. Mas a fusão não resultou. Em 1968/69, o clube estava inativo. Foi só em 1990 que a agremiação recuperou a designação original, por proposta do então presidente Alberto Ferreirinho, no sentido de incluir “Alcoutim” no nome do clube. O GDA passou a disputar provas oficiais, alinhando na 2ª divisão do campeonato distrital. Na estreia, perdeu contra o Castro Marim. Mas na inauguração do novo campo de Alcoutim, onde já não existiam vacas a pastar, o GDA superiorizou-se ao Império por 3-2.
“Lembram-se quando o campo de futebol salão era ali no cais, com tábuas de madeira a servir de tabelas?”, questiona Regonha. “Então não me lembro”, responde Canelas. “Quando chutavam mais alto a bola ia parar ao Guadiana”.
E, assim, o rolo de memórias desportivas da vila foi passando ao longo da tarde, ao mesmo ritmo que as cervejas iam desaparecendo e o sol se escondia, por detrás dos montes e do mar distante.
Tudo pelo desporto
Nos seus quase oitenta anos de existência, talvez o GDA nunca tenha tido um atleta tão promissor como Roderick Carmo. Com apenas 14 anos, já conquistou 11 títulos nacionais, o último dos quais de K1 infantil B no Campeonato Nacional de Esperanças, disputado em Gemeses. “Foi bom, mas quero mais, já estou a pensar no próximo”, atira, após uma hora de pagaiadas junto à margem espanhola, onde a maré estava mais favorável ao treino. “Gosto mesmo muito de competir e treino arduamente para ganhar”.
O apelido não engana: Roderick é filho do treinador Bruno. Começou por praticar natação, antes de experimentar o futebol, no Lusitano de VRSA, e, aos nove anos, tentou a canoagem: “Eu acompanhava os meus pais nos treinos e nas provas e decidi experimentar. Não foi uma questão de ter jeito, eu gostava mesmo da modalidade, só aos poucos é que fui vendo que tinha potencial, não foi logo”, recorda.
▲ “Acordo às 6h30m, treino de manhã, depois para a escola, no fim do dia vou treinar futebol a Faro, regresso depois a Alcoutim pelas 22h, janto, e depois cama”, diz Roderick
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Mas Roderick nunca abandonou o futebol. Depois do Lusitano, passou pelo Desportivo de Tavira (uma das academias do Sporting CP no Algarve), até que foi recrutado pelo Farense, onde alinha nos juniores. O potencial nos relvados também é tão grande que representou recentemente a Seleção do Algarve no torneio Lopes da Silva: “Eu dizia-lhe que na canoagem era o melhor do país e no futebol era o melhor da rua dele”, diz o pai, Bruno. “Neste momento, continua a ser o melhor do país na canoagem e no futebol começa a ser dos melhores da idade dele. Já vai ser difícil escolher.”
Roderick não quer ouvir falar em escolhas. Dentro de poucos dias começa o 10º ano na secundária de VRSA, mas nem essa fatídica fasquia o faz duvidar que conseguirá manter o rendimento na canoagem e no futebol. Como? Com uma agenda absolutamente louca: “Vou acordar às 6h30m, treinar logo pela manhã, depois vou com o meu pai para a escola na carrinha do clube, estudo, no fim do dia vou treinar futebol a Faro, regressando depois a Alcoutim pelas 22h, ainda jantar, e depois direto para a cama”, explica. “Não me canso, é o que eu gosto de fazer”.
E os TPC? “Faço no carro durante as viagens.”
Bruno está mais assustado com a logística do que o filho. Sabe que o problema inerente a Alcoutim, geográfico e demográfico, é de difícil resolução, tão difícil como a ponte rodoviária de ligação a Espanha, prometida há décadas e ainda sem construção à vista. Ou o da dificuldade em construir novas casas, que leva algumas das pessoas interessadas em fixar-se no concelho a desistir da intenção.
“Em relação ao transporte, o percurso entre Alcoutim e VRSA faz-se em 40 minutos, mas o autocarro leva muitas vezes 1h30m”, diz o técnico. “Com tão poucos miúdos no secundário, devia existir uma organização que tornasse o transporte mais rápido. Para estes miúdos com potencial desportivo, devia arranjar-se maneira de apoiar para continuarem a treinar, porque isto não é só dar uma palmadinha nas costas e uma medalha de mérito no final do ano, é preciso arranjar incentivos para eles continuarem.”
O orçamento total do GDA é de 30 mil euros anuais. “Esse dinheiro tem de dar para tudo”, diz Jorge Palma. Além da canoagem, o GDA conta com uma secção de trail, mais descentralizada, com o grosso dos atletas deslocados da vila e a participar com meios próprios. “Depois, organizamos umas festas e uns eventos para juntar dinheiro para extras, como uma embarcação nova ou uma máquina para o ginásio.” Os gastos são exponenciados pelos custos de deslocação para as competições, realizadas maioritariamente no norte e centro do país. “Aqui, os jovens não pagam nada para praticar desporto, só têm de ser sócios, com quotas de um euro por mês, e talvez pagar uma das refeições nas provas a realizar longe de Alcoutim”.
Com a ampulheta do envelhecimento a não dar tréguas, o futuro é incerto. Tanto Bruno como Jorge gostariam de passar o testemunho, mas as opções não são vastas. Até arranjarem substitutos, têm de continuar a manter o clube operacional.
▲ O GDA consegue manter uma base de vinte a trinta atletas por temporada. Não só residentes na vila, mas também em freguesias mais distantes ou mesmo do outro lado da fronteira
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Na vila, preparam-se as festas recuperadas pelo clube há mais de 70 anos, e agora organizadas pela autarquia. O pitoresco palco instalado no cais, de costas para Espanha, prepara-se para receber Tony Carreira e a enchente prevista é tão grande que três dias antes já se liberta espaço para estacionamento nas imediações da povoação [as festas tiveram lugar em setembro, depois da realização desta reportagem em Alcoutim]. Os preparativos são assumidos por voluntários, os mesmos que, nos tempos mortos, se juntam à mesa do “Soeiro” a contar histórias de contrabando e de golos contra os espanhóis.
Dentro de uns anos, é expectável que contem as façanhas de Roderick com a camisola verde do GDA. Uma delas poderá acontecer já este mês; num sábado de outubro, depois do estágio com a seleção, tem jogo de manhã em Faro contra o Benfica e uma prova de canoagem horas depois, em Silves. Qual das competições Roderick vai escolher? O pai suspira. “Já me disse que vai às duas.”
Mais do que Desporto é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a importância do desporto na sociedade. Resulta de uma parceria com o BNP Paribas Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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