Aos 16 anos, já ganhava medalhas de ouro em mundiais de natação, os primeiros da sua carreira. Dois anos depois, batia recordes do mundo e esperava-se que tomasse de assalto os Jogos Olímpicos de 1984, mas o boicote da Alemanha Oriental à competição impossibilitou que marcasse presença em Los Angeles. Não perdeu pela demora: quatro anos mais tarde, em Seoul 1988, tornar-se-ia a primeira e única mulher a conquistar seis medalhas de ouro numa só edição dos Jogos Olímpicos, já depois de lhe terem sentenciado o final de carreira, em 1985. A história de Kristin Otto é curta, mas intensa — tal como a carreira dentro das piscinas.

Nascida a 7 de fevereiro de 1966, em Leipzig, na altura, território pertencente à Alemanha Oriental, começou a nadar aos 11 anos, na Academia de Halle, onde os treinos físicos eram prato do dia, com várias horas de natação e levantamento de pesos a serem alternadas com outras tantas de estudo. Não é por isso de estranhar que de Halle tenham saído muitos dos atletas olímpicos da Alemanha Oriental, servindo não só propósitos desportivos como também de afirmação política.

Desde cedo os responsáveis de Halle repararam no potencial desportivo de Kristin Otto, principalmente a sua capacidade para atuar bem em diferentes estilos da natação, o que, claramente, se configurava como uma vantagem competitiva para a alemã. Aos 16 anos, em 1982, entrou nos seus primeiros campeonatos do mundo, em Guayaquil, no Equador, e de lá levou as primeiras medalhas de ouro nos 100 metros costas individuais e nas estafetas livres e de estilos. 

Há 30 anos, Kristin Otto chegava a Seoul para participar em seis provas e vencer todas elas, ficando na história como a única mulher a fazê-lo (Créditos: Getty Images)

Eram três ouros para uma jovem de 16 anos, na sua estreia em provas internacionais. Se os dois conquistados em conjunto com a equipa alemã não causaram assim tanta estranheza, dado o potencial da formação germânica, o triunfo nos 100 metros costas individuais foi o primeiro sinal dado ao mundo da capacidade de Kristin Otto: a adolescente bateu a compatriota mais experiente Ina Kleber (1:01.47) e a norte-americana Sue Walsh (1:02.86), arrecadando para si o primeiro lugar na prova (1:01.30).

No ano seguinte, a alemã continuou a ascensão na carreira, quebrando a barreira do minuto nos 100 metros costas, cumprindo a distância em 59,97 segundos, antes de, já a 23 de maio de 1984, bater o recorde do mundo de 200 metros livres, uma marca que pertencia a Cynthia Woodhead e que só a 18 de junho de 1986 seria ultrapassada pela também alemã Heike Friedrich.

Tendo em conta os resultados apresentados pela jovem nadadora e a capacidade da equipa alemã para funcionar em conjunto, era de prever que Kristin Otto fosse até aos Jogos Olímpicos de Los Angeles recolher umas quantas medalhas, mas tal não aconteceu devido ao boicote da Alemanha Oriental e de mais 13 países do Bloco de Leste, que não participaram na competição. 

Silke Horner, Birte Weigang, Katrin Meissner e Kristin Otto, as vencedoras dos 100 metros estilos nos Jogos Olímpicos de 1988 (Créditos: Getty Images)

Enfrentada a desilusão de não se estrear em Jogos Olímpicos, Kristin teria ainda pela frente um período mais negro: em 1985, fraturou uma vértebra e ficou nove meses fora de competição, com vários especialistas a darem por terminada a carreira da nadadora.

Mas a alemã era um osso duro de roer e, um ano depois, voltou às piscinas e às conquistas: nos mundiais de Madrid, arrecadou seis medalhas (quatro de ouro e duas de prata), abrindo caminho aos Europeus de 1987, onde conquistou mais cinco medalhas de ouro.

Estava dado o mote para Seoul 1988 e uma histórica prestação, ainda hoje fora do alcance de qualquer atleta feminina: há 30 anos, Kristin Otto conseguiu a proeza de conquistar seis medalhas de ouro nas seis provas em que competiu, posicionando-se assim como a segunda nadadora mais medalhada de sempre, a par da norte-americana Amy Van Dyken (seis medalhas de ouro) e apenas atrás da também americana Jenny Thompson, com 12 medalhas alcançadas.

22 SEP 1988: O pódio dos 100 metros costas, com Kristin Otto em primeiro, Kisztina Egerszegi em segundo e Cornellia Sirch em terceiro (Créditos: Getty Images)

Kristin Otto venceu o ouro em 50 metros livres (25.49), 100 metros livres (54.93), 100 metros costas (1:00.89), 100 metros mariposa (59.00), 4×100 metros estilos (4:03.74) e 4×100 metros livres (3:40.63), conquistando assim seis medalhas nos únicos Jogos Olímpicos em que viria a participar na carreira.

E a alemã acabaria por se despedir das piscinas em grande, já que, no ano seguinte, acabaria por se retirar, com três distinções amealhadas na curta carreira: Melhor Nadadora Feminina do Ano 1984, 1986 e 1988 pela revista Swimming World.

Já depois de se retirar, viu os seus resultados manchados por uma confissão dos treinadores da Alemanha Oriental, em 1991, que confessaram ter distribuído esteroides e outras substâncias proibidas aos seus atletas, sem o conhecimento dos mesmos. Ainda assim, Kristin Otto passou em todos os testes de controlo anti-doping realizados durante a competição, pelo que acabou por manter a sua imagem intacta, chegando mesmo a afirmar: “As medalhas são a lembrança do quão duro eu trabalhei. Não foram as drogas”. 

Atualmente, Kristin Otto é repórter desportiva numa estação televisiva alemã e mantém-se como a única mulher a conquistar seis medalhas de ouro numa edição dos Jogos Olímpicos, um feito com três décadas.