Os textos que o cinéfilo e programador João Bénard da Costa escreveu durante décadas para a Cinemateca Portuguesa vão ser reunidos numa edição de vários volumes, sendo que o primeiro vai ser lançado no sábado em Lisboa.

“João Bénard da Costa – que morreu em 2009 – viu o cinema de um lugar muito alto e viu nele, até ao fim, o trabalho do sonho. Os seus textos são a exata expressão disso”, afirma o atual diretor da Cinemateca, José Manuel Costa, no prefácio deste primeiro volume.

Num projeto editorial longo, que dura há quase uma década, esta edição apresenta dezenas de textos que o autor escreveu entre 1980 e 2009, no âmbito das atividades de programação e direção da Cinemateca. A obra será dividida em dois tomos, cada um deles com vários volumes ainda a definir.

Nos dois tomos estarão presentes “todos os textos escritos para a Cinemateca Portuguesa, seja como folhas de sala seja no âmbito de livros editados ou coeditados pela instituição, e ainda as folhas escritas para a Fundação Calouste Gulbenkian, cuja quase totalidade foi retomada na Cinemateca”, lê-se nas primeiras páginas.

No prefácio, José Manuel Costa recorda que João Bénard da Costa “cultivou uma abordagem direta, pedagógica e empática, (…) escreveu admiravelmente sobre filmes ao mesmo tempo que sobre si próprio” e “foi evoluindo ao longo dos anos para uma escrita que, ao mesmo tempo em que se tornava cada vez mais pessoal, se convertia num dos maiores gestos de valorização pública do cinema que marcaram o seu tempo e o seu contexto”.

Citando referências para o antigo programador como Henry Langlois, André Bazin e os Cahiers do Cinema, José Manuel Costa deixa um longo elogio: “Se, para a escrita de João Bénard da Costa, não encontramos linhagem ou paralelo na crítica ou na história, isso deve-se, antes de mais, ao facto de ele não ter realizado nem crítica nem história, mas algo que nasceu no coração do ato programador”.

O primeiro volume conta ainda com um texto introdutório do realizador finlandês Peter von Bagh (1943-2014), amigo pessoal de João Bénard da Costa, que o descreveu como “um filho do privilegiado século do cinema”.

Neste texto, escrito em janeiro de 2013 e intitulado “Lembrando João Bénard da Costa: Ele escrevia à mão”, Peter von Bagh afirma que o amigo era “essa definição dourada e inspirada da cinefilia que fez transparecer dos filmes uma compreensão copiosa do mundo, e das profundezas da psique humana”.

“O João [Bénard da Costa] é um caso impossível em termos de classificação. Não é um historiador, e também não é um crítico. Era simplesmente um grande escritor que, felizmente para nós, encontrou no cinema o fulcro da sua realização literária”, afirmou.

A edição de “João Bénard da Costa – Escritos sobre Cinema”, uma obra “imensa, gigantesca”, assinala também, simbolicamente, o arranque da comemoração dos 70 anos da criação da Cinemateca Portuguesa, que se estenderá por 2019, como disse José Manuel Costa à agência Lusa, no início de setembro.

João Bénard da Costa morreu em 2009, aos 74 anos. Além dos cargos de direção que teve na Cinemateca, entre 1980 e 2009, dedicou-se à crítica e ao ensaio com várias obras publicadas. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi ainda um dos fundadores, em 1963, da revista O Tempo e o Modo, juntamente com Alçada Baptista, que dirigiu até 1970.

Dirigiu ainda o Setor de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presidiu à comissão organizadora das Comemorações do Dia de Portugal. Foi distinguido e condecorado em Portugal e em França. Em 2001 foi galardoado com o Prémio Pessoa.