Ciência

Grupo de investigadores diz que estudo sobre genética dos homens da península ibérica é “fake news”

Investigadores de Portugal e Espanha criticam notícias sobre alegada invasão, há 4.500 anos, que acabou com os homens da Península Ibérica. "Fake news", dizem, apesar de não terem acesso ao estudo.

Mashable/UNIVERSITY OF LEICESTER ARCHAEOLOGICAL SERVICES (ULAS)

“Genética de uma ‘fake news’: desafio à imprensa sobre as notícias de invasões e extermínios no terceiro milénio a.C. na Península Ibérica”. É assim que começa uma carta assinada por um grupo de 45 investigadores, portugueses e espanhóis, que contestam o estudo científico divulgado esta semana pelo El País (a ser publicado na Scientist) que dá conta do desaparecimento dos homens da Península Ibérica há 4.500 anos. Os investigadores, contudo, admitem ainda não ter tido acesso ao estudo — cujas conclusões foram apenas anunciadas num evento organizado em setembro pela revista, aguardando-se ainda a publicação integral do estudo.

Não tendo acesso ao estudo na totalidade, o que os investigadores ibéricos contestam é o tratamento que foi feito da informação: as notícias apontam para uma “invasão” de yamnayas — grupo vindo do Leste europeu — que terá apagado praticamente do mapa os homens que viviam na Península Ibérica há cerca de 4.500 anos. É a referência a “invasão” e “extermínio” que os investigadores contestam, sobretudo pelas implicações que esses termos podem ter nos “fenómenos das migrações e da xenofobia” dos dias de hoje.

A avaliação dos peritos refere-se a um conjunto de notícias saídas na imprensa portuguesa e espanhola relativas aos resultados de um estudo arqueogenético, em que se fala (nas notícias) de extermínios, invasões, escravizações — não só devido à total falta de rigor do noticiado, como às implicações que tal discurso pode ter nos conturbados tempos que vivemos na Europa relativamente ao fenómeno das migrações e da xenofobia. os signatários entenderam tomar esta posição, e lançar um desafio, que muitos gostaríamos que fosse publicado. Um texto traduzido para castelhano está a ser enviado à imprensa daquele país.

Segundo as notícias sobre o estudo, nomeadamente do El País, os yamnayas contavam com uma inovação tecnológica que lhes permitiu ocupar rapidamente as terras na península: veículos com rodas. Os invasores, segundo uma equipa internacional de cientistas, liquidaram os “machos” que então viviam na península e “pouparam as mulheres”, o que resultou em alterações no código genético.

O próprio geneticista norte-americano que anunciou a descoberta num evento organizado em setembro pela revista New Scientis, David Reich, admite que se tratou de uma invasão. “O encontro entre estes dois povos não foi amigável, sendo que os yamnayas dizimaram quase por completo os homens locais”, disse.

Mas o grupo de investigadores portugueses e espanhóis contesta isso mesmo. “Enquanto aguardamos com expectativa pela sua publicação, foi com enorme perplexidade e com maior preocupação que, enquanto investigadores que estudam as sociedades peninsulares do 3º milénio a.C., nos confrontámos com os conteúdos da notícia. A utilização de expressões como invasão, extermínio, escravatura, não só está longe do discurso da investigação peninsular de há muitas décadas a esta parte, como não tem suporte empírico no conhecimento que nos é proporcionado pela Arqueologia sobre as sociedades deste período”, dizem na carta a que o Observador teve acesso, e que foi enviada para os órgãos de comunicação social portugueses e espanhóis que veicularam a notícia.

Para os investigadores, o facto de vivermos tempos “conturbados” em relação aos “fenómenos migratórios e todas as convulsões políticas e sociais com eles relacionados”, faz com que sejam precisos cuidados redobrados com o tema. “A atual sensibilidade política e social relativamente aos processos migratórios, ou simplesmente relativa ao “estrangeiro”, pede, a todos os que trabalham estas temáticas no presente ou no passado, e aos que se associam à sua divulgação, responsabilidade, seriedade e compromisso ético”, dizem.

“Como investigadores, conhecemos a prudência e rigor com que os responsáveis deste estudo tratam as suas investigações. Surpreender-nos-ia que a forma como foram transmitidas nos meios de comunicação portugueses e espanhóis esteja avalizada por eles. Estamos em crer que o trabalho fonte, que está em processo de avaliação e que, portanto, não se pode tomar ainda como uma posição final reconhecida pela comunidade científica, não estará em concordância com as notícias que a imprensa tem transmitido, de forma infundada e carente de rigor”, terminam, dizendo que as notícias veiculadas sobre o estudo são um “perigoso absurdo”.

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