Terça-feira, 29 de Setembro, Assembleia Municipal de Lisboa. Discutiam-se encómios ao Dia Europeu sem Carros em documentos do PS e do PSD, apreensivos pela “sustentabilidade”, a “neutralidade carbónica”, o vício egocêntrico do “ser humano” e o futuro do planeta. O próprio nome da celebração escolhia o adversário: o carro particular. Curiosamente, todos aqueles beneméritos desprezavam a constatação fundamental: eles não combatem os carros, combatem as pessoas que andam de carro. Para se reduzir o número de carros, levantam-se obstáculos às pessoas que os usam. Não estou (ainda) a discutir se a decisão é boa ou má (é péssima). Mas convém recusar eufemismos que simulam neutralidades técnicas ou científicas para esconder escolhas políticas. O carro é uma extensão da liberdade individual. A luta contra os carros resulta de uma concepção política da relação entre o Estado e o indivíduo. Esta estúpida efeméride inventada pela União Europeia assenta numa ideia que a esquerda conseguiu impor – e que lhe serve instrumentalmente na luta contra o capitalismo.
Não, não “há lugar para todos”. Desde logo porque a largura das ruas não é elástica. Quando se retira uma faixa de rodagem para se desenhar ali uma ciclovia a largura dela não aumenta o espaço entre edifícios. Ciclovias, faixas de rodagem, corredores BUS, árvores, passeios, paragens de autocarro, todos concorrem pelo mesmo espaço limitado. Existem na cidade, pertencentes aos seus moradores, entre 160 e 200 mil automóveis. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, entram mais 370 mil automóveis de pessoas que moram nos outros concelhos da área metropolitana e vêm aqui trabalhar; dois em cada três empregos em Lisboa são ocupados por pessoas que vivem fora. O destino de cada metro de rua é produto de escolhas difíceis, nem sempre entre o que podemos ter, mas muitas vezes entre o que teremos de perder. Giulio Andreotti dizia que a política era a arte de distribuir com equanimidade o descontentamento. Deviam lembrar-se disto todos os especialistas instantâneos que comentam a maneira como se distribui a mobilidade numa cidade velha e pressionada como Lisboa.
Um truque velho relho. A esquerda apresenta as decisões políticas como técnicas, ambientais ou urbanísticas de modo a parecerem neutras, como esta de retirar espaço aos automóveis – uma birra de estimação. A liturgia contou com a proverbial indolência da direita, de tal maneira que os pressupostos da esquerda são hoje entendidos como neutros e triviais; questioná-los ou contrariá-los é apontado como excentricidade ideológica. Retirar espaço aos carros particulares pode ser uma escolha legítima. Devolver esse espaço também. Ambas as decisões são políticas e ambas são legítimas desde que devidamente sufragadas. A democracia aceita e agradece a pluralidade de convicções, mas exige escolhas reveladas e escrutináveis, em vez de políticas disfarçadas de inevitabilidades técnicas.
Um exemplo? Na mesma reunião plenária, a Iniciativa Liberal declarou um saudável repúdio pela proposta de uma bancada que pedia à Câmara para subsidiar compras e consertos de bicicletas. A IL ia bem encaminhada até recomendar à Assembleia que esse dinheiro fosse gasto em ciclovias. Ou seja, contestou a despesa concreta do subsídio, mas recomendou logo uma despesa equivalente, sem contestar a ideia de o Estado orientar a mobilidade – sobretudo impondo uma solução que faz a vida num inferno a milhares de pessoas, para favorecer um grupo muito pequeno e vocal. Não passou por nenhuma cabeça liberal que havia uma terceira possibilidade: o Estado não gastar e devolver o dinheiro aos contribuintes. Afinal, os portugueses não têm excesso de salário, têm excesso de impostos. Nem a própria IL concorda com isto? Também acredita que o Estado tem dinheiro, e que a política trata apenas de escolher entre gastá-lo aqui ou ali? Quando um partido que se apresenta como “liberal” aceita a premissa, compreende-se a extensão deste pensamento dominante.