Para Sofia e Nuno Ramos, o cante alentejano é coisa de família. A mãe destes dois irmãos, respetivamente de 28 e 34 anos, nasceu no Alentejo e muitos dos verões eram passados na aldeia de Safara, em Moura. O avô fazia parte do grupo coral da aldeia e “cantava muito bem”, pelo que quando a família se juntava “havia muita partilha de modas alentejanas, cantávamos umas coisas”, conta Sofia Ramos ao Observador. Ela cantora de fado, ele cantor e guitarrista com apreço pela música alentejana mas também pelo rock e eletrónica, ficaram com “o bichinho de fazer qualquer coisa com o cante”. Em vez de integrarem um grupo coral, pensaram: porque não fazer uma banda, cantando e tocando repertório tradicional com melodias mais modernas?

A ideia cimentou-se em 2014, quando Sofia Ramos fazia uma residência artística no bar de concertos Povo, no Cais do Sodré, em Lisboa. Embora à época o fado, que continua a cantar, fosse o seu estilo musical predileto, tinha vontade de explorar outras sonoridades. Para iniciar um projeto relacionado com o cante alentejano, o irmão era uma escolha óbvia, até porque “é das pessoas mais ligadas ao cante, mais enraizadas, porque viveu ainda mais o Alentejo do que eu, por ser mais velho”. Faltava juntar uma peça: o contrabaixista Francisco Brito, mais conhecedor da linguagem do jazz e também por isso “com uma capacidade brutal de criar melodias que não são logo óbvias do cante mas que se conjugam muito bem com ele”, era o elemento que faltava ao trio. Juntos, são os Magano e editaram este mês o primeiro álbum, homónimo e inspirado no repertório tradicional.

O desafio era grande e o risco não era menor. Transformar ou adaptar uma tradição que na sua génese é cantada por grupos corais masculinos a uma banda de três elementos com guitarra, contrabaixo e uma voz feminina, exigia prudência na interpretação, explica Sofia Ramos: “Quando começámos a tocar no Alentejo, íamos com algum receio. É uma música muito singular, própria daquela zona do país. Mexer naquilo que é a tradição muitas vezes não é bem visto”.

[“Chamaste-me Extravagante”:]

Se a reação aos primeiros concertos de 2014 tivesse sido outra, é possível que este primeiro disco de treze temas (de “Sarapateado” a “Trigueirinha Alentejana”, passando por “Pavão, Lindo, Pavão” e “Açorda d’Alho”) não existisse hoje. Mas a resposta foi “surpreendentemente boa. As pessoas mais velhas e que cantam acham muito interessante que nós, que somos jovens e não vivemos no Alentejo, tentemos dar uma volta ao cante para ele sair do Alentejano, interpretando-o de forma diferente”. Inicialmente, conta Sofia Ramos, a expectativa era que a música da banda tivesse um público “de um grupo etário mais velho”. Hoje, pela aceitação que também sentiram de jovens ouvintes, já não “acreditam muito” nisso.

Entre os vários episódios e factos paralelos que influenciaram a formação da banda, há um que é caro a Sofia Ramos: a evolução do fado. Embora sejam músicas tradicionais distintas, no fado a cantora tem visto “uma geração mais interessante e que se calhar tem alguma coragem em agarrar uma coisa que é tradicional e renová-la, para chegar a mais gente”. Faltava fazer isso no cante, tentando “respeitar ao máximo a base”, que é a forma de cantar arrastada e profunda, mas promovendo uma adaptação mais livre nos “arranjos e melodias”, que o trio sente que, refrescados, podem levar mais jovens a interessar-se por esta tradição.

A capa do disco dos Magano, editado no início deste mês (Universal)

“O mundo está em constante mutação e a nossa geração não tem nada a ver com as gerações anteriores. A música não nos chega da mesma forma e é preciso renovar a música tradicional, não a deixar morrer, reinventando-a mas respeitando-lhe a matriz”, conclui a cantora. Foi isso que tentaram fazer neste álbum de estreia, com o qual estão “satisfeitos” e que conta com convidados como André Santos (viola de arame e braguinha no tema “Pavão, Lindo, Pavão”), André Gomes (eolina em “O que é Feito dos Velhos Montes”) e André Sousa Machado, na bateria e percussões. O resultado é Magano, cante alentejano reinventado e arejado, para ouvir em CD ou em streaming, à boa moda do século XXI.

[“Sarapateado”:]